Capítulo 26 – Sentença

Capítulo 26 – Sentença

Armando, ouviu a sentença do tribunal e engoliu em seco. Dois anos de prisão efetiva, e expulsão imediata após cumprimento da mesma. Sentado no banco de réus, voltou a cabeça para trás por forma a encarar Deborah. Olhou para ela e fulminou-a com os olhos.

O rebuliço, no tribunal, foi imediato. Pablo, agradeceu ao advogado e levantou-se satisfeito. Teve pena de Armando, por instantes, mas para ele encerrava-se um capítulo na sua vida.

As provas contra Armando eram mais do que evidentes, e Pablo apenas agiu em defesa própria. A luta com Armando ainda se encontrava fresca na sua mente. Enquanto Armando discursava num monólogo apaixonado, Pablo conseguiu soltar-se e usar as forças que lhe restavam para atacar Armando. A arma que Armando empunhava caiu ao chão, e pouco depois, ambos caíram estatelados no chão ao lado dela. Numa luta desenfreada, Armando conseguiu recuperar a arma e apontar para Pablo. Em fração de segundos, Pablo rolou para cima de Armando e, ouviu o som da arma a disparar. Congelou naquele momento à espera de sentir dor e ver o próprio sangue a escorrer apenas para aperceber-se de que tinha sido Armando o atingido. O pavor nos olhos do adversário, e a realização do que tinha acontecido fê-lo entrar em pânico. Rastejou até ao telemóvel caído no chão e chamou a polícia. Armando, com as mãos em cima do local onde tinha sido atingido, balbuciou algo e fechou os olhos. Pablo, com as forças que lhe restavam colocou as mãos sobre as mãos de Armando e pressionou até os paramédicos chegarem e entrarem em ação.

O cenário poderia ter sido outro, bem pior, para ambos. Com sorte, escaparam os dois com vida ao momento de loucura de Armando. Mas, para Pablo a vida nunca mais seria a mesma. Ganhou ainda mais a certeza de que a vida é curta e deve ser aproveitada ao máximo. Apesar de sempre ter seguido o seu caminho, havia uma coisa ainda por fazer. Viajar pelo mundo. Pegar numa mochila, colocar às costas, e rumar ao desconhecido. Obviamente que já tinha feito várias viagens em férias, mas desta vez seria diferente. Vendeu a empresa que construiu com o seu suor e dedicação e libertou-se de qualquer preocupação. A mãe, felizmente, encontrava-se recuperada e o pai de volta à direção da agência. E, Deborah… Deborah, preparava-se para regressar a Portugal e resolver a sua vida.

Aquela sentença era a única coisa que o prendia e, de repente ficou livre para seguir o seu caminho. Olhou para Deborah, e sentiu uma vontade enorme de abraçá-la, de correr até ela e dizer que vai ficar tudo bem. Limitou-se a acenar com a cabeça e a sorrir. Armando, surpreendentemente, resignou-se com a sentença e não proferiu uma única palavra. Apesar da agitação no tribunal, Armando foi levado silenciosamente, algemado, pela polícia para cumprir a sua sentença.

A comoção no tribunal foi diminuindo e, de repente, só Deborah e Pablo se encontravam na sala. Pablo, caminhou até ela.

- Estás bem? – perguntou preocupado.

- Estou calma. Não sei se estou bem, mas estou calma.

- Vai correr tudo bem. Vais ver.

- Achas que sim? O Armando quando sair, tenho a certeza de que vai continuar a perseguir-me. Acho que ele nunca vai parar. Mas, estou cansada de fugir. Não quero continuar a fugir.

- Compreendo. Contudo, algo me diz que o Armando vai deixar-te em paz, Deborah. Não me perguntes como sei, mas sei.

- Espero que sim. Sinceramente, quero viver a minha vida sem ter de olhar constantemente por cima do ombro.

- Vai correr tudo bem, Deborah. – Olhou-a nos olhos profundamente e com carinho.

- E, tu? Sou uma egoísta. Nem perguntei como estás.

- Estou bem. Aliviado. Livre.

- Sempre vais viajar pelo mundo sem dia para voltar?

- Sim. Está na hora de fazer essa loucura. Libertei-me de tudo, e já não tenho desculpas para não o fazer.

- Sinto uma ponta de tristeza, mas muito feliz por ti. Será que te voltarei a ver?

