Capítulo 23 - Hospital

 

Capítulo 23 – Hospital Ao chegar ao Hospital Doctor Jose Molina Orosa, Deborah, avistou o sr. Ruiz na sala de espera. A andar de um lado para o outro e, com um ar desesperado. Ao vê-la, parou por segundos e depois caminhou até ela.

- Sr. Ruiz… O Pablo, como está o Pablo? – Perguntou assustada.

- A pergunta deveria ser como está o teu marido, não? – Questionou em tom de condenação.

- Eu… Sim. Como está o Armando? – Respondeu sem argumentos, não tinha como refutar e, nem forças para entrar em justificações.

- Não tenho notícias, só dão novidades à esposa, e precisam de informações da tua parte. Vem comigo. – Começou a andar sem sequer cruzar o olhar com ela.

- O Pablo, sr. Ruiz. Como está o Pablo? Por favor, diga-me. – suplicou.

- De que te interessa? Agora percebo porque sempre recusaste as suas investidas, eu aconselhei-o contra a vossa… digamos “amizade”. Eu disse-lhe para se afastar de ti. Nada contra ti como profissional, e surpreendentemente achava-te uma boa miúda, mas senti que não… Que a vossa relação tinha qualquer coisa. Mas, o Pablo não desiste. O meu filho quando coloca algo na cabeça… E, agora aqui estamos. Nesta situação.

- Eu e o Pablo, somos apenas bons amigos. Nós…

- Bons amigos? Achas que é isso que o meu filho vê em ti, sente por ti? E, que raio de amizade é essa em que tu esqueces de dizer quem tu verdadeiramente és? Que raio de amizade é essa em que colocas o meu filho nesta situação?

- Tem toda a razão. Mas, neste momento eu preciso de saber como está o Pablo. – Deborah, parou em frente ao Sr. Ruiz, decidida a obter uma resposta. – Tem toda a razão, eu sou uma mentirosa, eu sou tudo aquilo que está a pensar, mas o que importa agora é como está o Pablo. Diga-me! – Gritou, furiosa e desesperada – Por favor… - Suplicou.

- Deborah, o Pablo está vivo. Está bem, na medida do possível. Quer falar contigo, mas primeiro tens de dar a informação que eles precisam sobre o Armando… sobre o teu marido. A polícia está a guardar o quarto onde o Pablo está. Não sei se lhe permitem visitas. Com sorte, deixaram-me falar com ele.

- A polícia… - Deborah, levou as mãos à boca.

- Sim. Podes ter tornado o meu filho em um assassino… O Pablo está a ser cuidado, mas, sob custódia. Tem algumas mazelas, mas acho que a pior foi a que causaste com as tuas mentiras.

- Então quer dizer que… O Armando… O Pablo… O Armando… Oh, meu Deus! – não queria acreditar. – O Pablo, matou o Armando? Oh meu Deus.

- O Armando está no bloco operatório, a lutar pela vida. O desfecho está nas mãos de Deus.

Chegaram à receção e Deborah passou as informações solicitadas. Respondeu automaticamente a algumas respostas e, surpreendeu-se com a quantidade de coisas de que se lembrava de uma vida que parecia tão distante no passado.

Pediram-lhe para aguardar que os médicos já viriam ter com ela para trazer novidades.  Tremia-lhe o corpo todo, temia pela vida de Armando, não tanto por ele, mas pelo que podia acontecer a Pablo caso ele não recuperasse. Rezou para que não passasse de um grande susto. Não podia ser… Pablo, não podia ir para a cadeia, por causa dela. Sim, por causa dela… Ela devia ter-se afastado, não o devia ter deixado entrar na sua vida. Sem pensar trouxe-o para os problemas dela. E, Armando… Pablo só lutou pela vida, os juízes iam entender isso. Mas, e o que estaria ele a pensar dela? Provavelmente nunca mais a iria querer ver.

- A operação foi um sucesso. Conseguimos remover a bala e estabilizar o seu marido. – Deborah, só ouviu estas últimas frases, estava tão presa no seu pensamento que nem se lembra de ter visto o médico a chegar ou de ele ter começado a falar com ela.

- Ele… Vai ficar bem? – Deborah, perguntou com a voz trémula.

