Capítulo 28 – Redenção

 

Capítulo 28 – Redenção

Acordar numa cela… Acordar numa cela ao lado de um criminoso… Nem em mil pesadelos, Armando viu-se numa situação humilhante, e degradante como essa. Nem queria imaginar o que se dizia na empresa, que ele o “todo-poderoso” estava a apodrecer na cadeia… E, o motivo? Recuperar a mulher que amava. Quem o podia recriminar? Ele só queria dar um susto a Pablo. Qualquer homem faria o mesmo, certo? Um marido tem o direito de fazer o que for necessário para defender o seu casamento. Até que a morte nos separe. Até que a morte nos separe…

Os dias eram longos, as 24 horas transformavam-se em 48 horas. Até o movimento dos ponteiros do relógio funcionavam em câmara lenta. Insuportável. Inacreditável, Deborah, iria pagar por tudo. Tudo aquilo pelo que ela o fez passar… Assim que saísse iria mostrar-lhe…

No início, estava na cela sozinho. Teve o privilégio de não ter de partilhar a cela com ninguém. A maioria dos homens que lá estavam eram assassinos, ou assaltantes à mão armada. “Gentalha” sem escrúpulos, como ele costumava dizer. Porém, a sorte não demorou muito. Juntou-se a ele um homem, com alguma idade, com um ar cansado, mas estranhamente em paz. Passava o dia a ler livros, e praticamente não falava com ninguém. Armando, sentiu-se intrigado com o companheiro de cela. Ninguém sabia o motivo pelo qual ele estava preso, mas não tinha ar de assassino, nem de ladrão. Mas, também as pessoas não têm ar disso, caso contrário eram presas mesmo antes de cometer o crime, apenas para prevenir…

João, era esse o seu nome, era muito reservado. Não falava, cumpria sempre as ordens, não mostrava nem um pouco de cansaço ou remorso. Parecia que estava de férias na prisão, aceitando a sua condição. Armando, não aguentou e iniciou uma conversa com ele.

- Posso saber o que está a ler? – Perguntou com uma voz sumida.

- Ah… Estou a ler “A melhor coisa que me aconteceu”, de Luís Fernando. – respondeu, surpreendido pela pergunta de Armando.

- E… o livro é bom? – Voltou a questionar.

- Na minha opinião, sim. Muito bom. Está a ajudar-me muito.

- Como pode um livro ajudar-te? Estás aqui na prisão. Tem algum plano infalível de escapatória? – Respondeu com um tom sarcástico.

- Ah… És desses… - Sorriu. – És desses que está sempre à procura de respostas práticas. Este livro fala sobre acontecimentos traumáticos, coisas que nos custam aceitar, que nos revoltam… Coisas que têm a tendência para assombrar a nossa vida e, mudar completamente quem somos, se as deixarmos ganhar o controle.

- Como por exemplo estarmos aqui nesta prisão?

- Exatamente. E, vai ainda mais além, o livro explica como podes mudar o significado dessas, dessas situações, por forma a que possas seguir em frente e, não permitir que te limitem. Ele fala da ressignificação. Não podemos alterar o passado, mas podemos mudar o que pensamos sobre ele.

- E, isso ajuda como? A sair daqui é que não!

- Isso ajuda-te a perceber que a pior coisa que te aconteceu pode ser a melhor coisa que te aconteceu.

- Como? Como pode ser a melhor coisa que me aconteceu estar aqui nesta cela, neste inferno?

- Ah... Isso, cabe-te a ti descobrir. Eu já li este livro várias vezes. – Fechou o livro e esticou o braço até Armando, entregando-lhe o livro. – Aconselho-te a ler. Não te vai morder e ajuda a passar o tempo. No final se não fizer sentido para ti, não faz sentido para ti. Não tens nada a perder.

- Pois… Tempo é aquilo que eu tenho de sobra! – Armando, suspirou. – E, se me permites questionar-te por que motivo estás aqui? Não tens ar de criminoso.

- Não sabia que os criminosos tinham ar. – Sorriu. – Estou aqui porque tive de defender a minha filha, e acabei por usar força a mais. Um segundo, má análise da força a aplicar, e olha, estou aqui.

- Defender a tua filha?

- Queres mesmo saber? – Perguntou. – Olha que é uma longa história.

- Temos todo o tempo do mundo, certo?

