Capítulo 19 - Jantar

 

Capítulo 19 – Jantar

Pablo, interrompeu o beijo e olhou Deborah nos olhos.

- E, que tal irmos tratar desse jantar? – questionou com dificuldade para se afastar.

- Sim… Claro… - Deborah, respondeu sôfrega, confusa e envergonhada. Nunca se tinha sentido desta forma.

- Anda. – Agarrou-a pela mão, e deu-lhe um beijo rápido nos lábios. – Tens de mostrar-me onde estão os utensílios.

- Não há muito para mostrar. Está tudo à vista.

- Estou a ver que sim… Então, que tal tratares de ires colocando a mesa enquanto eu cuido da comida?

- Parece-me bem. E, o que vai ser o cardápio.

- Pediste-me para te surpreender, então tem calma e deixa-te ser surpreendida. – Pablo, reparou no terraço. – Está calor, podemos comer lá fora. Assim esperas por mim enquanto cozinho, para não vires espreitar.

- Não queres mostrar-me os teus segredos?

- Se eu te contar os meus segredos na cozinha, não me voltas a convidar…

- Acho que não corres esse risco… - Foi até ele, esticou-se e deu-lhe um beijo na boca. Apertou-se contra ele e, intensificou o seu beijo.

- Mau… Mau… - Pablo, fez um esforço para se libertar do beijo, sem vontade – Assim esse jantar não fica pronto.

- Acho que já perdi a fome…

- Sabes que eu sou cumpridor da minha palavra. Vim cozinhar para ti, e assim será. – Fez uma careta. – Vai ser rápido, vais ver. – Deu-lhe mais um beijo e, gentilmente empurrou-a até ao terraço.

Deborah, deliciou-se com o jantar preparado por Pablo: para entrada cogumelos salteados com rebentos de soja servidos num pão de trigo escuro; peixe grelhado com tomilho acompanhado com espinafres e batata-doce salteada com um pouco de queijo Chévre para dar um aroma. Acompanharam com um vinho branco da zona de Múrcia e uma conversa agradável. Trocaram olhares cúmplices durante o jantar.

Deborah, levantou-se e encostou-se à beira do terraço a olhar para o céu estrelado e para a lua. Pensativa, confusa, mas feliz. Pablo, juntou-se a ela, abraçou-a pelas costas e colocou o queixo suavemente em cima da sua cabeça. Virou-a para si, olhou-a nos olhos e beijou-a com intensidade. Deborah, gemeu entre beijos e abraços e entregou-se àquele momento.

Na realidade, nunca pensou que fosse possível um beijo causar tantas sensações. Sentia partes do corpo vivas, partes que julgou adormecidas e dormentes. Cada beijo despertava sensações únicas e uma vontade inconsciente de juntar-se a ele, de fundir-se a ele…

- Está na hora de ir-me embora… - Pablo, interrompeu com uma voz rouca carregada de desejo.

- Fica… - Deborah, suplicou encostando-se ainda mais a ele como se o quisesse prender a si para sempre.

- Se eu ficar não respondo por mim.

- Fica… - Deborah, repetiu.

- É o que eu mais quero Deborah, mas… - beijou-a novamente. – Estamos os dois envolvidos pelo luar, pelo momento e há coisas que quando feitas não se podem desfazer. E, eu gosto de coisas simples e claras. Acho que os dois merecemos isso.

- Como assim? – Deborah, questionou confusa.

- Se eu ficar, terá sido uma coisa que aconteceu. Dois adultos deixados levar pelo momento, pela luxúria… E, atenção não vejo mal nenhum nisso numa situação normal, mas…

- Mas… - Deborah, olhou-o confusa sem largar o abraço.

- Eu gosto de ti, Deborah. Preciso que amanhã acordes sem arrependimentos, feliz por teres estado comigo e certa de que é isso que queres. Não quero que acordes a pensar “e, agora? O que fui fazer?”, entendes? Quero que faças amor comigo, um dia, e não apenas que durmas comigo.

- Mas eu quero…

- Fazer amor comigo?

Deborah, ficou sem palavras. Não sabia o que era isso. Sentia o corpo a gritar por Pablo, por todos os lados. Mas, amor… Queria estar com ele, gostava de estar com ele, adorava todos os momentos com ele, sentia-se à vontade com ele, mas amor… Escondeu a cara no peito dele sem saber responder. Ela não sabia o que era amor, não conhecia esse sentimento. Não entendia o que a levava até ele, por que motivo tão cedo o queria por perto e às vezes tinha vontade que ele desaparecesse. Ele lia-lhe tão bem a alma e isso incomodava. Às vezes sentia-se nua, a forma como ele a olhava penetrava-a por completo, mas amor… Seria isso? Não seria capaz de reconhecer esse sentimento. Nunca o teve. Durante anos pensou que amava o Armando, mas durante a terapia percebeu que o Armando era a realização da realidade que os pais escolheram para ela. Não podia ser amor, amor não podia ter sido aquela, aquela submissão, obsessão até em ser perfeita, em agradar ao máximo, quase por medo. Sim, um medo de o perder e que a tal realidade infernal que tinha escolhido e, a que se tinha adaptado deixasse de existir. Ela aprendeu a sobreviver naquele mundo, mas muito cedo deixou de sentir. E, com Pablo estava a sentir coisas que nunca tinha sentido antes.

