Capítulo 29 – A Mulher Perfeita
Capítulo 29 – A Mulher Perfeita
Antes de subir ao palco, Deborah, refletiu sobre os
dois últimos anos da sua vida. O regresso a Portugal foi muito mais fácil e
simples do que pensava. Assim que chegou a Lisboa, a primeira coisa que fez,
foi ir à polícia apresentar-se. Ficou surpreendida quando mencionaram que o
nome dela apenas constava como desaparecida. O marido, Armando, quando saiu do
coma, deixou bem claro que a preocupação era encontrar a esposa e não a ver
como suspeita. Apesar de ter-se preparado para o pior, saiu aliviada da
esquadra.
O encontro com os pais foi emocionante.
Abraçaram-se e tiveram uma conversa longa. Uma conversa que Deborah, havia
ensaiado várias vezes com a coach numa sessão de posições percetuais, na qual
ela assumiu não só o papel dela como também o papel dos pais. Esta preparação
permitiu-lhe preparar a conversa colocando-se não só no seu lugar, mas também
no lugar dos pais. Decidiu criar uma nova vida em Lisboa, para que pudesse
ficar mais próxima dos pais, até porque a saúde de ambos já se encontrava
ligeiramente debilitada. Não podia, nem queria ficar tão longe deles,
novamente.
Envolveu-se na abertura da sua própria agência de
marketing, com o apoio e parceria do Sr. Ruiz. Partilhavam projetos e, por
vezes, ela apoiava-o nos projetos de maior porte em que ele se envolvia. A
relação deles melhorou muito, e de vez em quando, Deborah ia a Lançarote não só
a trabalho, mas também para passar tempo de qualidade com o homem que se tornou
seu pai. O belo da vida é que podemos escolher quem temos à nossa volta, e
aproveitar o máximo que podemos com essas pessoas.
A Mónica, a amiga da adolescência, foi uma outra surpresa
agradável, reconectaram-se de tal forma que parecia que nunca se tinham
separado. Pediu perdão à amiga pela distância, e Mónica usou uma das expressões
que Deborah aprendeu a apreciar: deixa o passado no passado. Surpreendentemente
por sugestão da mãe, Deborah, decidiu venturar-se no campo amoroso. Teve um ou
outro encontro com pessoas interessantes que conheceu através do trabalho ou
que a Mónica apresentou. Porém, não passaram de jantares ou almoços agradáveis
nos quais solidificou algumas amizades. Por mais interessantes que fossem,
Deborah, não conseguia deixar de os comparar com Pablo. E, incrivelmente saiam
sempre a perder.
Pablo, após um ano a percorrer o mundo, decidiu
sediar-se em Ruanda, numa ONG de apoio a crianças órfãs. Falavam regularmente,
trocavam emails, e muitas vezes Pablo a apoiava em tomadas de decisão para a
sua agência. Ele era sempre a voz da razão, e tinha uma visão objetiva sobre as
coisas. Sentia saudades de estar com ele, mas sabia bem saber que ele estava
bem. Estavam ambos a seguir com o seu caminho, a viver as suas aventuras e,
partilhavam esses momentos em conversas animadas, que por vezes se prolongavam
pela noite fora.
A viagem até ali tinha sido complicada e ao mesmo
tempo agradável. Coisas boas e coisas menos boas, mas assim é a vida. A vida
não são problemas, a vida tem problemas a serem resolvidos. E, cada problema
resolvido é uma nova fase. Os pequenos contratempos é que geram o crescimento,
mas devem ser vistos dessa forma como coisas para resolver, não como coisas que
não têm solução e às quais nos devemos entregar. Nós devemos resolver os nossos
problemas e não viver os nossos problemas.
Para além da agência, e seguindo de certa forma as
pegadas de Pablo, Deborah fazia voluntariado em várias instituições,
particularmente de apoio a mulheres vítimas de abuso físico e psicológico.
Passava horas a conversar com elas, organizava eventos na natureza (outra
paixão que Deborah descobriu), e de certa forma permitia que por umas horas
elas saíssem dos problemas, da situação, para que depois regressassem com outra
mentalidade, a mentalidade de resolver em vez da mentalidade de se submeterem
ao que lhes acontece. Como o mestre Luís Fernando dizia nos seus eventos: Não é
o que te acontece, mas o que fazes com o que te acontece que influencia os teus
resultados.
A Allcan foi outra constante
na sua vida. Não só tornou-se membro da Academia como participava anualmente no
evento Master Your Life. A aprendizagem nunca acaba, e era interessante tirar
tempo para pensar nela, e no que ela podia melhorar na sua vida. Era como uma
cebola com várias camadas e ia resolvendo, absorvendo e apreciando cada camada
da sua vida. Outra grande aprendizagem com o mestre foi a de que devemos
planear a nossa vida com o objetivo em mente, mas aprender a viver no momento.
