Capítulo 6 - Planos para o Futuro
Capítulo 6 – Planos para o Futuro
- Minha rainha, marquei uma consulta com a Dra Ana Rita. Está
mesmo na hora de fazermos o nosso filho. Acreditas que o palhaço do Chico já
vai no terceiro? Há dias mandou uma piada como se eu não tivesse filhos porque
não tenho virilidade para isso. Uma lata, aquele gajo. Então, marquei a
consulta com a Dra Ana Rita. A ver esse dispositivo, está na hora… Até já te
tinha prometido que ia finalmente dar-te o filho que tanto queres. – deixou-se
arrastar no seu monólogo característico. – O mundo só vai ficar mais rico com
mais homens como eu. Tenho a certeza de que vai ser um rapaz. Grande, forte, e bem-sucedido
como o pai. Um morenaço de um metro e oitenta e cinco, sobrancelhas profundas e
olhos castanhos. Vai ser giro vai. Não pareces nada feliz com a novidade. Estou
para aqui a fazer-te um favor…
- Sim, estou
feliz, meu rei. – Deborah, sabia muito bem o que responder – É muita generosidade
da tua parte. Obrigada.
- Ah… Ainda bem… Sabes que eu sou assim. Um homem
generoso. Para além disso tenho de mostrar àquele palhaço que eu sou homem. – Sorriu
e assobiou.
- Não podia ser de outra maneira. – Deborah, respondeu
com uma dor na alma.
Nem pensar que iria engravidar. Muito menos agora. Agora
que estava prestes a seguir o seu sonho.
- Meu rei… Mas, a tua virilidade já foi comprovada. O filho
da Paloma… E, é um rapaz…
Deborah, sentiu a mão pesada de Armando a aterrar na sua
cara. De imediato, as lágrimas vieram aos olhos e caíram aos pares. Ficou com a
cara dormente, e caiu da cadeira. Ao cair, arrastou a toalha da mesa e os
pratos consigo, os copos… Armando, levantou-se de um ápice, e foi até ela. Puxou-lhe
pelos cabelos e arrastou-a até ao meio da sala de jantar. Com raiva, aplicou-lhe
mais uma chapada, enquanto ao mesmo tempo a levantava com uma mão, pelo decote
do vestido.
- Como te atreves a dizer uma coisa dessas? – Gritou enfurecido
– Eu já te tinha dito para nunca mais tocares no nome dessa cadela cá em casa. –
abanou-a com toda a força, desferiu-lhe mais uma chapada e atirou-a ao chão. –
Não se pode estar em paz? Eu, estou para aqui a pensar em ti, em dar-te um
filho, bem-disposto e tu vens com essas conversas? Pensei que esse assunto
estivesse enterrado.
Deborah, tinha o orgulho ferido demais para chorar em voz
alta. Encolheu-se no chão, a abraçar-se e a deixar as lágrimas rolarem. Sentiu
o gosto de sangue na boca e a cara inchada. Aninhou-se no chão frio e deixou-se
estar ali. Sentiu os passos de Armando a sair da sala de jantar e a dirigir-se
para o escritório. Provavelmente, tinha ido servir um copo de whisky, como de
costume.
Quando se sentiu recuperada, levantou-se a custo e começou
a apanhar os pratos partidos e as coisas do chão. Foi buscar a pá e apanhou os
cacos e os restos de comida. Colocou a toalha na máquina de lavar e limpou o
chão. Fez tudo muito lentamente e com cada respiração prometia a si mesma que
esta tinha sido a última vez que ele lhe tinha batido. Não voltaria a
acontecer. Tinha de se despachar a ir embora. Ouviu os passos do Armando e
soube que estava na hora de subir para o quarto. Era óbvio que depois disto ele
iria querer demonstrar o seu amor por ela.
Subiu as escadas, opulentas, até ao quarto, entrou no en-suite
e tomou um duche rápido. Colocou maquilhagem na face, e vestiu a sua melhor
camisa de dormir. Aquela de seda, que o Armando tinha escolhido para noites
especiais como esta. Apagou a luz, deitou-se na cama, acendeu o candeeiro e
esperou.
Em pouco tempo, Armando entrou no quarto e começou a
despir-se. Deitou-se em cima dela e agarrou-lhe no seio, que ela estrategicamente
havia deixado de fora. Massajou-lhe o seio enquanto lhe beijava o pescoço. Dobrou-lhe
as pernas de forma que ela ficasse com os joelhos para cima e as plantas do pé
apoiadas no colchão. Encaixou-se entre as pernas dela e penetrou-a. Cada vez
que a penetrava, Deborah sentia como se de uma facada se tratasse. Uma facada
ao ego, uma facada à sua dignidade, que ela tinha dúvidas se ainda existia. Armando
terminou e deixou-se estar em cima dela por uns instantes. Beijou-lhe a testa e
rolou para o lado.
