Capítulo 8 - Fuga
Capítulo 8 – Fuga
Deborah, olhou para o armário, onde guardava as joias, vazio. Uma a uma
tinha conseguido escoar no último ano. Passou um ano desde que tinha tomado a
sua decisão e, com a venda do último colar, tinham-se acabado as desculpas para
enfrentar os seus medos.
Ultimamente tinha refletido muito sobre a sua vida, as decisões que a
levaram até ali, onde estava. O que mais doía era saber que tinha
responsabilidade pela sua situação. Como assim? Como podia ela ser responsável
pela forma como Armando a tratava? As coisas foram acontecendo sem ela dar
conta de estarem a acontecer… Ou, deu conta, mas não queria acreditar que fosse
errado. Genuinamente, pensou que fosse assim. Que tudo o que tinha visto nos
filmes não passavam de filmes, como o próprio Armando havia mencionado. O que
se passa entre as quatro paredes de um casal, só casal sabe. Era sempre isso
que ele dizia. Conseguiu convencê-la de que era normal… Mentira, ela quis
convencer-se de que era normal. Ela própria convencera-se de que se fosse
perfeita, ele seria um homem diferente. Era responsável, sim. Quis tapar o sol
com a peneira e passar a responsabilidade para o marido.
Podia ter ido embora. Podia ter saído de casa. Podia ter voltado para a
casa dos pais. O que a impediu? Por que motivo não voltou? Teria sido o medo da
recriminação? Ou a obsessão que a mãe tinha com o Armando? No início do
casamento, quando Deborah tentou abordar algumas situações com a mãe, sempre
foi confrontada que não passavam de frescuras. A mãe tinha garantido que o
Armando era um bom homem. Que os homens são todos assim. Como não acreditar na
mãe? A mãe queria o melhor para ela, certo? Com o tempo, deixou de tentar
abordar o assunto e afastou-se. O que acontece entre o casal, fica entre o
casal. Aceitou essa condição, e decidiu ficar.
Completamente responsável. Não era inútil. Podia ter saído de casa e ir
trabalhar. Tinha dois braços e duas pernas, caraças. O que a impediu? Como
podia ser mais fácil viver naquele relacionamento, que não conseguia descrever,
do que sair e iniciar a sua própria vida? No início devia ter saído, antes de
Armando ter-se tornado violento.
Lembrou-se da primeira vez… Confrontou-o com uma marca de batom. Não
consegue o que sentiu nesse dia, se ciúme, mágoa, raiva, injustiça… Era um
misto de todas as emoções. Tinha-lhe colocado a vida nas suas mãos e era assim
que ele retribuía? O que mais a chocou foi ele não ter sequer negado.
Perguntou-lhe o que estava ela à espera de um homem de sucesso? Que as outras
mulheres não quisessem um pedaço? Não sabia ela que isso fazia parte do contrato?
Melhor, até devia sentir-se feliz, porque o que fazia com elas não eram coisas
digna de uma rainha. Deborah, colocou-se à frente dele e disse que não, que não
era certo… Armando, empurrou-a com força ao ponto de ela cair e ainda deslizar
um pouco para trás, qual foi a força que ele utilizou. Instintivamente, e perplexa,
ela levantou-se e dirigiu-se até ele. O estalo que levou foi como se algo lhe
tivesse partido a cara, literalmente. Internamente, ouviu os pedaços de cacos a
caírem no chão, despedaçados e sem conserto. Levou a mão à cara e olhou para
ele incrédula. Ele sorriu, sem dó nem piedade, sem remorso, e apenas disse:
- Se te comportares que nem uma cadela, eu trato-te que nem uma cadela. A
escolha é tua. Queres ser rainha ou cadela?
Nessa mesma noite, ficou espantada, quando ele a abordou na cama como se
nada tivesse acontecido. Naturalmente, trepou para cima dela e fez o serviço.
Beijou-a na testa e disse que a amava. Nesse mesmo dia, soube que algo não
estava bem. Lembrou-se do que a mãe havia dito: “As mulheres perfeitas, tornam
os homens diferentes”. Percebeu que o que se passava era culpa dela. Ela é que
não tinha sido perfeita. Se o marido procurava outras mulheres era, certamente,
porque algo lhe faltava em casa. A culpa era dela… Nesse dia, tomou a decisão de
tornar-se a mulher perfeita. Ao tornar-se a mulher perfeita o Armando iria
voltar a ser aquele homem com quem começou a namorar. No percurso da vida deles,
ela é eu deixara de ser perfeita. Nesse dia, tomou a decisão de ficar. E, tomou
a mesma decisão todos os outros dias consecutivamente. A perfeição não melhorou
as coisas, só piorou. Ao ponto de Armando nem sentir necessidade de esconder ou
mentir. Dizia-lhe, até, que em casais não há segredos. Voltava para casa embriagado,
a cheirar a álcool e a outras coisas que não conseguia nem identificar,
servia-se dela, e terminava a noite com um beijo na testa. No dia seguinte,
trazia-lhe um presente de rainha. E, assim resumiram-se os últimos 10 anos da
sua vida.
