Capítulo 27 – Imperfeitamente, Completamente Deborah
Capítulo 27 – Imperfeitamente, Completamente Deborah
- Sabe? Aquela sensação de que sabemos o que
queremos fazer, mas alguma coisa não nos permite avançar… - Deborah, respondeu
à coach durante a sessão.
- Se pudesses adivinhar, Deborah, o que é que
julgas que não te permite avançar? – Adelaide, questionou Deborah.
- Não sei… Acho que é mais que medo… Não me sinto
merecedora… Eu já fiz as pazes com o passado, com o Armando… Já percebi e
assumi as minhas responsabilidades, mas…
- Não te sentes merecedora de…
- Viver. – Deborah, respondeu após alguns segundos
de silêncio, com um suspiro. - Olho para trás os anos que perdi. A meia vida
que construí. Podia ter feito melhor, podia ter… Acho que estou a ser exigente
comigo.
- Exigente de que forma?
- A verdade é que sinto que não mereço outra
oportunidade. Sinto que vou fazer exatamente a mesma coisa. Da mesma forma que
eu decidi fugir e depois não vivi realmente. E, se eu fizer a mesma coisa? E,
se eu repetir o padrão?
- É isso que te impede de avançar? O medo de
repetir o padrão? É isso que queres resolver hoje na nossa sessão?
- Como posso ter desperdiçado tanto tempo? Como posso
ter agido desta forma? Não me perdoaria se voltasse a fazer o mesmo, por isso temo
em não avançar. Tenho passado os últimos dias em casa a adiar a viagem. Quero recomeçar
novamente, mas… Não me perdoaria se acordasse daqui a outros 7 anos e me
apercebesse que fiz exatamente a mesma coisa.
- Não te perdoarias… Dizes que fizeste as pazes com
o passado. Dizes que assumiste responsabilidade pelas tuas ações. Mas, por
outro lado, estás a dizer-me que não te perdoarias se voltasses a fazer o
mesmo. É isso que me estás a dizer? – recapitulou por forma a ajudar Deborah a
encontrar a resposta.
- Sim. É isso.
- Na tua opinião, Deborah, sentes-te em paz com as
tuas ações do passado?
- N… - Deborah, hesitou antes de responder… - Não?
É isso? Será isso?
- Diz-me tu. Será isso?
- Será que eu não me perdoo? Eu… Podia ter feito diferente.
Podia ter poupado tempo. Podia ter evitado tanta coisa, feito de outra forma. Durante
todos os anos que vivi com o Armando, eu podia ter dito o que pensava, podia
ter saído de casa mais cedo. Podia ter feito tanta coisa diferente. A primeira
vez que ele levantou-me a mão… Podia ter saído… Podia ter feito tanta coisa… -
Deborah, desabafou.
- Fizeste o melhor que podias na altura com o
conhecimento que tinhas, com as coisas que sabias. Cada um faz o melhor que
pode com aquilo que tem, Deborah. Era isso que tinhas no momento. E, ficou no
passado como tu disseste. E, estás em “loop” com o se… Mas, diz-me, Deborah, o
que perdeste estes anos todos por não te perdoares?
- A oportunidade de viver verdadeiramente! Eu quero
viver. Eu não quero continuar com meias vidas, estou cansada, exausta! – As lágrimas
correram.
- E, o que mais? O que mais perdeste por não te
perdoares? Por achares, como disseste no início da nossa conversa, que não és merecedora?
- A vida não é suficiente? Ter perdido a
oportunidade de viver. De relacionar-me com outras pessoas… Relacionar-me com o
Pablo. Sentir! – Respondeu exasperada.
- Ok. Tudo bem. Entendo. Mas, tudo acontece porque
tem de acontecer. Existe sempre o outro lado da moeda. Então, tenta ver o lado
positivo, e diz-me o que ganhaste por não te teres perdoado?
- Eu… Não vejo nada de positivo…
- E, se visses? Se limpasses essa visão embaciada e
conseguisses ver, o que seria?
- Diria que a única coisa que ganhei foi a capacidade
de trabalho. Aprendi tanto com o Sr. Ruiz. Entreguei-me ao trabalho, consegui
assumir a direção de uma agência de marketing! Eu! Há uns anos atrás, nunca
pensei que isso fosse possível.
- Vês? Algo de positivo. O que mais ganhaste?
- Aprendi a cuidar de mim. Sempre fui muito
dependente das pessoas, tive de aprender a cuidar de mim.
- Ótimo. E, quem és hoje? Ou seja, o que tens de
bom na tua vida por causa disso?
- Tenho a certeza de que consigo trabalhar,
sustentar-me. Sei que não preciso de ninguém para dar-me de comer. Eu sou capaz
de cuidar de mim mesma. Sou uma mulher independente, é isso. Tornei-me
independente.
- E, o que tens de bom na tua vida por causa disso?
- De bom? Construí uma carreira. Tenho um currículo
que me permite trabalhar em qualquer parte do mundo. Tenho a certeza de que a
nível de trabalho, eu conseguirei superar qualquer desafio.
- Estás a dizer-me que o fato de, de alguma forma,
teres vivido uma “meia vida”, usando as tuas palavras, tu construíste uma
carreira, focaste-te no trabalho e tornaste-te independente. É isso?
- Sim. É isso. Nunca o teria feito… Nunca pensei
que era capaz de tal coisa.
- Parece-me, algo bastante positivo. Não achas?