- Não sei por que motivo tu fazes-me fazer isto. Eu não
quero tratar-te como trato as cadelas da rua. Tu és a minha rainha e para ti só
tenho amor para dar. Mas, tu às vezes fazes-me fazer-te isto. Só quero cuidar
de ti, como um rei cuida de uma rainha, caraças. É tão difícil deixares-me
fazer o meu papel?
- Desculpa, meu rei. Às vezes não sei o que me passa pela
cabeça. – respondeu a custo com a pouca voz que lhe sobrava.
- Devem ser essas porcarias que vês na televisão. Sei lá…
- Virou-se e olhou para ela. – Amanhã vamos à medica e tratamos do nosso
menino. Vais ser muito mais feliz. – Beijou-a na testa novamente e virou-se
para dormir.
Deborah, não se moveu até o dia amanhecer. Não conseguiu
dormir a pensar no que teria de fazer para sair dali o mais rápido possível.
Sinceramente, não sabia como tinha chegado a este ponto. Em
pleno século 21, como é possível viver assim? Como é possível não ter percebido
que alguma coisa estava errada? Como é que se deixou humilhar pela primeira
vez, e pela segunda, e pela terceira, e pela milésima… Como? Ela era uma mulher
educada, como poderia viver como se estivesse presa na idade média, em que as
mulheres eram tratadas como objetos? Como é que se permitiu ser tratada como um
objeto? Porque é que ficou? O que a impediu de sair? O que a impediu de se defender?
O que a impediu de o denunciar? Seria a vergonha? Seria o facto de no início
acreditar que ele ia mudar? Como? Como era possível ela estar a viver assim?
Deixar-se dominar por completo por um homem que claramente não está no seu
perfeito juízo. E, quando? Quando é que o Armando deixou de ser aquele homem
interessante, educado, galanteador, para se tornar neste monstro cego pela competição.
Tudo o que fazia era a competir com os outros, a tentar mostrar que era o maior,
o melhor… Quando? Como? Como é possível ter-se tornado esse farrapo que só
serve para apanhar porrada e ser possuída como se de um animal se tratasse.
Na realidade isso já não importava. Tinha de deixar de se
focar nos problemas e pensar na solução. A solução era sair. Já tinha mais de
200 mil euros na conta e já podia seguir em frente. Até agora o medo não a
tinha deixado seguir. Estava decidida, mas ainda borrifada de medo. Medo de que
ele a perseguisse, medo de não conseguir… Medo… Medo de encontrar quem lhe fizesse
pior pelo caminho… Medo de ter voz…
Passou o dia em casa a continuar a pesquisa dos locais para
onde poderia fugir. Faltava decidir essa parte. A televisão estava ligada, a
fazer barulho de fundo, para não se sentir sozinha. Chamou-lhe à atenção um anúncio
relativamente a um campeonato de Muay Thai que iria ser transmitido. Sentou-se
a ver parte do campeonato e decidiu. Decidiu que nunca mais na vida ninguém lhe
iria bater, sem pelo menos ela ripostar. A força das mulheres que ela viu no
ringue, o poder que elas demonstravam, atraíam-na. Imaginou-se a desferir um
daqueles valentes socos ao Armando.
Sorriu com a ideia de antes de ir, naqueles dias em que
ele chega a casa podre de bêbado e lhe tentasse bater, desferir-lhe um valente
soco e caírem-lhe os dentes. Imaginou a cara que ele faria de surpresa ao
apanhar da sua rainha. E, porque não? Também tinha direito a imaginar um pequeno
momento de prazer… Depois de tudo que apanhou qual seria o mal em devolver-lhe
pelo menos uma vez? Para além disso, tinha de aprender a defender-se. O Armando
seria o primeiro e único homem a meter-lhe a mão em cima. Disso ela tinha a
certeza. Decidiu. Abriu o caderno onde tinha o seu plano de fuga e acrescentou
a vermelho: “contratar instrutora de Muay Thai. Motivo: soco ao Armando”. Desenhou
um smiley ao lado e começou-se a rir. Aquilo não podia ser nada, mas só de
imaginar um pinguinho de vingança a fazia feliz. E, porque não? Bora lá
aprender a partir a cara a esse rei. Um rei, sem dentes. Riu-se com a mão na
barriga. Doía-lhe o corpo, mas sentiu uma pequena leveza na alma.
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