Saborear a vida, apreciar o que temos de bom. Aprendeu a prática da gratidão e,
só isso transformou a sua vida.
Respirou fundo e subiu ao palco. Era a primeira vez
que falava para um público dessa dimensão. Centenas de pessoas, sentadas a
olhar para ela à espera do que ela tinha para falar. Sentiu um nervoso miudinho
e borboletas no estômago. Tudo na sua vida tinha acontecido para que ela
chegasse àquele momento. Agradeceu por tudo, respirou fundo mais uma vez e
iniciou o discurso para o qual, mesmo sem saber, se tinha preparado a vida
toda.
- Olá. O meu nome é Deborah Paiva. Tenho algo para
vos dizer que provavelmente vai surpreender alguma de vós. – Fez uma pausa,
usando uma das técnicas que o coach de comunicação Hugo Madeira lhe havia
ensinado. - Não existe a mulher
perfeita. Eu sei, também fiquei chocada quando percebi isso, mas deixem-me
explicar-vos o porquê. – Sorriu, reconectou-se à sua respiração e retornou ao
discurso.
- Não existe mulher perfeita, porque a perfeição simplesmente
não existe. E, o pior a ideia da mulher perfeita apenas existe na nossa mente.
Somos nós as mulheres, infelizmente a maioria de nós, que exige demais de nós mesmas.
Somos nós que criamos um modelo de supermulher que queremos seguir e nunca ficamos
satisfeitas enquanto não atingirmos esse patamar. O pior é que esse patamar não
existe. Nunca haverá satisfação. Não é possível. Não fomos criadas para sermos
perfeitas, fomos criadas para aceitar as nossas imperfeições e trabalharmos
para as melhorar um bocadinho todos os dias. Fiz-me entender? – Deborah, fez uma
pausa e esperou pelo consentimento ou não da audiência. Prosseguiu. – Criamos a
ideia da mulher perfeita e nunca estamos satisfeitas com o que somos, com o que
fazemos. Projetamos essa ideia aos outros. Se os nossos maridos não estão
felizes com algo é porque nós é que não somos perfeitas. Se os nossos patrões
não estão satisfeitos com algo é porque nós não somos perfeitas. Se os nossos
amigos não estão satisfeitos com algo… Já conseguem adivinhar? – Perguntou à
audiência.
- É porque nós não somos perfeitas. – A audiência
respondeu em uníssono.
- Pois. Colocamos isso na nossa cabeça e damos
permissão às pessoas à nossa volta para nos desrespeitarem, humilharem, simplesmente
porque assumimos que o mundo gira à volta da nossa incapacidade de atingir a
perfeição. Se… Se eu for perfeita o meu marido… o meu patrão… a minha amiga…
Eles fazem o que fazem porque eu é que não sou perfeita. O meu marido bate-me
porque eu não sou perfeita, eu é que não disse as palavras certas, eu é que agi
errado, ele tem razão em punir-me… Podem abanar a cabeça em negação, mas é isso
que se passa no nosso inconsciente. Tenho uma novidade para acrescentar. Não
sei se vão gostar de ouvir. – Fez nova pausa. – A verdade é que nós somos as primeiras
a faltar ao respeito a nós mesmas. Quando caímos na ideia da necessidade da perfeição
desrespeitamos a nossa natureza humana. Se nos desrespeitamos como podemos esperar
que os outros nos respeitem? – Aguardou o consentimento da audiência.
- Pois… Não é possível, pois não? Para que possamos
“esperar” que as pessoas nos tratem da forma como queremos ser tratadas devemos
dar o exemplo, ou seja, devemos nos tratar a nós mesmas da forma que esperamos
ser tratadas. – Prosseguiu de forma eloquente. – Se queres que te amem, tens de
te amar primeiro. Se queres dar amor aos outros, tens de saber o que é amor, e
por isso tens de te amar primeiro. Se queres que te respeitem, tens de te
respeitar primeiro e para isso, tens de te amar primeiro. A verdade é essa:
tens de te amar primeiro. O amor salva. O amor é a única salvação. Nós só damos
e recebemos o que temos dentro de nós. Se dentro de nós existe apenas amor,
iremos atrair para nós pessoas nesse mesmo campo de vibração e vamos receber
amor. A responsabilidade daquilo que recebemos começa por nós. É muito bonito
culpar o fulano, e a fulana… É muito fácil assumir o papel de vítima e dizer
que a culpa foi dos pais, do marido, da sociedade… A verdade que não queremos ver
é que somos responsáveis por muitas coisas que nos acontecem, sabem porquê?
Porque somos responsáveis pelas nossas ações. Lembrem-se não é o que te
acontece, mas o que tu fazes com o que te acontece que influencia os teus resultados.
