Capítulo 24 – Ontem, Hoje e Amanhã

 

Capítulo 24 – Ontem, Hoje e Amanhã

Após a conversa com Pablo, Deborah sentou-se na sala de espera. Procurou pelo Sr. Ruiz, mas não o viu em lado algum. Queria falar com ele, explicar a situação. Sempre a tratou bem, como a que uma filha e precisava de esclarecer as coisas com ele. Explicar-lhe os motivos por trás, no mínimo contar a sua versão da história. As coisas que ficam por dizer, por vezes causam distâncias entre as pessoas que se tornam impossíveis de percorrer.

Por mais que tentasse abstrair-se dos pensamentos, tinha dificuldade em manter-se calma. Armando, de volta à sua vida, de forma abrupta, inesperada, que nem um furacão. Pablo, envolvido no seu drama sem sequer lhe ter sido dada a opção de fazer parte ou não. Sr. Ruiz, com mágoa devido à situação em que o filho se encontrava. Logo agora que as coisas se estavam a encaminhar, que o mundo à sua volta parecia encaixar-se… Logo agora que ela decidiu realmente viver a sua vida.

Mas, como pode alguém viver o presente se não resolver o passado? Como pode alguém planear um futuro, se não viver o presente? O futuro constrói-se no hoje, e o hoje não depende do ontem. Pensou que já tinha feito as pazes com o passado, mas o passado pelos vistos ainda não tinha feito as pazes com ela.

Já havia decidido que não podia fugir dela, mas estava na hora de encarar o Armando. Estava na hora de ter a conversa que devia ter tido com ele há muito tempo. Armando, continuava sobre o efeito dos sedativos, mas assim que acordasse ela iria vê-lo. Não teve a coragem de entrar no quarto e ficar sentada do lado dele à espera que acordasse. Não fazia sentido, não era esposa dele. Não queria de forma alguma dar essa impressão nem a ele, nem a ninguém. Muito menos a ela mesma.

- Sra. Deborah? – Questionou uma enfermeira.

- Sim. Sou eu. – Respondeu prontamente.

- O seu marido pede para falar consigo.

- O meu marido? Eu não sou… - Deborah, esqueceu-se por momentos. – Sim. O Sr. Armando. Como é que ele está?

- Está bem, estável. Apenas um pouco agitado a pedir para falar consigo.

- Se me puder encaminhar até lá eu agradeço.

- Claro, que sim. Venha comigo.

Deborah, sentiu um frio no estômago. Pela primeira vez em 7 anos iria estar frente a frente com Armando novamente. Parecia que ainda ontem havia fugido de casa, a imagem dele caído no chão continuava bem nítida na sua mente.

Entrou no quarto, e viu-o deitado na cama. Sentiu o coração acelerar, por ter de o encarar. Aquela sensação de medo, de entrar na defensiva, de ter de pensar bem antes de falar, de ter a necessidade de concordar com tudo o que ele dizia, voltou a preenchê-la. De repente, era a mesma Deborah, fragilizada, com medo do que ele lhe pudesse fazer. Mesmo ali naquela cama de hospital, ele continuava com o ar de superioridade e poder.

- Deborah… - Armando sorriu genuinamente, como uma criança que acaba de encontrar um brinquedo perdido. – Vem até mim, quero ver-te.

Deborah, aproximou-se de Armando, e ficou em pé, a pelo menos um metro da cama, a observá-lo.

- Estás linda, como sempre. Uma mulher linda… Sempre foste, realmente uma mulher linda. O tempo não passou por ti. Estava com saudades de admirar-te.

Deborah, pensou em responder, mas manteve-se calada, relembrando a paixão de Armando pelos seus monólogos e decidiu, desta forma, ganhar tempo para falar apenas o que tinha para falar.