- Sim. Aquela sensação de que não conseguimos
cuidar de nós, principalmente a nível financeiro, é uma das grandes desculpas para
não sairmos de situações que nos incomodam de outra forma. Uma sensação de falsa
segurança. Ao, menos essa desculpa não poderei voltar a usar.
- Então, o não te perdoares, fez com que trabalhasses
dia e noite na tua carreira, para tornares-te independente, e não precisares de
ninguém que cuide de ti, pelo menos, financeiramente. Certo?
- Sim. Não tinha visto as coisas dessa forma. Sim.
Certo?
- Para além disso, dessa capacidade de cuidares de
ti financeiramente, essa situação trouxe-te pessoas na tua vida que não terias caso
não tivesses enveredado por esse caminho?
- Decididamente. Nunca teria conhecido o Sr. Ruiz,
que é como um pai para mim. A conversa que tivemos há uns dias, foi libertadora.
Contei-lhe tudo, abri-me com ele… Envolvemo-nos num abraço… Deu-me vontade de
correr para Portugal para os braços do meu pai… Trouxe-me o Sr Ruiz. Trouxe-me
o Pablo… - Deborah, silenciou-se ao pronunciar novamente o nome do Pablo. –
Trouxe-me, pelo menos, essas duas pessoas na minha vida que me ensinaram tanto…
Aprendi muito com eles… Construí a minha carreira com as fundações que eles
passaram para mim.
- E, a quem tens de agradecer por essas pessoas na
tua vida?
- A quem tenho de agradecer? – Questionou confusa.
- A mim? A mim por ter-me refugiado noutro país e
no trabalho. Se não o tivesse feito nunca teria conhecido o Sr. Ruiz e o Pablo,
e nunca seria quem sou hoje.
- Então, Deborah. Em vez de te martirizares com o “se”,
qual é a verdade por trás de tudo isto?
- A grande verdade é que eu precisava de focar-me
nisto para tornar-me independente, para ganhar habilidades profissionais que me
vão permitir viver de forma digna, que eliminaram uma das maiores desculpas que
eu usava para não sair de uma situação desconfortável. A verdade é que apesar
de ter vivido meia vida, faria tudo de novo caso contrário não teria conhecido
essas pessoas incríveis e que ajudaram-me a ser que sou hoje. Essa é a verdade.
– Deborah, respondeu emocionada por perceber que em vez de se recriminar, devia
agradecer pela experiência, por tudo o que trouxe para a sua vida.
- É isso mesmo, Deborah. Como te sentes agora?
- Leve. Mais livre. Percebi que não vai acontecer a
mesma coisa, não pode. Eu sou uma mulher diferente. Aprendi o que tinha de
aprender, vivi o que tinha de viver para chegar aqui. Se não tivesse agido da
forma que agi, não seria quem sou hoje.
- Fico feliz por teres chegado a essa conclusão.
Gostava de fechar esta sessão, a nossa última sessão, com um exercício extra. Um
exercício que se adaptou de uma prática Havaiana, o Ho’ponopono. O objetivo guiar-te
através das quatro etapas sentimentais: arrependimento, perdão, amor e gratidão.
Desta forma vais poder limpar e purificar essa situação, aceitá-la
verdadeiramente e seguir em frente. É muito simples. Pode ser?
- Sim. Vamos a isso.
- Vou pedir-te que feches os olhos, Deborah. Respires profundamente
e conectes com a tua respiração. –
Deborah, seguiu as instruções. – Agora, vou-te pedir que penses nessa situação
que tivemos a abordar hoje na sessão.
- Ok. Estou a recapitular tudo na minha mente.
- Isso mesmo. Agora, vou pedir-te que repitas comigo, mas
que o faças sentindo cada palavra, cada emoção, cada sentimento. Pode ser? – Deborah,
assentiu com a cabeça. – Então repete depois de mim: Eu sinto muito… Eu amo-te…
Perdoa-me… Obrigada.
Deborah, seguiu o exercício com toda a concentração e
permitiu-se sentir. À medida que foi repetindo as palavras, as lágrimas escorreram
como que se de uma lavagem se tratasse. Parecia que estava a fazer uma limpeza
interior, a lavar a alma… Terminou a sessão e agradeceu à coach. Quando
terminou, levantou-se imediatamente e terminou de fazer as malas. Sentou-se no
computador e comprou um bilhete para o primeiro voo do dia seguinte.
Nessa noite não dormiu. Ficou sentada na varanda a olhar
para as estrelas… A noite era tão bela, a vida era tão bela e ainda tinha tanto
para a oferecer. Tinha tanto para viver… Tinha tanto para sentir. Percebeu que
andava a viver meia vida, porque apagou o sentimento da sua vida. Ao fazer
aquele exercício conectou-se às suas emoções, como que se tivesse tirado os
seus sentidos do estado de dormência em que se encontravam há anos.
Pela primeira vez na vida, sentiu que não lhe faltava
nada. Sentiu-se completa, finalmente completa dentro de si. Como que se a
última peça do puzzle tivesse encaixado na perfeição e revelado a imagem
completa da Deborah. Aquela Deborah, que estava há anos à espera para ser
vista. As coisas acontecem quando têm de acontecer, tudo o que havia acontecido
até à data tinha sido o que era necessário para terminar o puzzle… Para ser a
Deborah, verdadeiramente, imperfeitamente e completamente a Deborah.
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