Capítulo 9 - Nova Vida
Capítulo 9 – Nova Vida
Despiu a roupa, sem pressas, dobrou e colocou organizadamente sobre a
toalha de praia. Caminhou até ao mar e entrou sem hesitar. A água fria não a
incomodava, muito pelo contrário dava uma sensação de um despertar para a vida.
Como se fosse um lembrete de que estava viva, de que sentia… Não havia melhor
sensação do que a sensação de entrar no mar. Era como se fizesse uma limpeza à
alma, e tanto que tinha para limpar…
Saiu do mar, limpou-se com a toalha seca, que tinha no saco, cobriu-se com
o vestido largo de praia e sentou-se a ver o mar. A Natureza era tão perfeita.
As ondas iam e vinham regularmente como se cantassem uma canção de embalar sem
fim. Nada impedia as ondas de irem e virem. Por vezes, enrolavam-se umas nas outras,
mas iam e vinham sem cessar. Colocou-se na sua pose meditativa favorita e meditou
durante pelo menos 20 minutos. Quando abriu os olhos percebeu que a maré já tinha
subido um pouco e que os primeiros visitantes da praia já começavam a chegar.
Deborah, continuava a afastar-se das pessoas. Preferia ficar no seu canto
sozinha e não criar laços. O melhor era manter-se, de alguma, forma isolada do
mundo. Agarrou nos seus pertences e voltou para o seu apartamento. A ilha de
Lanzarote tinha sido o local escolhido para a sua nova vida. O espanhol não era
muito diferente do português, e, no início, conseguiu desvencilhar-se bem até
aprender a língua.
Abençoava cada dia e, tinha construído uma vida tranquila. Acordava cedo,
antes do nascer do sol e dirigia-se, em corrida, para a praia. Entrava no mar e
meditava, ou apenas meditava. Voltava para o apartamento, a caminhar, tomava um
duche frio, e sentava-se na varanda a ler um livro. Tirava apontamentos e
decidia o que colocar em prática ou não. Lembrava-se sempre da frase da Monja
Coen: “se servir usa, se não servir deita fora”. Diariamente trabalhava na sua
descoberta interior, ao seu passo… Sabia que ainda tinha muito que trabalhar,
como por exemplo voltar a socializar com outras pessoas, mas também não tinha
pressa. Aos poucos haveria de lá chegar. Depois da leitura, tomava o pequeno-almoço
e saia para ir trabalhar.
Trabalhava numa agência de marketing. Embora tivesse ficado muitos anos
sem trabalhar, Deborah, assim que chegou à ilha fez questão de tirar um curso
de marketing para relembrar-se de coisas que tinha aprendido na faculdade e atualizar-se.
No início tinha sido complicado adaptar-se, voltar a estudar, principalmente
numa língua diferente, mas não esperava que a sua nova vida viesse de forma
fácil. Sabia que tinha de lutar para recomeçar e assim o fez e continuaria a
fazer.
Gostava muito do trabalho que tinha. O patrão, o senhor Ruiz, era um
homem amável, já nos seus 60 anos e que tinha muito para ensinar e vontade de o
fazer. Desde o dia da entrevista que tinham simpatizado um com o outro e o senhor
Ruiz via nela a filha que nunca teve. Só tinha um filho, o Pablo, que raramente
vinha à agência e não se interessava muito, pelo menos parecia, pelo que o pai
fazia. O patrão contratou-a na hora e comprometeu-se a ensinar-lhe tudo o que
sabia. Passavam horas a falar sobre estratégias de marketing, a perceber as tendências
do mercado, e a escolher os clientes. Apesar de ter uma pequena agência o senhor
Ruiz era muito conceituado, até porque fazia uma seleção minuciosa dos
clientes. O segredo para ele era esse: apenas trabalhar com clientes que partilhassem
dos mesmos valores do que ele, que tivessem a mesma visão. Antes de começar
qualquer trabalho, Deborah, lembrava-se da conversa que havia tido com o
patrão.