- Aproxima-te de mim… Aproxima-te do teu marido. Sabes que eu não posso chegar até ti. Estou aqui com estes fios. Quase que lutei pela vida. O teu… O teu amigo quase que acabou comigo. Mas, eu sou forte. Sabes? Estar aqui lembra-me da última vez que acordei na cama de um hospital. A diferença foi que foste tu que me puseste lá, e não apareceste para me visitar. Sabes que eu fiquei 6 meses de coma? Os médicos pensavam que eu não ia recuperar nunca a 100%, mas tu já me conheces eu sou forte. Nada nem ninguém me derruba. Mas… Não quero falar sobre isso. Deixa o passado ficar no passado. Cada um de nós tem direito a ter um momento de loucura. Tu tiveste o teu, mas eu estou disposto a perdoar-te. Sabes? Eu vim cá com essa intenção, para te perdoar, para dizer que podias voltar para casa… Mas, vi-te com aquele… com o teu “amigo” na revista… Depois, pesquisei e percebi que era apenas o filho do teu patrão, era um evento na empresa, normal, era normal que ele estivesse ao teu lado. Claro que sim… Mas… Mas quando vos vi na varanda do teu apartamento. Perdi a cabeça, foi um momento de loucura. Foi a atitude de um marido ciumento, já expliquei isso à polícia. Foi um momento… Não me orgulho, mas… É o que é. Vale o que vale… O que interessa é que te trouxe finalmente até mim. E, continuas linda, minha rainha.

- Armando… Eu não sou tua rainha… Eu não sou tua esposa. Podes, por favor, parar com esse filme que eu não vou fazer parte dele.

- Deborah, estou a avisar-te. Este é o aviso número 1. – Armando, sorriu sarcasticamente.

- Estás a ameaçar-me? É isso? O que vais fazer?

- Deborah, eu estou disposto a perdoar-te por tudo o que tu fizeste, a colocar uma borracha por cima, só tens de vir para casa comigo.

- Tu és louco, Armando. Eu estava aqui a ouvir-te, e a pensar no que te iria dizer… Até que percebi que não há nada para dizer. Não se conversa com loucos. Não vale a pena. Tu só ouves o que queres ouvir. Achas mesmo que eu algum dia iria voltar a estar contigo? Como podes?

- E, porque não? O que é que eu não te dei, Deborah? Tratei-te como uma rainha. Dei-te tudo. Construí um reino para ti. Nunca te faltou nada, Deborah.

- Armando… Nunca me faltou nada? Como podes ser tão cego? Como podes achar que aquilo que tínhamos era vida?

- O que mais podia ter-te dado? Foram os filhos que não te dei? Não queria ter de competir com eles… Já me basta a competição que tinha no trabalho. Sim, fui egoísta. Mas, depois até isso te quis dar. Fomos à médica, fiz de tudo. Não tenho culpa que não tenhas engravidado, provavelmente és seca… Mas… - Respirou fundo. – Isso não interessa, isso ficou no passado. Vem para casa comigo e fica tudo perdoado.

- Armando… Durante muito tempo eu pensei que se tivéssemos filhos as coisas podiam mudar. Durante muito tempo eu pensei que quem estava em falta era eu. Durante muito tempo eu pensei que se me tornasse a mulher ideal, a mulher que tu precisavas e querias ao teu lado, as coisas podiam mudar. Eu tentei dar-te tudo o que querias, do jeito que querias. Aceitei humilhações, traições…

- Traições? Eu nunca te traí. Não queiras falar em traições que eu… Aquilo que eu vi… Eu estou disposto a esquecer aquilo que eu vi…

- Nunca me traíste? O que chamas àquelas mulheres com quem te divertias quase todas as noites? O que chamas àquela pobre coitada que disse que te deu um filho. Onde anda essa criança? O que fizeste?

