Capítulo 25 –Escutar o Coração
Capítulo 25 – Escutar o Coração
Pablo, abriu a porta de casa, e dirigiu-se imediatamente
para o banho. Enfiou-se debaixo do chuveiro e lavou o corpo e a alma.
Sempre apreciou a simplicidade da vida. Sempre
optou por seguir o coração. Por isso, tinha de agradecer à mãe que sempre o
premiou com uma educação pouco convencional, na qual sempre lhe deu a escolher
entre uma outra opção, explicando primeiro quais as potenciais consequências de
cada uma delas.
- Mas, mãe. Quando eu não souber o que escolher.
Qual a decisão a tomar… O que devo fazer? – lembrou-se de uma conversa que teve
com a mãe na adolescência.
- Meu filho, é simples. Muito simples. Fechas os
olhos e, deixas o coração escolher.
- Como é que sei o que o coração escolhe?
- Basta escutar o teu coração.
- Não consigo, mãe. – Pablo, disse depois de fechar
os olhos com força e tentar por uns segundos.
- É porque estás a tentar… Estás a esforçar-te demais.
A vida é simples, meu filho. As pessoas é que gostam de a complicar. – Deixou-lhe
um beijo na face. – Fecha os olhos.
- Como?
- Meu filho, fecha apenas os olhos. Isso mesmo. Respira
fundo até ficares calmo. Sem pressão. Deixa a tua respiração fluir normalmente.
- Já está mãe.
- Pronto. Agora, pergunta o teu coração qual das
duas opções é a mais adequada para ti. Pergunta, e deixa que a resposta venha.
Não forces uma resposta. Deixa que ela venha. Foca-te apenas na tua respiração
e deixa que a resposta venha.
- Já sei… - Pablo, abriu os olhos excitado. – Mãe, já
sei.
- E, como é que tu sabes?
- Não sei como. Só sei. O meu coração respondeu-me.
- E como te chegou a resposta?
- De repente, senti um ligeiro formigueiro nas mãos
e depois veio-me a imagem à cabeça. Como um clarão…
- Pronto. Então é assim que o teu coração fala contigo.
- E, se for a resposta errada?
- O teu coração raramente se engana. O que por
vezes acontece é que nós recebemos a resposta e temos medo dela. Então começamos
a racionalizar, e escolhemos a opção errada racionalmente, querendo acreditar
que foi o coração que escolheu.
- E, se não quisermos seguir a opção do coração,
mãe?
- Está tudo bem. Mas, algo me diz que a outra opção,
embora não possa parecer, é muito mais complicada. Se quiseres uma vida “simples”,
sem as complicações do ser humano, segues o coração.
- E, todas as pessoas ouvem o coração, mãe?
- Infelizmente meu filho, poucos são os que o
ouvem. As pessoas têm medo do coração.
- Porquê mãe?
- Porque as pessoas têm medo de ser felizes. A
sociedade não quer que as pessoas sejam felizes. A sociedade quer que as
pessoas passem a vida em busca da satisfação, em busca da felicidade em algo… É
a melhor forma de nos controlar, de fazer com que sejamos todos parte de um rebanho
que caminha apenas numa direção.
- E, se eu for na direção contrária não me vou
sentir sozinho?
- Meu filho. – A mãe, continuou emocionada. – Quem segue
o seu coração nunca se sente sozinho, porque caminha sempre com a sua própria
companhia.
- Mãe, tu segues o teu coração? – perguntou curioso.
- Durante muito tempo não ouvi o meu coração. Ao
ponto de chegar a uma altura em que não reconhecia a sua voz. Segui o que a
sociedade queria que eu seguisse. Andei em busca de algo, insatisfeita e infeliz.
Um dia, tive de tomar uma decisão e lembrei-me do que a minha avó me tinha dito:
na dúvida, segue o teu coração. Fechei os olhos e ouvi. E, desde esse dia, segui
sempre o meu coração.
- É por isso que estás sempre a sorrir? Sempre com
um sorriso nos lábios? Sempre a brincar? Não és uma mãe como as outras.
- O coração gosta de felicidade, meu filho. Quem
segue o coração é feliz, embora a sociedade te tente sempre dizer o contrário.
- Eu quero ser feliz, mãe.
- Então já sabes meu filho: escuta o teu coração e
deixa ele escolher.
Pablo, terminou o duche e sentou-se na varanda a
observar as estrelas. A vida era realmente um mistério… Nunca sabemos o que vai
acontecer a seguir, embora sintamos a necessidade de controlar tudo, de decidir
tudo. Já há muito tempo que tinha deixado de tentar entender muita coisa,
limitou-se a sentir. Sabia que quando tentava entender gerava ainda mais
confusão. As respostas estavam no seu coração, e não valia a pena questionar.
Sempre viveu dessa forma e, dessa forma iria continuar a viver.
O coração escolheu a Deborah, mas… O coração também
lhe disse que a Deborah tinha de o escolher também. Por vezes, as pessoas não
estão preparadas para ser felizes, porque a felicidade assusta. Cada um tem a sua
jornada a percorrer, e ninguém podia apressar a jornada do outro, ou forçar a
sua presença quando as suas linhas do tempo ainda não se tenham cruzado. O
pior, é que a maioria das pessoas não sabia disso.
Por momentos, voltou a uma das conversas mais difíceis
da sua vida.
- Mas, Pablo, tu disseste que me amas.
- E, eu amo-te Deborah, muito.
- Então não entendo.
- É muito simples: eu amo-te muito, mas amo-me mais
a mim. Não vou querer que fiques comigo porque pensas que é a coisa certa a
fazer.
- Mas, eu quero ficar contigo.
- Sim. Tu disseste: Pablo, estive a pensar e quero
muito tentar ser feliz ao teu lado.
- Sim. Isso…
- Aí é que está, Deborah. Eu não quero que tu penses
que tens de ficar comigo. O amor não se pensa, não se racionaliza. Sente-se
apenas. Vive-se…
- Mas, Pablo… Eu preciso de ti, de estar ao teu
lado. Tu quase morreste por mim.
- Deborah, não sintas que estás em dívida para comigo.
Eu preciso que tu não precises de mim. Eu preciso que tu apenas precises de ti.
- Por vezes, falas em código.
- Simplesmente porque não estás preparada para escutar.
- Então, é um adeus, é isso? Dizes que me amas e não
me dás uma oportunidade?
- Por te amar é que tenho de deixar-te ir.
- Pablo, eu…
- Minha Deborah… - Abraçou-a. – Um dia tu vais
perceber. Lembra-te apenas do que eu te disse: a vida é simples, as pessoas é
que gostam de a complicar. Não a compliques.
Dito isto, Pablo saiu do hospital e deixou Deborah
para trás. O coração disse-lhe que essa era opção certa. A dor que sentiu
fez-lhe, por momentos, querer racionalizar a decisão. Queria voltar para trás,
dizer que a amava e ir para casa com ela. Mas, a dor é a maior amiga da razão.
Para fugir da dor do momento, o ser humano tem a tendência a optar por uma vida
de sofrimento.
O que mais custou foi ver as lágrimas no rosto da
mulher que amava. Mas, o coração nunca o enganou. Deborah, precisava de continuar
o seu caminho sozinha, até que estivesse pronta para o encontrar. Na realidade,
podia ser que as linhas do tempo de ambos nunca se chegassem a cruzar, mas não
dependia de ele forçar. O que tivesse de acontecer, aconteceria.
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