Capítulo 20 – Encontro com o Passado

 

Capítulo 20 – Encontro com o Passado

- Ainda não tem notícias do Pablo? – Deborah, perguntou ao Sr. Ruiz, genuinamente preocupada. Já se tinham passado mais de 48 horas desde que ele tinha saído do seu apartamento.

- Não, Deborah. Infelizmente, não. Acho que está na hora de pensar no pior… - respondeu o pai de Pablo com uma voz cansada e carregada de medo. – Vou ligar para a polícia e explicar o que aconteceu. O meu filho sempre foi independente, mas nunca foi ausente. Não é normal o telemóvel desligado tanto tempo, não mandar mensagem a perguntar como está a mãe… Alguma coisa se passa e temos de agir rápido.

- Ele… Ele disse que vinha buscar-me… Ele saiu de minha casa por volta da uma da manhã no sábado… Disse que voltava cedinho para levar-me a um lugar especial…

- Ele bebeu? Ele estava embriagado quando saiu da tua casa?

- Não. Nada disso. – Abanou a cabeça veemente. – Ele bebeu um copo de vinho branco apenas. Ele estava bem.

- Ele pode ter perdido o controlo do carro, não sei… algo do género… Já estive em casa dele e não há sinais do carro… Vou ligar para a polícia, eles têm de encontrar o meu filho. – Sr. Ruiz, levou as mãos à cara para limpar as lágrimas que começaram a cair sem aviso. – Quando são miúdos nós conseguimos de alguma forma proteger… Cuidar… Saber quando chegam a casa… Agora… Já passaram 48 horas, se aconteceu alguma coisa… Eu não quero pensar…

- Vai ficar tudo bem… Ele deve estar bem… Ele está bem… - Deborah, repetiu numa voz sumida como que a rezar na esperança de que começasse a acreditar nas próprias palavras.

- Eu gostava de acreditar no que me estás a dizer, mas o meu coração de pai diz-me que algo não está bem, e que já perdi muito tempo. Vou contactar a polícia e manter-te informada. Entretanto, se o Pablo te ligar ou aparecer diz-me imediatamente, por favor. – Suplicou o pai desesperado.

- Claro que sim. Peço-lhe o mesmo… Se ele ligar…

- Sim, claro.

Sr. Ruiz, ligou para a polícia e participou o desaparecimento do filho. Não queria acreditar na situação… Um pai e uma mãe não deviam passar por isso… A angústia no peito… A preocupação… O medo… Os filhos crescem, seguem as suas vidas, mas não deixam de ser sempre crianças aos olhos dos pais. O seu filho estava perdido… Algures… A precisar dele… Quem sabe… O medo era tanto que lhe prendia as palavras. Respondeu às questões e rezou. Já tinha ligado para todos os amigos do Pablo, até para a ex-namorada. O que o realmente preocupou, e a toda a gente, foi quando Pablo não apareceu na empresa dele na segunda-feira de manhã. Era hábito ele ser o primeiro a chegar… Nisso tinha saído a ele. A dedicação pelo que fazia… Era a primeira vez que tinha acontecido, e sem uma chamada? Um aviso? Não… O filho precisava dele… Alguma coisa se passava e não tinha como chegar até ele…

Deborah, não conseguia controlar os pensamentos. Ora pensava que estava tudo bem e que Pablo apenas tinha ficado sem bateria, ido a algum lado, perdido o telemóvel, o que simplesmente não a queria ver, que não queria falar com ela.. Ele desapareceu e a culpa era dela. Alguma coisa ela fez para ele ter desaparecido. Ela é que o assustou… Ora pensava que ele estava perdido em algum lugar, caído… Sem acesso ao telefone. Podia ter tido um acidente de carro, algo do género… O que mais poderia ter acontecido? Fugido dela, se calhar? Não… “Não coloques isto em ti, tu não és o centro do mundo. O mundo não gira à tua volta apenas para conspirar contra ti”, pensava desesperada.

- Pablo... O que se passa, Pablo? Diz-me que estás bem. – Suspirou em voz alta para si mesma. – Por favor, diz-me que estás bem.