- Então vamos a isso. A minha filha, o meu tesouro, a minha princesa… - Emocionou-se. – Casou-se com um homem que ao início parecia uma pessoa íntegra, com valores, um cavalheiro. Parecia o homem ideal para ela. Cuidava dela… Mas, isso foi na fase de namoro. Depois, quando casaram ele mostrou as garras. Era abusivo. Batia-lhe…

- De certeza que ela fazia por isso. Qual o mal de ser dar um corretivo? – Armando, afirmou. – Se não se portam bem…

- Não há nada que justifique um homem bater uma mulher. Nada! Isso não é coisa de homem, só um cobarde é que bate em alguém que sabe que não tem como se defender, ou força para contra atacar. Não cabe ao homem dar corretivos à esposa. Não está contente com o comportamento, conversam. Tentam resolver, se não der, separam-se.

- O casamento foi feito para durar até ao fim. – Armando ripostou como que a defender-se.

- Não. O casamento foi feito para unir duas pessoas que se amam de forma legal, para criar benefícios para a família que vão criar. O casamento não é carta branca para a violência. Pessoas que se amam não se agridem. Não se agride quem se ama. Não faz sentido. Se não estamos satisfeitos, se não estamos felizes seguimos o nosso caminho. A violência nunca é a solução, muito menos quando não há hipótese de defesa. Cobardia.

- Um corretivo, por vezes, é a melhor forma de colocar ordem.

- Armando… Nada justifica.

- O meu pai dava uns sopapos à minha mãe de quando em vez e eles viveram juntos muitos anos. Ela nunca o deixou.

- Então, foi isso que aprendeste. Por isso achas normal. A tua mãe era feliz?

- Feliz? O que isso importa? O objetivo da vida não é ser feliz, é singrar. Construir um império, garantir que não nos falta nada. Ela teve uma casa, comida na mesa… Nunca lhe faltou nada.

- Aí está o maior problema do mundo. Achamos que o propósito é termos cada vez mais, sem nos apercebermos que temos cada vez menos. As mulheres não precisam de impérios, precisam de ser amadas e cuidadas. Eu, não criei a minha filha para um bruto a magoar a torto e a direito. Apenas, porque não consegue o que quer do mundo, vai descontar a sua raiva numa mulher indefesa. Isso é cobardia. Aquele cobarde bateu na minha filha e quase a matou. Para além da dignidade que ele retirou, retirou-lhe a alegria de viver. Mas, um homem como tu, pelo que vejo semelhante, nunca vai perceber o que isso é. Não é com a violência que se conquista o que se quer, é com amor. Mas, ninguém dá aquilo que não tem para dar. A minha filha, finalmente fugiu e foi ter connosco. Ela nunca nos tinha contado o que se passava, e nós achávamos estranha a ausência dela. Um dia, o louco, foi até lá casa e começou a arrastá-la pelos cabelos a gritar que ela tinha de voltar para casa. À minha frente. Obviamente que eu corri para defendê-la. Desferi-lhe um soco com mais força do que queria, ele caiu e bateu com a cabeça no chão. Não se levantou mais. Ficou ali… E, eu vi a minha vida a andar para trás. Eu que sempre fui contra a violência, acabei preso por usar da violência. Mas, tinha de defender a minha filha. É desumano um homem usar a força contra uma mulher, principalmente a mulher que prometeu amar, cuidar e proteger. Mas, percebo que nunca vás conseguir perceber isso.

Armando, ficou calado a ouvir a versão de João. Quais seriam as probabilidades de ter como companheiro de cela alguém do lado oposto? Um homem que defendia que não se batia em mulheres. As palavras de João ressoaram-lhe na mente durante noites a fio. Será que o pai dele sempre teve errado? Será que a Deborah tinha razão? Será que as coisas tivessem sido diferentes, se ele a tivesse tratado de outra forma? Aprendeu que tudo na vida se consegue a ferros, a lutar, a batalhar. Aprendeu que se tivermos de usar de força para conseguirmos o que queremos assim seja. A realidade, e por mais incrível que parecesse é que ele queria a Deborah. A vida sem ela ficou… Não queria admitir, mas o sorriso dela era realmente a melhor parte do seu dia. Começou a ficar mais irritado quando chegava a casa e não via esse sorriso, era uma ingrata. Tinha tudo e não estava satisfeita. Será que ele tinha sido o motivo desse sorriso desaparecer? Será que o pai dele estava errado o tempo todo? E, se estava por que motivo a mãe ficou com ele?

