Capítulo 22 – Tomada de Consciência

 

Capítulo 22 – Tomada de Consciência

Quantos anos se tinham passado desde a noite em que deixou Armando caído no chão e fugiu para aquilo que pensou que era a sua liberdade?

Deborah, sentiu um arrepio na espinha quando reconheceu a voz do outro lado do telemóvel. Como era possível? Como é que a tinha encontrado? Depois de tantos anos, teria ele ficado esse tempo todo à sua procura? Deborah, sabia que quando Armando colocava algo na cabeça muito dificilmente voltava para trás, apenas se houvesse algo que publicamente colocasse em questão a sua virilidade ou, melhor, comprovasse ainda mais a sua virilidade.

É evidente que nunca a deixaria em paz. Sabia que mais cedo ou mais tarde iriam encontrar-se e teria de enfrentá-lo. Por isso decidiu voltar para Portugal. A intenção era a de falar com ele, terminar de uma vez por todas com aquele capítulo da sua vida. Imaginava que por essa altura já tinha outra pessoa, outra mulher a quem infernizar a vida…

Não. Deborah, sabia bem que Armando a infernizou porque ela deixou-se infernizar. Teve muitas oportunidades para ir embora. Teve muitas oportunidades para terminar aquele relacionamento. Mas, por algum motivo ficou. Como se algo a prendesse à desgraça, a ter alguma coisa para sofrer, para se vitimizar. Era mais fácil colocar a culpa de tudo o que viveu nas mãos do Armando do que assumir a sua quota parte no assunto. O Armando não fez as coisas sozinho. Se a tratava da forma que a tratava é porque ela continuava lá, porque ela permitiu….

Logo no início do relacionamento, nos primeiros sinais, podia ter ido embora. Durante o namoro, algumas coisas que ele disse eram claramente palavras de alguém possessivo e obcecado. Na altura, Deborah usou como um motivo para provar o amor dele por ela. Claro que quando ele comentou sobre as suas roupas, e sugeriu que devia vestir-se de outra forma, ela decidiu acreditar que era porque ele a amava, porque a queria só para ele… Preferiu ver como uma prova de amor, em vez de um sinal de possessividade. Contudo, ela sabe… O instinto avisou… Utilizou a razão para justificar as ações de Armando, ignorando por completo os sinais de alerta.

Portanto, como pode responsabilizar apenas Armando por tudo o que aconteceu? Foi ela que permitiu muitas coisas. Ele não a obrigou a ficar em casa sem trabalhar e depender dele, a afastar-se da amiga Mónica, a anular os seus desejos e vontade. Ela é que quis acreditar que ela não era suficiente, que o podia mudar se ela se tornasse perfeita aos seus olhos. Ela é que quis acreditar que esse era o destino dela, aceitar os comportamentos daquele homem e responsabilizar-se por eles. Incrível como não queria assumir responsabilidade pelo tipo de relacionamento que levava, mas paradoxalmente assumia responsabilidade pelas ações de Armando. Ele só fazia o que fazia porque ela não era perfeita, porque falou na hora errada, porque movimentou-se na cama e tentou tocá-lo… Ela é que não era perfeita, ele só procurava outras mulheres porque ela não o sabia satisfazer… Lembrou-se do dia em que comprou um conjunto mais ousado e tentou seduzi-lo… Armando, chegou do trabalho e encontrou-a seminua à espera dele. A chapada que Deborah levou, não doeu tanto quanto a humilhação, mas a culpa foi dela por ter vestido algo, tentado algo sem falar com ele. Sabia bem que tudo tinha de ser decidido por ele, principalmente na intimidade…

O maior erro foi o de ter assumido a culpa pelas ações de Armando e, depois, tê-lo responsabilizado por tudo. Ele é que era o monstro, ele é que a humilhava, ele é que a desrespeitava e não a tratava como se trata uma mulher. E, ela? Que tipo de respeito tinha para com ela própria? Como podia ele respeitá-la se ela nunca se deu ao respeito. Se ela não estabeleceu limites, se ela não deixou bem claro que tinha voz, que era uma mulher com vontades e sonhos? Como podia ele respeitar os sonhos e as vontades dela se ela mesma nunca o fez? Pior… Como podia ele amá-la se ela própria nunca o fez? Não. A culpa não era apenas do Armando. Ela era a maior responsável pelas ações dela. Por mais monstruoso que ele fosse, apenas o foi com ela porque ela o permitiu. Porque ela ficou. Um monstro só pode fazer mal a alguém se tiver alguém ao lado para fazer mal. A primeira vez que ele a maltratou a responsabilidade foi dele, a segunda foi dela. Não é o que te acontece, mas sim o que tu fazes com o que te acontece. Estaria a mentir se dissesse que Armando ameaçou-a com uma arma, de todas as vezes em que ela fez algo que fosse contra a dignidade dela como mulher. Nada disso, ela é que se torturou. Pior… Chegou à conclusão de que ela também o torturou a ele. O Armando era um drogado por poder, sentia-se superior aos outros, e ela ao permanecer ao seu lado da forma como o fez, submissa, sem voz, era como se desse ao “drogado” a droga que ele precisava de viver. Na realidade, ela era como se fosse o fornecedor daquilo que ele precisava para continuar o vício. E, surpreendentemente Deborah também estava viciada na dor de viver com Armando. Era só isso que conhecia e tudo o resto dava medo. Estava confortável no desconforto da sua dor, até atingir o limiar da loucura. Quando a dor é demais chegamos ao ponto da loucura e foi a esse ponto que ela chegou.