- Foi por isso? Foi por isso que te foste embora? Por causa daquelas cadelas? Isso não é traição, nunca amei nenhuma outra mulher como te amo a ti. Eu prometi amar-te para sempre, Deborah. Aquelas cadelas foram simplesmente sexo. Sexo ordinário para aliviar as minhas frustrações. Sexo que não se faz com uma rainha. Foi por isso? Isso não é nada. Eu não te traí, nunca amei ninguém sem ser a ti. Não tive filho com mulher alguma, essa situação foi resolvida com um aborto e muito dinheiro. É o que as cadelas querem, dinheiro.

- Como podes falar assim? Como podes achar que isso é normal? E, as vezes todas que me puseste a mão em cima? Como podes justificar isso como amor?

- Quantas vezes a crescer levaste um estalo do teu pai ou da tua mãe? Quantas vezes levaste um corretivo por não te estares a portar bem? Achas que eles amaram-te menos por isso? Claro que não. Eu fiz o que tinha de fazer quando estavas a portar-te mal, quando não estavas a ver as coisas como deve ser. Sim, posso ter sido um pouco bruto. Mas, foi necessário. E… Enchi-te de joias. Não gostava de ter de te corrigir, e trazia-te um presente sempre. Não acredito que foste embora por isso…

- Tu só podes estar a brincar? Tu estás a dizer que é normal um homem bater numa mulher? Que é normal o que tu fizeste? Durante muitos anos, Armando, eu entrei na tua loucura. E, acreditei no mesmo. Acreditei que fazias o que fazias porque eu não tinha correspondido às tuas expectativas. Tentei corresponder, mas faltava sempre algo, nunca fui suficiente. Até perceber que não. Que não está correto. Como podes pensar desta forma? Como é que tu não entendes que não é correto bater na tua esposa, ter relações extraconjugais, desrespeitar…

- Eu fiz o que tive de fazer… Eu dei-te tudo. O que mais queres, cadela? O que mais queres? Estou a dar-te o segundo aviso. – Armando, irritou-se.

- Cá está. Finalmente, o verdadeiro Armando está de volta. Cansaste-te rápido desta vez. Esse és tu, Armando. Agressivo, revoltado com o mundo quando não tem o que quer. Um menino mimado quando lhe retiram o brinquedo.

- Cala-te cadela. Já falaste demais. Vais comigo para casa e pronto.

- Caso contrário, vais dar-me um corretivo? É isso? Olha para ti. Não estás em condições de fazer-me ameaças. Armando… - Deborah, respirou fundo. – Armando…

- Deborah, vem comigo para casa. Nós vamos resolver. Nós fizemos uma promessa. Juramos para sempre, eu… Eu, não soube viver sem ti estes anos todos. Eu… Estive desesperado à tua procura. A nossa casa não é a mesma sem ti. – Armando, suplicou com a voz trémula e genuinamente abalado.

Deborah, olhou para Armando e viu-o realmente pela primeira vez. Um miúdo assustado, revoltado com o mundo, que só tem dor dentro de si. Como pode ele dar a alguém algo que ele não tem? Ele só tem dor, só pode dar dor. Lembrou-se de ter ouvido o mestre Luís Fernando dizer que as pessoas são o nosso espelho. Que as pessoas que vêm ter à nossa vida são para nos fazer ver o que não queremos ver dentro de nós, ou resolver o que temos de resolver em nós. O que tinha o Armando que ela tinha na altura em que estiveram juntos? A dor. O que ambos tinham em comum era a dor. A mesma dor de não ser suficiente. Por isso ele lutava tanto para ser o melhor, para provar o contrário. Tinham ambos a mesma dor, apenas o demonstravam de forma diferente. Na realidade, as pessoas fazem o melhor que podem com o que têm, mas cada um tem o seu modelo do mundo. O modelo do mundo do Armando estava distorcido, e cheio de dor. O canal dele era a raiva, o dela era a submissão. Enquanto Armando exigia do mundo o que ele queria, para tentar provar que era suficiente, mesmo sentido no seu íntimo, que não era suficiente, Deborah submetia-se à vontade do mundo aceitando a sua “não suficiência”. Era isso que os unia… Ela durante muitos anos alimentou essa necessidade de superioridade ao Armando, e ele alimentou a confirmação de que ela não era suficiente.

