Capítulo 7- Visita à Médica
Capítulo 7 – Visita à Médica
A consulta com a Dra. Ana Rita deixou-a abalada. Teve dificuldade em
manter a postura da mulher perfeita, e por momentos sentiu que a Dra. Ana Rita
secretamente sentiu a sua dor.
- Gostaria de falar com a sua mulher a sós Dr. Armando. – Solicitou delicadamente.
- Não temos segredos um para o outro, o que tiver para lhe dizer pode
dizer. – respondeu Armando com o seu sorriso encantador. Olhou para Deborah. – Não
é isso, minha rainha?
- Tão verdade. Pode falar que por mim está tudo bem. – Forçou um sorriso.
- Compreendo. E, fazemos assim. Eu falo com a Deborah a sós e depois a
Deborah pode conversar com o Armando. Eu é que me sentiria mais à vontade e faz
também parte do meu trabalho a conversa a sós com a cliente. – Sorriu novamente
a olhar para o Armando diretamente nos olhos, deixando bem claro que não havia
outra opção.
- Neste caso, retiro-me cordialmente e deixo-vos a sós. – Beijou Deborah
na testa. – Até já, minha rainha. – retirou-se do gabinete da médica e foi aguardar
na sala de espera.
- Deborah. – A Dra. Ana Rita olhou-a nos olhos e colocou a mão de Deborah
entre as suas. – Está tudo bem? Diga-me se está tudo bem.
- Sim. Claro que sim. – Deborah, mentiu sem convicção.
- Preciso que seja honesta comigo. Ao fazer a análise reparei em algumas escoriações
no interior da sua vagina. – Deixou-se estar em silêncio à espera de que a
Deborah dissesse-se algo. Na ausência de resposta continuou – Escoriações estas
típicas de agressões… De sexo violento. – Parou novamente.
Deborah, sentiu o seu mundo a cair. Já no passado a Dra. Ana Rita havia
mencionado este tipo de episódios… E se ela tivesse a coragem para contar o que
se estava a passar? Agora já tinha algum dinheiro. Conseguiria ficar em algum
lado sem ter de pedir nada ao Armando. Não precisava dele… Mas, como seria? A
polícia iria buscá-lo? Como sairia dali? Haveria um escândalo? Ela só queria
desaparecer sem deixar rasto. Não queria escândalos, nem confusões. Expor a sua
triste realidade? Assumir perante o mundo que ela também era doente?
Durante muito tempo, Deborah, pensou que o Armando era doente. Que apenas
ele era doente. Contudo, hoje, sentia-se mais doente do que ele. Doente por ter
deixado tudo isto acontecer, ao ponto de se isolar do mundo. Não tinha amigas,
nem se lembrava da última vez que tinha estado com alguém para além do Armando
e da instrutora de Muay Thai. As amigas que teve pertenciam a um passado onde
ela tinha dignidade, onde ela se sentia mulher. Um passado que preferia deixar
como se fosse um presente. Nunca teria coragem de contar o que se estava a
passar. Já anos que havia deixado de responder às mensagens da Mónica, até que
ela deixou de insistir. Vieram-lhe lágrimas aos olhos ao lembrar-se da amiga.
- Deborah, minha amiga. Tens a certeza de que te queres casar? Acabamos
agora o curso – Perguntou Mónica numa tarde de Verão antes do casamento.
- Claro, amiga. Ele é perfeito e eu serei a mulher perfeita. Sabes que eu
sou capaz de ser a mulher perfeita.
- Disso não tenho dúvidas. A minha única questão é se tu és feliz e se
serás feliz. Há alguma coisa no Armando… Sabes que eu sou tua amiga, eu digo-te
o que sinto.
- Já sei a tua opinião. Ninguém é perfeito demais. Mónica, nem todos os
homens são iguais. Por que motivo é tão difícil para ti aceitar que o Armando é
o homem para mim.
- Não sei… Há alguma coisa… Amiga… Espera. Podem namorar durante mais tempo,
morar juntos, e depois casas. Se for o homem certo casas…
- Eu sei que ele é o homem perfeito. E, eu sempre sonhei casar virgem. Eu
quero casar primeiro e fazer o resto depois como se fazia antigamente.
- Sim, queres o casamento perfeito à antiga. Eu compreendo e aceito. Sou
tua amiga, apenas senti que devia dar-te a minha opinião.
- Amiga. Não te preocupes. Vai ficar tudo bem.