Se era fácil admitir isso? Não. Se era a verdade? Sim. E, por mais que custasse as coisas eram como eram. Deixou as coisas chegarem ao ponto da loucura, ao desespero de quase matar uma pessoa. Armando podia ter morrido pelas suas mãos há tantos anos atrás. E, ao fugir apenas perpetuou a situação. Ela sabia que ele a haveria de procurar, por isso vivia sempre com medo, a olhar por cima do ombro… Não aproveitou a nova vida porque não viveu uma nova vida, inventou uma meia realidade na qual nunca esteve verdadeiramente livre do passado. Quando não encaramos as coisas, elas voltam para nos assombrar. Os problemas devem ser resolvidos… Devia ter ido à polícia, podia ter denunciado os maus-tratos de Armando, tanta coisa que podia ter feito, mas não o fez. E, agora estava onde estava. Não podia assumir responsabilidade pelas ações de Armando, mas tinha de assumir pelas suas.

Estava sentada no sofá da sala a viver o pior cenário da vida dela. Olhava para o telemóvel com os olhos carregados de lágrimas, à espera que ganhasse vida. Precisava que o telemóvel voltasse a tocar, mas tinha pavor que acontecesse. De quem seria a voz que iria ouvir do outro lado da linha? O que tinha acontecido? Como é que Armando chegou a Pablo? Quem apanhou um tiro? Será que algum deles tinha morrido, ou os dois? A polícia já ia a caminho, tinham conseguido localizar o telemóvel quando Armando o ligou para fazer a chamada.

O silêncio era ensurdecedor. Os pensamentos continuavam a surgir na sua mente a uma velocidade estonteante. Sentia que estava no meio de uma guerra em que era impossível haver vencedores ou vencidos. Deborah, decidiu que o melhor que tinha a fazer era meditar. Fechar os olhos e tentar acalmar-se. Neste momento o melhor que podia fazer era acalmar-se e aguardar. Não tinha como desfazer o que quer que fosse que tivesse sido feito, e algo dizia que ela ia precisar de muita força depois de hoje. Sentiu que a verdadeira batalha ainda estava por chegar. Não conseguia imaginar o que faria se alguma coisa tivesse acontecido a Pablo. Não conseguia imaginar uma vida sem o Pablo. Não conseguia ver um futuro no qual ele não entrasse. Também não conseguia imaginar um futuro no qual Pablo tivesse as mãos manchadas de sangue, por estar no meio de uma história que não lhe pertence. Não conseguia imaginar nenhum cenário… Não conseguia imaginar um cenário em que Armando tivesse morrido em busca de vingança por algo que ela tinha feito… Não queria voltar aos pensamentos de que a culpa era dela, que ela é que não foi suficiente… ela é que não foi perfeita o suficiente…

Fechou os olhos e meditou. Os pensamentos começaram a desaparecer um a um e, Deborah, conseguiu focar a sua mente. Tinha de ser forte. Tinha de se preparar para esta nova realidade que ela não sabia qual era. Imaginou, calmamente, o pior cenário. E, tentou pensar em formas de viver com ele. Em formas de não fugir à realidade. Teria de enfrentar o que vinha pela frente.

O toque do telemóvel tirou-a do transe. Abriu os olhos, levantou-se, pegou no telemóvel e respirou fundo.

- Deborah… - O Sr. Ruiz, falou do outro lado com uma voz cansada e triste. – Preciso que venhas ter ao hospital…

- Sr. Ruiz, o Pablo… O Pablo, está bem? Diga-me, ele está bem?

- Vem ter ao hospital, Deborah. – Sem mais uma palavra, desligou o telefone.

Deborah, conseguiu perceber que era muito grave, algo de muito grave se tinha passado. Saiu de casa com o corpo a tremer, e o coração nas mãos. Como é que isto poderia estar a acontecer? Como é que isto poderia estar a acontecer?

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