- Não fiques triste. Vou viver a aventura da minha vida… Vou ficar bem. De quando em vez, envio-te notícias.

- Sim. Isso seria bom. Como se diz por aí: Não sejas um estranho.

- E, tu? Quando regressas para o teu país?

- Amanhã. Estava apenas a aguardar a sentença. Tenho de ir ver o que me espera por lá. Resolver tudo. Iniciar o processo do divórcio. Separar-me do Armando de uma vez por todas e, ficar livre para viver a minha vida de uma vez por todas.

- E, para onde te levará essa liberdade?

- Não sei ainda, Pablo. Uma coisa é certa: tenho de contar a minha história. Tenho de alertar outras mulheres para o perigo da submissão. O que eu vivi durante o meu casamento continua a ser a realidade para muitas mulheres. Mais mulheres do que imaginamos. Não sei como o irei fazer, mas sei que o irei fazer.

- Tenho a certeza de que vais ajudar muitas mulheres a encontrarem a força para se libertarem.

- A primeira coisa que tenho de lhes dizer é que não existe a mulher perfeita. Por mais que elas tentem, se esforcem, não existe a perfeição. Se as coisas não correm bem não é porque elas não são perfeitas. Têm de analisar a situação, ver as coisas como elas são. Ganhar força dentro delas para fazer o que tem de ser feito. Não como eu o fiz, mas da maneira correta. Eu podia ter morto o Armando, ele poderia ter-me morto a mim, ou ele poderia ter-te morto a ti, ou, tu poderias tê-lo morto a ele. Se deixamos que a situação se perpetue o desenlace pode ser fatal.

- Falas com paixão. Vais conseguir. Vai correr bem.

- Neste momento é o que mais quero. Contar a minha história e, com isso, fazer com que outras histórias terminem a bem e, se juntem à minha para dar um fim a outras histórias. Como uma reação em cadeia.

- Parece-me que encontraste o teu caminho, o teu propósito.

- Acho que sim. Sinto que durante toda a minha vida não tive utilidade. Como se me tratasse de uma ferramenta sem uso. Hoje, sei que a minha utilidade passa por servir outras mulheres. Com a minha história posso dar-lhes anos de vida. Os anos de vida que eu perdi, elas podem ganhar. – Deborah, emocionou-se, e limpou as lágrimas.

Pablo, não resistiu e abraçou-a. Um abraço apertado que disse quase tudo. Por vezes, o silêncio fala mais alto. Gravou na sua memória o cheiro, a sensação do toque da sua pele, as suas feições… Atreveu-se a beijá-la apaixonadamente. Envolveram-se num abraço e num beijo de despedida. Aquele beijo que diz quase tudo, aquele beijo que tira o fôlego, aquele beijo que penetra na alma… Pablo, podia jurar que sentiu as almas a unirem-se e a entrelaçarem-se naquele momento. A dualidade passou a ser a unicidade, não havia início nem fim para ambos. Eram o mesmo… Unos… Um beijo…

Afastou-se a custo, com a respiração sôfrega, e uma dor dilacerante no peito. A vida tem destas coisas, nem sempre o amor vence tudo.

- Minha Deborah… - disse docemente. – Lembra-te sempre que tu és capaz de tudo. Não desistas de ti.

Pablo, afastou-se e rumou para a sua aventura. Deborah, sentou-se sozinha na sala do tribunal e chorou. A resposta que procurava tinha ficado naquele beijo. De repente, sabia o que era amor. De repente, percebeu o que sentia por Pablo. E, ao mesmo tempo sabia que não havia nada a fazer naquele momento. Ele tinha uma viagem a fazer, e ela um percurso a percorrer. O amor é assim, o verdadeiro amor é assim… Liberta. Quem sabe um dia, os caminhos de ambos se voltariam a cruzar? O que tivesse de ser, seria. Isso era algo que não podia controlar. O que ela realmente podia controlar eram as suas ações, o que iria fazer a seguir…

- Deborah… – falou em voz alta para si mesma. – Vamos lá, tens uma missão para cumprir. Estás preparada?

- Nem por isso. A morrer de medo. Mas, avancemos com medo. – Respondeu para ela mesma com outro tom de voz.

Sorriu com a sua loucura, levantou-se e caminhou em direção ao seu futuro.


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