- Sabes, as pessoas achavam que eu era maluco quando abri a agência e
comecei de imediato a escolher os trabalhos que faziam – sorriu para ela. – Mas,
o meu projeto, o meu sonho era apenas publicitar produtos em que acreditasse,
que trouxessem algo para a vida das pessoas.
- E como faz a seleção? Para além disso não teve impacto no lucro da
empresa? – perguntou, Deborah, curiosa.
- Primeiro escolho o produto que eu sinto que vai adicionar valor, e
depois… Depois, tenho uma reunião com o dono do produto, ou o CEO da empresa. Converso
com ele como se tivéssemos a conversar num sofá e sei…
- Mas, sabe como? Como sabe que essa é a pessoa certa para trabalhar
consigo?
- Devo ter um radar interno. Há quase 40 anos que tenho esta empresa e só
me enganei uma vez. E, para ser sincero, acho que não me enganei. Simplesmente
segui o que as pessoas disseram em vez do meu instinto.
- É isso, segue o seu instinto… E, como faz isso?
- Minha menina, basta ouvires! Isso é algo que eu não te posso ensinar,
só te posso dizer para aprenderes a escutar o teu corpo. Escuta…
- Não consigo. Tenho muito ruído, dentro de mim. – disse quase que num sussurro.
- Basta parares de lutar contra os teus pensamentos, aceitá-los e depois
lidares com eles um a um. – Colocou as mãos sobre as dela e olhou-a ternamente.
– Seja do que for que estás a fugir Deborah, mais cedo ou mais tarde vai ter
contigo. Então, prepara-te e lida com isso. Lida contigo. Começa a meditar. É
também um dos meus segredos.
- Meditar?
- Sim. Meditar. Faço isso desde os 18 anos, aprendi na minha viagem até à
Índia. Nos dias de hoje, faço parte de um grupo de meditação. Fazemos meditação
em conjunto às quartas-feiras. Convido-te a juntares-te a nós. Somos uns velhotes,
mas teremos prazer em acolher-te.
- O senhor Ruiz é muito bom para mim… Agradeço de coração. Claro que vou
experimentar. E, não tem nada de velhote. É um homem cheio de energia.
- Diz isso à Madalena, já está à procura de locais para irmos na nossa
reforma. Mal pode esperar.
- Nem pense nisso. Eu tenho muito a aprender consigo.
- Agora sinto que já me posso reformar. A minha empresa vai ficar em boas
mãos. – Sorriu, levantou-se e voltou para o seu gabinete.
Desde esse dia, Deborah, abraçou a meditação e a vida mudou. No início
lutava contra os seus pensamentos. Insistia que não sabia meditar, até que
percebeu que era normal e deixou de se esforçar. A meditação é algo natural, que
deve acontecer naturalmente, sem forçar, aceitar os pensamentos e agradecer por
eles, e, depois simplesmente deixá-los ir. Sentia-se em cada vez mais em paz à
medida que o tempo passava.
As noites já eram diferentes. Embora a meditação conseguisse acalmar os
pensamentos durante o dia, durante a noite os pesadelos assolavam-na. O
pesadelo era sempre o mesmo: “o corpo do Armando caído no chão, a esvair-se em
sangue e ela a banhar-se nesse mesmo sangue e a sorrir que nem uma louca.
Depois, esse mesmo corpo levantava-se, desfigurado e apertava-lhe o pescoço até
que ela ficasse sem ar.”
Acordava sufocada, suada e a tremer. Já se tinham passado anos e o
Armando continuava a assombrar a sua vida diariamente. Não fazia sentido, essa
era uma vida que tinha ficado no passado. Fez o que fez porque tinha de o fazer.
Então, por que motivo não conseguia seguir em frente? O patrão dizia sempre: há
batalhas das quais não podemos fugir, e fantasmas que temos de enfrentar.
Deborah, sabia que tinha de enfrentar o passado. Só não sabia como, mas não podia contar a adiar.
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