- Armando… - Deborah, aproximou-se dele e segurou-lhe na mão. – Armando, eu sinto muito por tudo o que aconteceu entre nós. Sinto muito pelas vezes em que eu não te disse que não era correto o que estavas a fazer, que não se trata ninguém assim, muito menos uma esposa. Sinto muito por ter fugido da forma que fugi, sem dizer-te o que pensava e o que sentia. Sinto muito por ter-te agredido e deixado sem socorro. Sinto muito… - Deborah, limpou as lágrimas roçando a cara no ombro. – Eu sinto muito por ter-te permitido viver da forma que viveste, sem algum dia dizer-te que não devia ser assim. Sinto mesmo muito. Sinto muito por tudo. Sinto mesmo muito. Eu peço-te perdão por tudo isso. E, por mais que te custe acreditar eu amo-te por isso. Eu amo-te por teres-me tornado a mulher que sou hoje. Não seria quem sou hoje se não fosses tu. Obrigada.

Armando, olhou para Deborah confuso com o que se estava a passar, com o que ela estava a dizer.

- Eu não posso voltar para casa contigo, Armando, porque nunca foi casa para mim. Eu nunca te amei, e perdoa-me se algum dia fiz-te pensar que sim. Eu também pensava que sim. Na realidade, tu foste um escape. Na realidade tu foste o escape que eu precisava dos meus pais, e eu apenas repeti contigo o que sempre aceitei. O problema nunca foste tu, na realidade. Eu passei a vida a fugir de mim.

- Deborah, não estou a perceber. Estás a deixar-me confuso.

- Armando… Eu estou a dizer que eu peço-te perdão por tudo, e que te perdoo pelos mesmos motivos. Ambos tínhamos uma vida para viver, uma lição para aprender. Eu, espero genuinamente que tu um dia percebas que enquanto não resolveres o que tens a resolver dentro de ti, nunca serás feliz. Nada será suficiente. Por mais conquistas que tenhas a nível profissional, por maior que seja a casa que tenhas, por mais bonita que seja a tua esposa, tu nunca serás feliz, porque tu nunca serás suficiente.

- É o que dá deixar-te falar. Está a dar-te um novo surto de loucura. Vou avisar-te uma última vez. – Armando, voltou a irritar-se ao perceber que o jogo do homem indefeso não funcionou.

- Cuida de ti, Armando. Não sei o que se vai passar agora com a polícia, mas cuida de ti. Assim que eu puder, eu vou a Portugal resolver o que temos para resolver. Os meus advogados entrarão em contacto contigo.

- Quando fores a Portugal vais ser presa, vais pagar pelo que me fizeste. Eu nunca retirei a queixa. Vais pagar, cadela.

- Irei arcar com as consequências dos meus atos, Armando. Com a cabeça erguida farei o que tiver de ser feito. Cuida de ti, Armando.

Deborah, caminhou lentamente em direção à saída do quarto.

- Vais pagar, cadela. Eu dei-te uma oportunidade, tu vais pagar.

Deborah, olhou para trás em direção a Armando.

- Cuida de ti, Armando. Espero que um dia consigas ser feliz, do fundo do meu coração.

Saiu do quarto onde se encontrava o resto do seu passado. Fez as pazes com ele, e encarou-o. O que o Armando iria fazer com isso, só ele sabia. Só dependia dele. Ela, fez a parte dela. Sentiu-se leve, e finalmente livre. Faria o que teria de fazer, mas o passado havia finalmente ficado no passado. Fechou a porta do ontem, e apenas deixou espaço para as lições a que precisaria de aceder. Caminhou dando um passo de cada vez no presente. Sentia que hoje começava a sua vida, e que o amanhã seria decididamente diferente.

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