Capítulo 3 - De volta

 Capítulo 3 – De volta

            Deborah, deixou-se ficar na cama enquanto envia Armando na casa de banho. Como é que tinha sido estúpida e utilizado o cartão do banco para pagar a porcaria do hotel? Como?

            Sentia o corpo como se tivesse sido derrubada por um camião. As lágrimas, que não conseguia controlar, já nem lhe faziam confusão. Levou a mão à vagina dorida e maltratada e reparou que estava a sangrar. Nada de novo… Fez força para se levantar da cama e ajeitar-se. Sabia que quando Armando saísse da casa de banho ela teria de estar a sorrir.

            De nada valia tentar fugir, simplesmente não tinha para onde ir. A realidade profunda era essa. Não tinha para onde ir. Estava presa a um palácio e a um homem que se dizia “perfeito”. Não tinha dinheiro, sem ser o que o Armando ia dando esporadicamente, e nem tinha a sua própria conta do banco. Na altura tinham combinado ter uma conta só para tudo, mas o Armando é que tinha os detalhes, os acessos… Ela nem se lembrava de que banco. O cartão que tinha era o das despesas da casa… O cartão da governanta… Era isso que ela era… Nem isso… Porque as governantas eram tratadas com respeito.

            Ajeitou o vestido e forçou o sorriso. A muito custo dirigiu-se até à casa de banho. Pegou na toalha de banho, levantou-a e aguardou que Armando saísse da banheira. Cobriu-o e retirou-se. Retirou os lençóis manchados de sangue da cama e colocou-os dobrados na cadeira do quarto de hotel. Armando assobiava contente na casa de banho.

            Arrumou a mala e colocou-a à porta para que estivesse pronta para sair. Sentou-se e esperou…

            - Ah, já vi que ganhaste algum senso, meu doce – Armando, sorriu e deu-lhe um beijo na testa – Deste-me uma carga de trabalhos. Não voltes a repetir esta artimanha. Vou chegar mais tarde ao trabalho… Mas diretor que é diretor tem os seus direitos, não é?

            Deborah, sabia que naquele momento não era para responder.

            - Vê lá, que ontem aquele puto que trabalha na direção financeira quis vir com conversas para cima de mim. Com ideias de mudança… Acho que ninguém lhe disse que quem tem as ideias ali sou eu. Nem sei onde estava com a cabeça quando o promovi. Mas, na altura era ele ou o Chico. E, o Chico ia dar-me trabalho.

            Deborah, permaneceu calada.

            - Depois, chego a casa e não estás lá para me receber. Foi mesmo um dia de cão. Mas, sabes? Vou esquecer isto que se passou. Sei que não estavas em ti. Aquela otária da Paloma não tinha nada que ter ido falar contigo. Mas, eu já vou tratar dela e colocar-lhe no lugar. Eu só tenho uma rainha, e és tu. As outras não são nada, meu doce. Entendes? Não sei por que motivo te preocupas com elas.

            Deborah, não conseguia reter as lágrimas, mas permaneceu sentada e calada.

            - Além do mais, aquele miúdo nem deve ser meu filho. Com as cadelas nunca se sabe, e eu tenho sempre muito cuidado. Isso é conversa dela. Já não a via há uns dois anos e volta para tentar estragar o nosso casamento. Que lata a dela, não é meu doce?

            - O que Deus uniu ninguém estraga, meu rei. – Deborah, sabia que esta era a hora para responder.

            - Exatamente. Ontem estava mesmo furioso contigo, mas agora depois de estarmos juntos, termos feito amor eu até percebo. Um filho seria algo que te abalasse… É um assunto delicado para ti, porque tenho estado a adiar… Acho que está na hora. Sabes? – Voltou-se para ela e esperou que o ajudasse com a gravata – Acho que está na hora de dar-te o filho que tanto esperas. Um príncipe…

            - Como achares melhor, meu rei. Se está na hora está na hora. Obrigada pela tua generosidade e compreensão.

            - Eu sabia que ias compreender, meu doce. – Olhou para ela preocupado – Vê se te arranjas melhor. Não podes sair daqui comigo nesse estado. E, vais mesmo ter de começar a comer melhor. Desde que aquela louca foi lá a casa, estás um farrapo. A minha rainha não pode andar na rua desse modo. – Deu-lhe um beijo na testa e uma palmada delicada no rabo.

            - Tens razão. Vou arranjar-me para irmos para casa. Desculpa, meu rei. Não sei onde estava com a cabeça.

            - Deixa lá isso… Eu compreendo, não sou nenhum monstro. – Olhou-a nos olhos com um tom de ameaça – Eu sei que não vai voltar a acontecer.

            - Claro que não. Foi uma ciumeira estúpida que me deu. – Deborah, respondeu com um nó na garganta.