Seria luxúria? A vontade que ele a beijasse a noite toda, a abraçasse… E, terminasse com a sensação de desespero que sentia nas partes íntimas… Abraçou-o, não queria que ele se fosse embora.

- Fica comigo. Assim, abraçados. Fica comigo… Passamos a noite aqui ao luar abraçados e aos beijos. – Suplicou.

- Vamos fazer o seguinte. – Pablo, sorriu e levantou-lhe o queixo para que ela a olhasse nos olhos – Eu, vou ser um cavalheiro e retirar-me enquanto ainda estou no controle dos meus pensamentos. E, amanhã de manhã… - Olhou para o relógio. – Quer dizer, daqui a nada, volto e apanho-te para passarmos o dia juntos. Vou levar-te a um local especial.

- Preferia que acordasses ao meu lado. – Deborah, surpreendeu-se a falar. – Mas, aceito. Trocar umas horas por um dia inteiro. Parece-me bem. – Fechou os olhos e beijou-o novamente.

Pablo, saiu a custo e deixou Deborah, pensativa. O resto da noite foi mal dormida. Apesar de ter tomado um duche antes de se deitar, Deborah, virou-se na cama vezes sem conta até desistir de tentar dormir. O que se tinha passado? Ela é que o beijou primeiro? Ela é que deu o primeiro passo, e ele rejeitou-a? Não, ele não a rejeitou, ele simplesmente não permitiu que ela agisse de cabeça quente. E, se tivesse dormido com ele? Como teria sido? Será que se teria arrependido? Como seria? O Armando nunca a tocou daquela forma, e nunca despoletou a vontade nela. Ela sempre serviu o marido, preparava-se para ele da forma que ele gostava: deitada, imóvel… Mas, com o Pablo. Precisava que ele a tocasse, a fizesse sentir mulher…

E, se fosse só isso? Vontade de realmente conhecer um homem? O que queria ele dizer com a diferença entre dormir com ela e fazer amor com ela? Será que ele disse que a amava e ela não se percebeu disso? E, se a amasse? O que significava? Se fizessem amor? Significava que iriam fazer uma vida juntos? Morar juntos? Como? Ela ainda era casada. Não podia envolver-se com ninguém. E, como explicar ao Pablo quem ela era realmente? Não tinha pensado nisso. Doida, como poderia pensar em envolver-se com alguém quando não tinha sido cem por cento honesta com essa pessoa? O Pablo não fazia ideia de quem ela era. A forma como viveu, a forma como atacou o Armando antes de fugir e os anos que viveu em tortura sem saber se o tinha morto… As coisas de que foi capaz de suportar e de fazer… Pablo, merecia mais do que isso. Muito mais do que isso.

Amor? O que era amor? O que era esse sentimento? Será que aquilo que sentia por Pablo, era amor? A vontade de estar com ele, de sorrir, a ansiedade a olhar para a porta do escritório na esperança de o ver apoiado a olhar para ela com aquele sorriso? Seria isso amor? Se fosse amor, teria partilhado com ele a sua história, certo? Ter-se-ia sentido à vontade para dizer-lhe quem realmente ela era.

Mesmo não sendo amor… que amizade era aquela unidirecional? Em que só ele falava e partilhava as histórias da sua infância, os relacionamentos falhados. Pablo, falava durante horas a preencher o vazio que Deborah deixava com o seu silêncio… Nem se podia considerar sua amiga e queria tornar-se sua… Sua quê? Amante? O que seriam se tivessem seguido em frente e continuado? Namorados? Amantes? Para todos os efeitos ela ainda era casada… Sentia-se à vontade com Pablo, mas seria que estava preparada para mais? E, o que lhe deu?

O dia amanheceu, e Deborah estava exausta. Exausta de pensar e acabar sempre em círculos sem respostas. Preparou-se para ir passar o dia com o Pablo. Apesar de não ter dormido, não iria cancelar. Queria genuinamente estar com ele, não queria passar nem mais um dia sozinha.

Esperou por ele a manhã toda. Ligou para o telemóvel dele, e nada. Será que ele se tinha arrependido? Provavelmente, tinha-se arrependido da noite anterior e não queria estar com ela. Não… o Pablo não faria isso. Se fosse esse o caso teria dito alguma coisa. Ele sempre foi honesto e direto com ela. Alguma coisa não estava bem. Alguma coisa tinha acontecido. Já eram nove da noite e nem sinal dele. Arrependeu-se. Arrependeu-se e nem teve coragem de lhe dizer isso. Só podia. Os homens são todos iguais… Mas, não o Pablo. O Pablo não… O Pablo não era igual aos outros. Tinha de ligar ao Sr. Ruiz para saber se estava pelo menos tudo bem. Podia ter acontecido algo com a mãe. Algo sério aconteceu…

Entretanto, Pablo, acordou confuso, na bagageira de um carro. As mãos atadas atrás das costas, o sabor de sangue na boca. Respirou calmamente e rezou.

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