Voltou ao presente e olhou para a Dra. Ana Rita que continuava em silêncio
a olhar para ela. Tinha tantas saudades da amiga, como poderia dizer o que se
estava a passar? Sentia saudades de um abraço… Tantas saudades.
- Deborah… - A médica cortou o silêncio – Tem alguma coisa que me quer
dizer? Está a chorar.
- Desculpe. – Limpou os olhos. Nem tinha reparado que estava a chorar. –
Não tenho mesmo. Coisas minhas. Devo estar emocionada pelo facto de irmos finalmente
ter o nosso filho tão esperado.
- Mas as escoriações… Deborah, aqui está num lugar seguro. Pode falar comigo.
- O Armando às vezes gosta do sexo um pouquinho mais, como dizer, aceso e
viril. Nada com que eu não concorde…
- Não voltarei a insistir. – Abriu a gaveta e retirou de lá uns panfletos
e duas caixas de pílulas. – Entretanto, como médica tenho a obrigação de
deixar-lhe esta informação.
Deborah, olhou para as pílulas, os panfletos sobre linhas de apoio, SOS
mulheres, violência contra as mulheres… Sentiu um aperto no coração. Não queria
acreditar! Era uma dessas mulheres? Era uma dessas mulheres? Caiu-lhe a ficha,
mas ganhou a compostura.
- Agradeço. Não serei indelicada e iria guardar esta informação. Agradeço
a sua preocupação. Está mesmo tudo bem – Colocou os panfletos na mala
envergonhada por saber que a Dra. Ana Rita sabia o seu segredo.
A Dra. Ana Rita levantou-se e dirigiu-se até ela. Agachou-se ao nível da
cadeira da Deborah e abraçou-a. Primeiro o abraço foi desconfortável, depois soube
tão bem que Deborah deixou-se ir. Chorou nos braços da médica durante o que
pareceu uma eternidade. Depois disso, a médica retornou ao seu lugar, sempre
olhando Deborah nos olhos e com compaixão e, deixou-a recompor-se.
- Quero que saiba que estamos aqui para a ajudar no que for preciso. –
Ofereceu-lhe uns lenços. – Pode ir recompor-se na casa de banho, se quiser.
Apontou para o pequeno cubículo do lado esquerdo.
Deborah, levantou-se e dirigiu-se até la. Lavou a cara e repôs a
maquilhagem. Voltou e sentou-se na cadeira.
- Podes pedir ao Dr. Armando para entrar. – Falou a médica no intercom. –
Já sabe, se precisar estamos aqui. – Sorriu ternamente para Deborah.
- Obrigada. – Deborah não teve mais forças para desmentir ou dizer
qualquer outra coisa.
As duas mulheres sorriram com tristeza e alguma cumplicidade. Deborah,
sentiu um aperto no peito de saudades da sua amiga. A voz da Mónica soava nos seus ouvidos como se
de ontem se tratasse. O que andaria a fazer? Como seria a sua vida? Teria filhos?
Na altura ela queria dois, sempre quis ter dois. Tinha saudades das gargalhadas
da amiga e das tardes a estudar e a rir. Tinham tantos sonhos as duas.
De volta à “prisão”, Deborah, viajou calada e perdida nos seus
pensamentos. Armando ainda questionou sobre o que haviam falado e Deborah mentiu
que a médica apenas tinha colocado algumas questões relativamente à maternidade,
se ela se sentia preparada… Burocracias. Por outro lado, Armando não se calou o
tempo todo nos seus monólogos infindáveis a sentir prazer em ouvir a sua
própria voz. Era impressionante como alguém poderia ser tão cheio de si que não
reparava sequer que ela não estava minimamente atenta à conversa.
Os dias que se seguiram foram de pura tortura. Armando estava obcecado,
como sempre ficava quando metia alguma ideia na cabeça, com finalmente fazer um
filho para provar ao Chico que também era homem. Durante algumas semanas todas
as noites ele chegava a casa e cumpria as suas funções na intenção de a
engravidar. Noite após noite ele montava-a, alivia-se e virava-se para o lado.
Ela ficava deitada a olhar para o teto. Uma das noites, reparou que o
teto estava a precisar de pintura, fez uma das suas notas mentais para agendar
com uma empresa, já havia alguns anos que tinham pintado a casa. Incrível os
pensamentos que lhe vinham à mente enquanto servia o marido como esposa.
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