Saíram do quarto, Armando fez check-out do hotel, enquanto Deborah esperava na receção, e dirigiram-se para casa. Não deixou de reparar como ele sorria com o rececionista, no jeito brincalhão e charmoso de Armando. Ele tinha o dom de encantar todas as pessoas à sua volta, quando queria.

            Lembrou-se do dia em que se conheceram. Deborah, estava sentada no banco do jardim a observar os pássaros. Ela adorava sentar-se a apreciar a paisagem, o mundo à sua volta. Armando, sentou-se no banco ao lado dela e começou a meter conversa. Falou dos pássaros, da sua liberdade… Ela assentiu que adoraria ser um pássaro e voar pelo mundo. Ele sorriu e disse que se ela fosse um pássaro, ele também gostaria de ser um pássaro só para lhe fazer companhia.

            - Gostava de viajar o mundo, sabes? – Disse Deborah, sonhadora.

            - E, se tivesses quem te trouxesse o mundo até ti, também gostarias? – Armando, respondeu com um sorriso.

            - Alguém trazer o mundo até mim? Não seria a mesma coisa. Gostava de viajar, viver novas experiências…

            - Eu entendo. Um dia, também gostaria de viajar pelo mundo. Mas, só depois de construir o meu próprio mundo.

            - O teu próprio mundo, como assim? – perguntou Deborah curiosa.

            - O meu mundo. Aquele mundo que apenas eu controlo, governo… Um mundo sem preocupações e dores de cabeça, estás a ver? – sorriu para ela de uma forma deslumbrante.

            - Ah, claro estou a ver. Parece um mundo digno de um rei. – Sorriu.

            - Isso mesmo! Nunca ninguém me entendeu antes. Dizem que eu sou um louco.

            - Eu li algures que o mundo é dos loucos – Deborah, respondeu inocentemente.

            - Exato. Mas, sabes um mundo desses, precisa da sua rainha. Quem é o rei sem a sua rainha? – Olhou-a nos olhos fixamente durante um longo instante e beijou-a delicadamente na testa.

            Deborah, fechou os olhos e recebeu aquele beijo na testa. Por norma os rapazes olhavam para ela e não conseguiam tirar os olhos do seu peito avultado… Falavam com ela como se ela não estivesse ali. Este era diferente. Olhou-a nos olhos e tinha um brilho no olhar quando falava dos seus planos…

            - Já agora… O meu nome é Armando. – sorriu, com ar de embaraço, novamente para ela. – Acho que devia pelo menos ter dito isso antes de ter-me atrevido a beijar-te na testa.

            - O meu nome é Deborah. Confesso que não estava à espera, mas nunca tinha recebido um beijo na testa.

            - Um beijo na testa significa respeito e afeto… E é isso que um rei deve ter pela sua rainha.

            - Mal me conheces e falas como se eu fosse a tua rainha.

            - Queres que este louco te diga outra coisa? – respondeu com um sorriso nos lábios.

            - Diz-me, Armando. – Estou realmente curiosa.

            - Da mesma forma que eu sei que eu terei o meu reino, também sei que tu serás, a minha rainha. Não me perguntes como, mas eu sei.

            E, desde esse dia tornaram-se inseparáveis. Armando era brincalhão, inteligente, educado, um cavalheiro e carregava nele todos os sonhos do mundo. Como não se apaixonar por um homem desses?

            Armando parou o carro, carregou no comando e o portão de metal abriu-se. Estavam de volta ao seu reino. Deborah, olhou para o lado e fez uma nota mental de que tinha de chamar o jardineiro. Se o Armando visse aquelas roseiras como estavam… Abanou o pensamento… Incrível como estava formatada para pensar no Armando, sempre no que o Armando queria, não queria…

            Entraram em casa e Deborah sentiu um sufoco. Apesar do imponente hall de entrada, cuidadosamente decorado, Deborah sentiu que estava numa prisão com menos de um metro quadrado, enclausurada…

            - Minha rainha, vai tratar dos teus afazeres que eu tenho de preparar-me para ir para o trabalho. – Dirigiu-se para o estúdio. Voltou passado uns minutos e Deborah ainda estava no mesmo local – Ontem trouxe-te este presente...

            Deborah, abriu a caixa e viu um lindo colar de esmeraldas… Deslumbrante, mas para ela mais pareciam umas algemas. Agradeceu e virou-se para que ele o colocasse.

            - Digno de uma rainha! – Sorriu e beijou-a na testa. – Hoje, devo chegar um pouco mais tarde, mas estava a pensar em comemorarmos. Surpreende-me.

            - Claro, que sim. Cá estarei à tua espera, meu rei. – disse com um sorriso nos lábios, mas com um aperto no coração.

            Armando, saiu e Deborah ficou parada a olhar para a porta de entrada durante o que lhe pareceu uma eternidade… Tinha de fazer um plano, um plano para sair dali para sempre e de forma que ele nunca mais a encontrasse. 

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