Capítulo 21 – Armando e Pablo

 

Capítulo 21 – Armando e Pablo

- Por onde vou começar? – Armando, disse em tom de chacota. – Devo começar pela noite em que essa cadela deixou-me para morrer ou nos anos em que me enganou que era uma rainha. Deixa-me ver… - Coçou o queixo. – Vamos começar como se começa uma bela história: pelo início.

Pablo, olhava para Armando incrédulo no que estava a acontecer. A Deborah era casada? O que queria dizer com deixou para morrer? Tinha tantas questões, mas queria ouvi-las da boca dela. Tinha a certeza que fosse o que fosse que aquele homem louco teria para dizer, viria fantasiado com doses extras de loucura. Provavelmente, nem esse casamento devia ser real. Não tinha vontade nenhuma de o ouvir, só queria sair dali, mas sabia que se participasse no jogo tinha mais hipóteses de sair dali com vida. Olhou para ele e observou-o inquisitivamente. Era um homem alto, muito bem parecido, atlético. Tinha uma postura autoritária, e tirando o olhar de louco, podia dizer-se que parecia um homem normal. O que se teria passado? Quem era ele? O que queria? Será que seria capaz de o matar? Começou a avaliar as opções e a tentar, novamente, soltar-se das cordas que o amarravam as mãos. O louco estava tão embriagado pela sua história que não daria conta de qualquer movimento.

- Conheci a Deborah, num parque, sabes? Parecia uma deusa. Muito bonita, com o sol a bater-lhe na cara e muito serena. Tive a sensação de que era o tipo de mulher que nunca iria dar problemas. A beleza dela era extraordinária e a serenidade, pacatez, ou melhor o ar submisso dela, eram os ingredientes que eu procurava numa mulher. Já na altura eu decidi que iria ser um homem de sucesso, e homem de sucesso precisa de uma mulher troféu, mas que não fale muito e que se deixe guiar. A maioria das mulheres andam armadas ao pingarelho, pensam que têm voz… Isso só estraga tudo. Não tenho paciência para cadelas que não sabem o seu lugar… Mas, a minha Deborah… Não…a Minha Deborah, era perfeita. Quando começamos a namorar eu sabia que ia casar com ela, mas quando os pais dela praticamente a atiraram para os meus braços eu percebi que me tinha saído o jackpot. Casamos. Fizemos votos… Prometemos para sempre, percebes? Para sempre! Imagina o meu espanto quando ela quase acabou com a minha vida e desapareceu! Para sempre! Já estou com desvios. Deixa-me voltar à história. Estás a ouvir, certo? – Armando olhou para Pablo, mas não o deixou nem sequer responder, preso no seu monólogo apaixonado pelo som da própria voz. – Onde é que eu ia? Ah… Casamos… Casamos e digo-te, se a Deborah não era a mulher perfeita, parecia. No início estava com ideias de que queria trabalhar, e eu disse-lhe que mulher minha não precisava de trabalhar, que eu era homem para lhe dar o mundo. E, dei. Eu dei-lhe o mundo. Mas, o mundo não parece suficiente… Construí a minha carreira e o nosso império. Comprei-lhe um palácio digno de uma rainha. Ela só tinha de cuidar do palácio e de mim. A mim parecia-me um bom negócio. Não te parece? Bem, dei-lhe tudo, até joias das mais bonitas, tudo. Tudo o que uma rainha merece. Só não lhe dei filhos… E, mesmo assim antes de ela se revelar como a cadela que é, eu considerei dar-lhe filhos. Rei que é rei, também precisa de um herdeiro, certo? Mas, não… Não era suficiente. A cadela obviamente queria mais… Na volta já andavam enrolados. Deve ser isso. Isto até deve ter sido ideia tua? Mas.. Não sabias que ela era casada? Então, foi um plano dela para fugir e ficar contigo. Não vejo onde é que és mais homem do que eu, mas pelo que entendo essa cadela deve gostar é de cães. Enfim, voltando à história. Sim… Filhos… Até isso quis dar-lhe. Tivemos uma discussão. Só porque uma cadela, daquelas que usamos, sabes, para fazermos aquelas coisas que um homem precisa, para se aliviar, estás a entender? Uma dessas cadelas foi à nossa casa e meteu coisas na cabeça da Deborah. Disse que tinha um filho, e cenas assim. Que esse filho era meu. Acho que foi isso que enlouqueceu a Deborah. Por isso considerei dar-lhe filhos, acho que aí fui longe de mais. Obviamente, que de vez em quando, dei-lhe um corretivo. Quando ela tentava falar mais alto, ou questionar-me. Mas, tem de ser sabes? Um homem não se pode deixar questionar por uma mulher… Mas, epah dei-lhe uns corretivos de vez em quando, mas sempre acompanhados de uma joia maravilhosa. Joias essas que a cadela vendeu… Deves andar a passear às custas do meu dinheiro. Como te faz sentir? Um verme como tu nem deve entender qual a humilhação de depender de uma mulher, para ti isso deve ser muito bom até… Mas, quem sou eu para julgar, certo? Quem come restos de outro homem é capaz de tudo… Voltando ao que interessa… Então um belo dia, chego a casa e completamente desprevenido essa cadela ataca-me? Ataca-me e deixa-me para morrer? Deixou-me no chão a esvair-me em sangue como um animal. Acordei num hospital confuso. Completamente confuso. Meses em coma. A cadela quase que acabou comigo… Demorei meses em recuperação. Mas, sou um gajo rijo. Os médicos achavam que eu não ia acordar do coma, mas acordei. Os médicos achavam que eu não ia recuperar, mas recuperei. Eu tinha de recuperar, tinha de encontrar essa cadela. Ainda pensei em deixar-lhe voltar para casa, sabes? Se ela pedisse desculpa e voltasse a ser a minha rainha. Afinal de contas casamos, e prometemos para sempre. Devia ser para sempre. Era suposto ser para sempre. Eu ainda estava disposto a perdoar, até porque confesso que não encontrei nenhuma como ela… E, continuei à procura. Tenho a certeza de que não voltou por vergonha daquele momento de loucura. Atacar-me… Foi um momento de loucura, estava disposto a perdoar… Até que… Qual o meu espanto que num daqueles dias que não estava à procura, venho a este país a trabalho e vejo a minha rainha, melhor a cadela, a sorrir ao lado de um otário. A minha primeira reação foi a de encontrar-vos e matar-vos aos dois, mas… Não, isso seria muito fácil. Por mais cadela que seja, essa cadela é minha, e de mais ninguém entendes? Pertence-me. Até que a morte nos separe… Não precisamos de chegar a extremos. Ela vai perceber… Tem muito para se redimir, mas vai perceber. Ainda consegue dar-me um herdeiro, as mulheres agora têm filhos cada vez mais tarde. Matar-lhe seria fácil demais. Vai voltar para casa e cumprir a sua promessa, mas antes disso… Antes disso, vai ver-te a morrer. Vai viver com o teu sangue nas mãos dela. Cadela… Estás a entender? Vai doer tanto, tirar-lhe o brinquedinho. O queridinho dela… Como te atreves a colocar as mãos em algo que me pertence? Tens noção?