Acabou de fazer as malas, e colocou-as na entrada. Olhou para o casarão
enorme onde havia morado nos últimos 3 anos e perguntou-se como era possível
que alguém com isso tudo não conseguisse ser feliz. A casa para além de ser
espaçosa, realmente digna de uma rainha, tinha sido decorada com requinte e
estilo. Armando tinha a necessidade de mostrar às pessoas que era bem-sucedido
e não perdia uma oportunidade para ostentar. Para ela, o casarão não passava de
uma prisão, onde ela própria escolheu isolar-se e fugir do mundo. Assustou-se
com o barulho da porta. Não era suposto o Armando chegar agora. Tentou esconder
as malas, mas já não foi a tempo.
Armando, entrou olhou para as malas e, olhou para ela. Olhou para as
malas, e olhou para ela. Olhou novamente para as malas, e novamente para ela. Como
se estivesse a tentar entender o que se passava. Fechou a porta de casa e
trancou. Voltou-se para ela e com passos firmes caminhou agressivamente até
ela.
- Não me digas que voltamos a esta merda – gritou furioso. – Já voltamos
a esta merda? Tu queres ser uma cadela é isso?
- Armando, por favor, deixa-me ir. – Suplicou, Deborah,
enquanto se afastava dele, mas não foi a tempo.
Armando desferiu-lhe uma chapada valente que a derrubou.
Deborah, levantou-se num ápice, e colocou-se em posição de defesa e ataque como
havia aprendido com a “personal trainer”. Armando, ficou espantado com a atitude
dela e ainda mais furioso.
- O quê? Andaste a ver filmes? Pensas que me vais
desafiar? – sorriu – Perdeste a cabeça, minha cadela. Vai lá para cima, para o
quarto, prepara-te que eu preciso descontrair. Não me apetece brincar às
chapadas contigo.
- Eu vou-me embora, Armando. Eu vou-me embora. Deixa-me
ir.
- Vais para onde? Para de baixo da ponte? Deixa-te de
merdas. Não és ninguém sem mim.
- Prefiro morrer a ficar aqui. – respondeu destemida, mas
com o corpo a tremer.
- O dia que morreres, vai ser nas minhas mãos, cadela.
Pertences-me. – Armando aproximou-se dela rapidamente, e surpreendeu-se com o
soco que Deborah desferiu.
Antes de ele conseguir recuperar, Deborah, deu-lhe um
pontapé no joelho. Ouviu o barulho do osso a partir, o grito horroroso do
Armando e viu-o a cair para a frente. Ficou cega de raiva e antes de ele tombar
no chão, desferiu-lhe um valente soco na cara ao ponto de ele começar
imediatamente a sangrar. Armando gritou de dor perplexo, confuso e cheio de
raiva. Deborah, ainda viu umas lágrimas rolarem-lhe da face antes de ele tombar
no chão. Tirou-lhe as chaves do bolso e correu para a porta. Pegou nas malas,
saiu e trancou a porta por fora. Colocou as malas no carro dele e entrou, a
tremer. Já não se lembrava de conduzir, mas o corpo automaticamente sabia o que
fazer.
Conduziu até à estação de comboio, e deixou o carro estacionado.
Sabia que ele tinha GPS no carro e conseguiria localizá-lo. Comprou um bilhete e
apanhou o primeiro comboio que apareceu. Não viu o destino. Apenas precisava de
sair dali. Amanhã, com a cabeça fria, iria começar a colocar em prática o que demorou
meses a planear.
Veio-lhe a imagem do Armando a cair no chão, com a perna
partida, a cara cheia de sangue e as lágrimas a correr. Só esperava que ele
estivesse vivo. Ele tinha de estar vivo, caso contrário a vida dela acabaria
ali. Ele tinha de estar vivo. Passada a adrenalina do momento, Deborah, teve
noção do que tinha acabado de acontecer. Tinha acabado de fugir de casa e podia
ter morto o marido. E agora, o que iria acontecer?
Comments
Post a Comment