- João… - Chamou pelo companheiro, num dos momentos em que os pensamentos o incomodavam. – Se um homem não for autoritário como é que ele faz com que ela fique com ele?

- Armando. – João, respondeu surpreendido e com pena do companheiro. – Armando, uma mulher fica com um homem por amor. Se ele a amar, ela ficará com ele para sempre.

- E… Como se ama uma mulher? Não é dando tudo? O Mundo?

- Não… Armando… Ama-se uma mulher cuidando dela, e cuidar é prestar atenção ao que ela diz, estar presente nos momentos importantes, tirar tempo para passearem, para se conhecerem… Aceitá-la em todas as suas formas… Não sei dizer-te como se ama… Mas, não é com violência que ela não te vai deixar. É com amor, que ela fará tudo para caminhar ao teu lado, sempre. Amando e respeitando.

- Como se ensina a amar?

- Ah, meu amigo… Não se ensina. Amar sente-se. Vive-se.

- Estás arrependido por teres defendido a tua filha e teres tirado a vida a um homem?

- Não. Não estou arrependido, voltaria a fazer. Amar é proteger, por vezes, temos de fazer coisas que não queremos. Eu não contava que ele ficasse ali estendido com um soco. Mas, aconteceu o que tinha de acontecer. Como tinha de acontecer. E, aqui estou.

- Eu… Eu acho que andei a minha vida toda errado… Estou aqui nesta cela. Construí aquilo que o meu pai queria que eu construísse. Mas vivi sozinho. Sem amigos, todas as pessoas eram competição para mim. Hoje, aqui nesta cela, não sinto falta do meu império, sinto falta do sorriso da minha mulher. Mas, o sorriso… O sorriso que ela tinha no dia em que a conheci, no parque. O sorriso que eu vi e quis só para mim. Quis apoderar-me do sorriso da minha mulher como me apodero das coisas, pela força. Foi assim que me ensinaram. E sim, sou um homem adulto, não posso usar isso como desculpa, mas não sei de outra forma…

- Meu amigo… - Colocou-lhe a mão no ombro. – Precisas de fazer a paz com o passado. Lê o livro que eu te dei, que eu percebi que ainda não abriste. Lê o livro. Acho que estás preparado para entender a mensagem.

- Sabes… Eu acho que eu não tinha raiva da Deborah, estava magoado por ela ter-me deixado… E, em vez disso… Nunca te disse o que fiz… Eu tratei-a como o teu genro tratou a tua filha, tornei-a minha propriedade. Um dia, ela atacou-me e fugiu. Quase que eu morri, mas recuperei e jurei vingar-me quando a encontrasse. Os anos passaram e a minha raiva aumentou. Quando a vi… Quando a vi, a primeira coisa que vi foi o sorriso dela… Aquele sorriso… Nos braços de outro homem. Fiquei ainda mais cego. Eu… Ia recuperá-la da mesma forma que sempre soube fazer. À força… Raptei-o… Quase morri, novamente. E durante muito tempo só pensava em como me vingar, até ouvir-te. Estou confuso. Nunca falei com ninguém. Nunca falei com ninguém como falo contigo.

- Nenhum homem é uma ilha, Armando. Precisamos de pessoas à nossa volta.

- As pessoas magoam, João. Não as podemos deixar entrar, só dominando.

- E, onde é que esse pensamento te levou? A seres tu a magoar as pessoas e a ficares sozinho, sem um amparo, sem alguém que te visite. Mas, lembra-te: as pessoas não são o seu comportamento, podes sempre mudar, decidir fazer diferente.

- Será que eu quero? Será que eu consigo? O que ganho com isso?

- Começa por ler o livro... Lê o livro.

Armando, leu o livro em apenas um dia. Releu novamente, e uma vez mais. Começou a fazer sentido. Inicialmente, recusou as palavras até não conseguir mais recusar. As palavras têm poder. Estava nas mãos dele começar de novo. Por sorte, que na altura ele viu como azar, tinha muito tempo livre para trabalhar nele. Não precisava de continuar a fazer as mesmas coisas, não agora que tinha novas informações. Ia começar por escrever uma carta à Deborah. Uma coisa ele tinha a certeza, da forma deturpada que ele conhecia, era que a amava. Amava-a, mas sabia que o caminho dela não era com ele. Ele agora tinha um caminho longo pela frente, um caminho que o assustava, mas tinha que seguir: o caminho para a redenção.

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