Armando tirou uma arma do bolso e aproximou-se um pouco mais de Pablo.

- O que me impede de dar-te um tiro e acabar agora mesmo com a tua vida? O que me impede? Nada! Estás nas minhas mãos, seu cão. Verme. Mas, foste enganado. Foste enganado por essa cadela, nem tens culpa. Mas, tenho de dar o exemplo. Não posso permitir que saias ileso. Ela tem de perceber que eu sou capaz de tudo para proteger o que é meu, o que me pertence. E ela pertence-me. Ela esqueceu-se… Vou dar-te um tiro e acabar com a tua vida à frente dela. Mas, primeiro ela vai suplicar… Entendes? Nem é por ti, mas tem de ser feito. Vai fazer-me sujar as minhas mãos de sangue… Essa cadela… Então, tens alguma coisa a dizer?

- Está tudo dito. Nada a acrescentar. – Pablo, respondeu com a garganta seca. – Tu já tomaste a tua decisão. És homem para isso e muito mais. Portanto, eu não tenho nada a acrescentar.

- Fazes bem. És sensato. Não vale a pena gastares as tuas energias. És muito sensato… Bem, agora deixa-me iniciar a festa. Vou chamar a cadela até nós. Está na hora de acabar com essa palhaçada. Daqui a nada está a polícia à tua procura e isso não me vai ajudar. – Pegou no telemóvel de Pablo que tinha guardado no seu bolso. – Vou ligar para essa cadela.

- Pablo! Pablo, meu Deus, estás bem? Pablo… Estava tão preocupada contigo. – Deborah, gritou de euforia e chorou de alegria. – Graças a Deus.

- Olá, Deborah. Estavas com saudades minhas. – Armando, falou do outro lado da linha.

- Ar…man… do? – Deborah, perguntou assustada e com o coração nas mãos. – Armando?

- Pelos vistos não te esqueceste de tudo. Ainda de te lembras da minha voz.

- Ar…mand…do? – Deborah, ficou sem palavras.

- Se queres ver o teu amante com vida, vais fazer exatamente aquilo que eu te digo. Estás a ouvir?

- S…im. O que for preciso.

- Linda cadela. Então ouve…

O erro de Armando foi virar as costas, a Pablo. Enquanto ele se perdeu no monólogo, Pablo, conseguiu finalmente libertar as cordas que lhe prendiam as mãos. Com os pulsos a sangrar e os dedos dormentes, conseguiu desapertar as cordas dos pés. Caminhou silenciosamente até Pablo e com as forças que lhe restavam deferiu-lhe um golpe nas costas, um potente soco, seguido de um soco na cabeça. Armando caiu para a frente e Pablo conseguiu apanhar a arma.

- Armando? Armando? – Do outro lado da linha, Deborah escutava a luta. – Pablo? Pablo? Pablo?

Aflita e sem saber o que fazer, correu para o quarto à procura do telemóvel do serviço, para chamar a polícia…

- Armando? – Gritou desesperada.

Deborah, paralisou com o som que ouviu. Um tiro… Um tiro do outro lado da linha… Um tiro seguido de silêncio.

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