- Sim. Apenas precisa de recuperar, mas não vai ficar com sequelas. Neste momento está sedado, mas se quiser pode entrar no quarto onde ele está. Como esposa, pode ficar com o paciente.

- Eu… - Deborah, respondeu confusa. – Sim, com certeza. Mas, o Sr. Pablo Ruiz? Como está? Preciso falar com ele primeiro, doutor. Por favor… - Olhou para o médico a suplicar.

- Não sei, apenas estou a tratar deste paciente. Do seu marido. Se quiser acompanhar-me até ao seu quarto…

- Ele está sedado, diga-me apenas qual o número do quarto dele e irei visitá-lo assim que falar com o Pablo. – Deborah, só conseguia pensar no Pablo. – Pode dizer-me quem poderá dar-me informações sobre o Sr. Pablo?

- Sra. Deborah Pires? – Questionou o polícia que se aproximou dela enquanto conversava com o médico.

- Tem aqui a pessoa indicada para a ajudar. – O médico retirou-se.

- Sim. Sou eu… Queira, por favor acompanhar-me. Precisamos do seu depoimento. – Fez um gesto para que ela o seguisse.

- Sim… Claro… - Respondeu. – Posso falar com o Sr. Pablo? Por favor… Preciso falar com ele.

- Venha comigo, precisamos do seu depoimento primeiro e depois posso levar-lhe até ao Sr. Pablo, visto que ele também insiste em falar consigo.

- Obrigada…

Deborah, falou sobre o desaparecimento de Pablo, a última vez que estiveram juntos. O telefonema que recebeu do telemóvel do Pablo, mas com o Armando a falar. A ameaça… Voltou também ao passado, e explicou que abandonou o marido, e a forma como o fez. O polícia foi tomando notas, fez uma questão ou outra, enquanto ela explicava a sua versão dos fatos.

- Vou precisar que depois vá à esquadra. Iremos contactá-la, aconselho-a a não sair de Lanzarote até esta situação ficar resolvida.

- Sim, claro. Pode, por favor, levar-me até ao Sr. Pablo. – Insistiu.

O polícia, levou-a até à ala onde Pablo se encontrava em recuperação. O cenário parecia de um filme, com dois polícias à porta como se tivessem a guardar um criminoso. Deborah, levou as mãos à boca para reter o soluço, mas não conseguiu impedir as lágrimas de caírem. O que tinha feito com a vida de Pablo? O que iria acontecer agora? Mas, graças a Deus ele estava vivo! Era isso que mais importava, ele estava vivo. Estava ali, vivo.

Entrou no quarto, e assim que a porta se abriu viu Pablo deitado na cama a olhar para a janela. Ele, com o barulho da porta, virou-se e olhou para ela. Os olhos cruzaram-se e Deborah, começou de imediato a soluçar. Aproximou-se dele, ajoelhou-se ao lado da cama, agarrou uma das mãos de Pablo, delicadamente, e colocou a testa no colchão. Pablo, ternamente e, a custo, colocou a mão sobre os cabelos de Deborah, e deixou-se ficar. Ficaram assim por vários minutos. Em silêncio, tirando os soluços da Deborah. Quando se recompôs, levantou-se e abraçou-o. Pablo, gemeu um pouco com a dor, mas, acomodou o abraço.

- Desculpa. – Deborah, quebrou o silêncio. – Desculpa. Perdoa-me, por favor.

- Porquê Deborah? Porque é que não confiaste em mim?

- Pablo, eu… Desculpa… O meu passado. Eu fugi do meu passado… Eu… Eu não pensei… Desculpa.

- Deborah, tu sabes que eu… - Pablo, respondeu a custo. – Tu sabes o que eu sinto por ti, não sabes?

- Eu… Eu… Não sei… Sinceramente não sei. Somos amigos… Eu…

- Deborah, olha para mim. Olha-me nos olhos. Para de fugir. Olha-me nos olhos. – Pablo, colocou a mão no queixo de Deborah e virou-lhe ligeiramente a face para que ela o encarasse. – Tu sabes o que eu sinto por ti, não sabes?

- Eu… Eu acho que sei, mas… Mas, eu não consigo…

- Não consegues o quê? Amar-me de volta? Confiar em mim?