Mas, Deborah, o meu marido é que me bateu. A culpa é dele. Sim, ele bateu-te à
primeira vez, apanhou-te desprevenida. E a segunda? A segunda vez apenas
aconteceu porque tu estavas lá para receber a segunda. Tão simples quanto isso.
E, pior. Agora é que vocês vão querer saltar para cima de mim e negar aquilo
que vou dizer. – Deborah sorriu.
- Aqui vai… - Continuou. – “O abusador também é
abusado ao ser-lhe permitido que o abuso se perpetue”. Palavras de Neale Donald
Walsch no livro “Conversas com Deus”. Se tu aceitas essa situação, estás a
passar a ideia de que é aceitável. Estás a dar a ideia de que é normal… Estás a
retirar a possibilidade daquela pessoa reconhecer que é errado. Para essa
pessoa aquele padrão é normal… Eu falo por experiência própria, eu já fui a Rainha
do Relacionamento Tóxico. Não estou a brincar, o meu ex-marido chamava-me
Rainha. Era assim que ele me chamava, e, entretanto, traía-me com outras mulheres,
várias mulheres, batia-me, não me permitia trabalhar, tinha controlo sobre as
finanças… Dominava-me por completo, mas eu era a sua Rainha. E eu, como Rainha sentia
que ele tinha razão, se me traía é porque eu não sabia dar-lhe prazer, se me
batia era porque eu não fiz as coisas de forma correta… E, durante anos fiz de
tudo para ser “A Mulher Perfeita”, submeti-me, humilhei-me até que não aguentei
mais. Preparei o meu plano de fuga, fugi e deixei-o para morrer à porta do
nosso reino. Levei as coisas ao limite, até perceber que não haveria de
conseguir ser perfeita e, portanto, mais valia fugir e tentar ser perfeita
noutro lado qualquer. Podia ter morto uma pessoa, ou podia ter morrido. Infelizmente,
muitas situações terminam na morte. Enquanto não aprendermos a lição as
situações vão se agravando e perpetuando, tornando-se quase impossíveis de reverter.
– Deborah, fez uma pausa e, limpou as lágrimas.
- Portanto, peço-vos que compreendam que não existe
a Mulher Perfeita, e que o pior de tudo, quem exige essa perfeição somos nós e
não os outros. Peço-vos que se aceitem com as vossas imperfeições e que a
intenção de cada dia seja que hoje sejam um pouco melhor do que ontem. Vivam um
dia de cada vez, e não fujam das situações. Encarem-nas e decidam o que fazer.
Avancem com medo. Podem fugir das situações, mas nunca poderão fugir de vocês.
Vocês serão sempre a vossa companhia. Eu fugi das situações, mas para onde fugi
fui novamente tentar ser perfeita. De forma diferente, mas tentar ser perfeita.
Não consegues fugir de ti, e por isso o padrão repete-se. Por isso, tens o
mesmo tipo de relacionamentos, ou atrais o mesmo tipo de pessoas. Por isso, não
fujam de vocês, aprendam a amar-se e a aceitarem-se como são. Entretanto vão lapidando
as vossas arestas e polindo o vosso diamante. Trabalhem em vocês diariamente e
decidam. – Fez nova pausa.
- Decidam viver a vida que querem viver. Assumam a
responsabilidade pela vossa vida. Vocês não são vítimas, apenas é mais
conveniente e confortável assumirem o papel de vítima. Uma mulher pode ser mãe,
esposa e ao mesmo tempo ter a sua carreira. Vocês decidem o que querem. Uma
mulher pode escolher não ser mãe… Uma mulher pode escolher não ser esposa… E,
está tudo bem. Uma mulher pode escolher apenas ser mãe e esposa, ou ser apenas
esposa. E, está tudo bem. Desde que seja essa a vossa vontade. A vossa e não o
que a sociedade ou os vossos pais e parceiros acham que é o melhor para vocês.
Decidam o que querem e vivam a vossa vida. Não procurem a perfeição porque é o
caminho para a insatisfação. Vou terminar apenas com este pedido: “Amem-se
muito. Amem todos os pedaços de vocês, as coisas boas e as coisas más. A
dualidade é a essência do mundo, a dualidade é a tua essência. Aceita-te como
és e ama-te. Trabalha para melhorares aquilo que não gostas em ti. A
responsabilidade é tua. Está nas tuas mãos decidires viver a vida que queres
viver. Aceita-te imperfeitamente e completamente como és.”
Deborah, terminou o discurso ao som de palmas e
euforia. A audiência levantou-se e bateu palmas ferverosamente. Algumas mulheres
choravam e outras sorriam. Um misto de emoção e de alegria.
Ao fundo, sem querer acreditar, Deborah reconheceu
Pablo. Aquela silhueta encostada à porta da audiência a passar a mão pelo
cabelo era impossível de não reconhecer.
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