Não se conseguia soltar. Tinha as mãos e os pés atados, e não se conseguia movimentar. Pablo, não sabia onde estava nem quem o tinha raptado. Tinha pequenos momentos de lucidez, mas rapidamente voltava a entrar num sono profundo. Percebeu que estava num espaço abandonado. Parecia um armazém antigo, havia caixas praticamente desfeitas pelo tempo, por todo o lado. Ele, estava encostado a um canto com as costas encostadas à parede. Tinha dificuldade em movimentar-se. Não fazia ideia do que estava ali a fazer. Se fosse um rapto, provavelmente tinham pedido dinheiro ao pai e aguardava que ou dessem dinheiro e o soltassem, ou que simplesmente o matassem ou deixassem morrer. Tinha de ver as coisas como elas são. Só podia ser um rapto. Não tinha inimigos pessoais, que soubesse, portanto só podia ser alguém desesperado que viu nele uma forma de ganhar dinheiro fácil.

Tinha dificuldade em manter os olhos abertos, e sentia o corpo dormente. Só lhe restava fechar os olhos e aguardar… Aguardar que alguém aparecesse, ou pela morte… Era homem suficiente para saber que o pior cenário era sair dali sem vida. Não estava preparado para morrer, mas era uma possibilidade. Quando fechava os olhos a imagem do rosto da Deborah, a sorrir e a suplicar fica comigo, surgia na sua mente. Se ao menos tivesse ficado com ela, isto não teria acontecido. Em vez de ter ido parar na bagageira de um carro, tinha-se aninhado nos braços dela, na cama dela… Será que a voltaria a ver e teria a oportunidade de dizer o que sentia? Esse, era talvez o único arrependimento que tinha. O de nunca lhe ter dito o que sentia por ela… Avistou um vulto a caminhar até ele. À medida que se aproximava percebeu que era um homem jovem, um rosto que não reconhecia de lado algum. Moveu o corpo na tentativa de encostar-se à parede numa posição sentada. Fechou os olhos quando levou com um jorro de água na cara.

- Estás com sede? Bebe lá isso. – Armando, despejou o conteúdo de uma garrafa de água na cara de Pablo. – Então, hoje não te sentes garanhão, pois não?

- O que é que tu queres? O que estou aqui a fazer? – Pablo, respondeu confuso.

- Então? Não sabes quem eu sou? – Armando, perguntou. – A tua cadela nunca falou de mim?

- O quê? Não sei quem tu és. Deves estar a confundir-me com alguém. – Pablo, respondeu ainda mais confuso. E, gritou com o soco que recebeu na cara.

- E, agora? Já sabes quem eu sou? – Perguntou, Armando, furioso.

- Eu não sei quem tu és. – Pablo, conseguiu responder após cuspir o sangue que lhe ficou na boca.

- Estás a brincar comigo, só podes estar a brincar comigo. – Armando riu sarcasticamente, e deferiu mais um soco valente a Pablo.

- Eu não sei quem tu és, mas… Queres enfrentar-me, enfrenta-me como um homem. Solta-me e vamos lutar como homens. Mano a mano. Sentes-te superior a bater em alguém que não se pode defender? É isso? És esse tipo de homem?

- Não questiones o tipo de homem que eu sou. – respondeu furioso. – Sou muito homem.

- Ai és? Um homem que queira enfrentar outro homem não o prende. – Pablo, percebeu que era por aí que podia pegar. Na sua virilidade.

- Estás com conversas. Eu não quero lutar contigo. Nem vou sujar as minhas mãos com um animal como tu. Estás para aí a falar de ser homem. Homem que é homem, não se mete com a mulher do outro homem.

- Mas, o que estás a dizer? Já te disse que estás a confundir-me com alguém. – Pablo, respondeu genuinamente confuso. – Eu não estou envolvido com a tua mulher, nem sei quem tu és.

- Desculpa a minha falta de educação. Deixa-me então fazer as apresentações corretas: o meu nome é Armando. Sou o marido da cadela chamada Deborah, que tu andas a comer.

- O quê? A Deborah? – abanou a cabeça confuso? – A Deborah, é tua mulher?

- Elah… - Armando, lançou uma gargalhada. – Estou a ver que a cadela também te enganou a ti, com aquele cenário de mulher perfeita. Ainda és mais coitado do que eu pensava. – Armando, sorriu ao perceber que Pablo não fazia ideia de quem ele era. – Não te preocupes, relaxa que eu já te conto a história toda.

- Não estou a perceber… A, Deborah… A Deborah é tua mulher? – Pablo, não queria acreditar no que estava a ouvir. De repente tudo deixou de doer, tirando o coração que sentiu como se uma facada o trespassasse.

- O príncipe encantado caiu do cavalo. – Armando riu. – Sim, sou o marido da Deborah. Vou contar-te uma ou duas coisas sobre essa cadela. Relaxa que isto vai demorar algum tempo.

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