- Eu não sei o que é o amor Pablo. Eu não sei o que é isso. Não sei… Eu sei que te preocupas comigo, que estás sempre disposto a apoiar-me, que fazes tudo para fazer-me sorrir, que estás sempre presente para mim, que cuidas de mim… Eu sei disso tudo, o que eu não sei… O que eu não sei é o motivo pelo qual eu não consigo aceitar isso. Eu não consigo perceber o que é isso. O motivo pelo qual eu tenho medo disso que sentes por mim. Não, eu sei. Eu sei, eu sei porque tenho medo… Eu sei que não devia ter-te colocado nesta situação.

- Tu não me pediste para que eu te amasse, Deborah. Eu escolhi amar-te. Eu escolhi e escolheria todos os dias, mas… Há uma parte de ti que eu não conheço. Tu não me disseste quem verdadeiramente és. Eu, escolhi amar uma mulher que eu não conheço. Deborah, mas…

- Perdoa-me, Pablo. Eu, quis contar-te. Eu… Mas, falar em voz alta seria como que trazer essa realidade de volta à minha vida. Eu… O Armando… Tu não sabes… Tu não fazes ideia… Pablo…

- Faço ideia. Mas, podias ter partilhado tudo comigo. Tudo, eu teria te protegido, eu estaria mais atento… Eu fui apanhado desprevenido no meio de uma novela que não é a minha. Eu sei lidar com homens como o Armando, se estiver preparado para o fazer. Ele é um cobarde…

- E, podias ter morrido. Desculpa, Pablo. Perdoa-me. Eu não sei o que dizer. Eu…

- Eu teria escolhido a tua vida, em vez da minha. Deborah, por favor, conta-me tudo. Quero ouvir a tua versão. Preciso saber. A tua história, agora é a minha história. Tenho dois polícias à porta, a tratarem-me como um criminoso. Faço parte dessa história, portanto preciso saber de tudo. Se me permites.

- Sim. Claro. Eu conto-te tudo. Tudo… - Calou-se.

- Estás com receio de que eu te julgue? É isso? Quem sou eu para te julgar? Eu apenas preciso saber o que realmente aconteceu. Tu és uma mulher casada… Incrível que essa é a parte que mais me custa aceitar. No meio do cenário dos últimos 2 dias da minha vida, o mais difícil de aceitar é que tu és casada. Só posso estar louco.

- Sou casada sim. No papel. Na igreja… Mas, não sou mulher do Fernando há muitos anos, mesmo antes de eu sair de casa. Já não era mulher dele. Eu acho que nunca fui… Eu era um objeto para o Fernando, e eu permiti-me ser esse objeto.

- Tu és uma mulher, não és um objeto. – Pablo, respondeu.

- Pois não. Mas, durante muito tempo assim o fui. Deixa-me contar-te tudo, Pablo. Peço-te que não me interrompas. Eu estou preparada para te contar. Eu quis contar-te tantas vezes, mas… Enfim… Vou começar…

Pablo, ouviu atentamente a história da Deborah. Não pressionou, não julgou e apenas ouviu o que ela tinha para dizer. À medida que ela falava, ele tentava focar-se no fato de que as pessoas fazem o melhor que podem com aquilo que têm. A vida é o que é, acontece. Cabe-nos a nós fazermos o melhor que podemos com o que temos na altura.

Deborah, terminou a história com os olhos lavados em lágrimas, mas muito mais leve. Há muito tempo que queria contar a Pablo. Há muito tempo que o queria fazer. Só nunca imaginou que seria nessas condições.

- Obrigada. Obrigada, Deborah. – Pablo, agradeceu emocionado com tudo o que havia acabado de ouvir.

- E, agora? Odeias-me? Odeias-me pelo que fiz ao Armando, por ter fugido, por ser uma cobarde? Por ter-te ocultado a verdade? Por nunca ter sido 100% honesta contigo? Por teres passado pelo que passaste por minha culpa? – Deborah, não olhou Pablo nos olhos.

- Deborah, odiar-te? Não, Deborah. Nunca. Eu vejo-te. Eu vejo-te mais do que tu te vês a ti própria. Eu amo-te com todas as tuas perfeições e imperfeições, assim como tu és, assim como serás amanhã, assim como já foste. Escolho conhecer-te todos os dias em todas as tuas formas.

- Pablo… Eu.. Eu gostava de saber como te responder a isso…

- Um dia quem sabe, Deborah. Um dia quem sabe…

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