Capítulo 5 - Negócio Feito

 

Capítulo 5 – Negócio Feito

            Sentou-se desconfortavelmente na cadeira oferecida pelo joalheiro. Abriu a pequena mala a tiracolo da Gucci e retirou a caixa preta de veludo que continha um dos seus passaportes para a liberdade. Colocou-a gentilmente em cima da mesa e sorriu para o joalheiro. Comandou a sua mente para se acalmar e mudou a fisiologia. Não devia de forma alguma aparentar qualquer tipo de nervosismo, caso contrário poderia dar a ideia de que não sabia nada do que estava a falar.

            - Posso trazer-lhe alguma coisa para beber, minha senhora? – perguntou amavelmente o joalheiro.

            Deborah, reparou nele. Parecia mesmo saído de um filme. Já com alguma idade, com o cabelo grisalho, o corpo ligeiramente curvado, como se estivesse sempre em posição de análise de joias, e, um sorriso aberto que de alguma forma transmitia segurança.

            - Obrigada, mas estou bem. – respondeu com um sorriso sincero.

            - Já faço isto há muitos anos e parece-me nervosa, sabe. Só quero ajudar da forma que posso.

            - Estou bem. Mas, como deve imaginar não é fácil desfazer-me desta beleza. Este colar foi-me oferecido pelo meu marido há uns anos atrás. Lembro-me perfeitamente do dia, da hora, do momento… - mostrou um pouco de nostalgia.

            - Compreendo perfeitamente. Principalmente uma peça linda como esta.

            - Lembro-me de ele ter-me dito que quando escolheu o colar foi a safira amarela que o chamou à atenção. Que fez-lhe lembrar do vestido amarelo que eu trazia vestido no primeiro dia em que nos conhecemos no parque… - sorriu delicadamente – obviamente que o impacto não foi pela safira ser amarela, embora eu pensasse que elas só existissem em azul, mas sim por ter-se lembrado do vestido.

            - Pelo que percebo tem um marido dedicado e com muito bom gosto. – O joalheiro olhou primeiro para a joia e seguidamente para a Deborah. – Esta combinação de diamante, safira amarela e ouro é muito elegante. O colar em si é delicado, digno de uma rainha…

            Deborah, arrepiou-se com a palavra. Não estava à espera e só de a ouvir a sua fisiologia mudou e colocou-se em posição de defesa… Lembrou-se de onde estava e tentou controlar as suas emoções.

            - Disse alguma coisa que a deixou desconfortável? – perguntou astutamente o joalheiro.

            - Nada disso… Foi só uma tristeza por estar a vender esta peça, mas o que tem de ser tem muita força. É por uma boa causa. – recompôs-se – Vamos então a isso. Pelo tamanho das peças, da safira e dos diamantes, e pelo que eu estive a analisar, este colar custa à volta de 30 mil euros. A minha pergunta é muito clara: fazemos negócio sim ou não. – Adotou uma postura de negócios.

            - Permita-me analisar detalhadamente. – respondeu com um sorriso.

            Analisou delicada e minuciosamente a peça com a sua lupa. Parecia perdido no seu trabalho a olhar o colar através da lupa e de tempos a tempos a tirar notas. Deborah, sentiu o tempo a parar. Tinha pressa de sair dali, e o homem nunca mais se despachava. Mas, também sabia que não deveria ser ela a quebrar o gelo. De acordo com o que lera relativamente a negociações o primeiro a quebrar o gelo perde e ela não estava ali para perder. Nem pensar!!!!

            - Uma peça genuína e muito delicada. – Falou por fim o joalheiro – Contudo, só lhe posso oferecer 20 mil euros pela mesma. Assim à primeira vista é só isso que lhe posso oferecer.

            - Sabe melhor do que eu que essa peça vale mais do que me está a oferecer. – Sorriu – Quando eu disse 30 mil, já estava a dar um valor abaixo do que o colar realmente vale. Não faço negócio por menos de 30 mil.

            - Só com uma avaliação mais minuciosa eu poderia dar-lhe o valor exato desta peça, mas pela minha experiência não vale mais do que 25 mil euros, e eu ofereço-lhe 20 mil. Pegar ou largar.

            - Neste caso largo. – Fez gesto para que ele lhe devolvesse o colar. – Não tenho intenções de o vender por menos de 30 mil, e embora queira vender a peça tenho a certeza do seu valor e não farei uma loucura como vendê-lo ao desbarato.

            - E, se eu disser 25 mil? Dou-lhe aquilo que eu considero justo para ambos. Ficamos no meio…

            - 30 mil é o valor. Eu agradeço a sua atenção. – Começou a guardar o colar, muito devagar, na caixa. Colocou a caixa na mala e afastou ligeiramente a cadeira para se levantar. – Muito obrigada pelo seu tempo. Levantou-se devagar e sorriu. Virou-se e começou a caminhar para a porta.

            - 30 mil. Fechamos o negócio por 30 mil. – Deborah, ouviu-o e sorriu antes de se voltar para ele.

            - Parece-me que temos negócio. – respondeu triunfante.

            O joalheiro levantou-se e pediu-lhe que o acompanhasse ao cubículo que se encontrava ao lado da oficina. Sentaram-se no escritório enquanto faziam a transação. Ele fez a transferência e entregou-lhe o comprovativo. Deborah, assinou alguns documentos e agradeceu.

            - Muito obrigada pelo seu tempo. Gostei de fazer negócio consigo. Tenho mais algumas peças que tenho a certeza que irá adorar.

            - Foi um prazer negociar consigo. Se todas as peças forem da mesma elegância tenho a certeza de que iremos ambos sair daqui satisfeitos.

            Deborah, voltou para a sua prisão com um sorriso. Neste momento, tinha 30 mil euros na conta. Numa conta da qual o Armando não fazia a mínima ideia de que existia e da qual ela tinha total controlo. Ficou grata pela obsessão que ele tinha em mostrar aos outros que podia mais do que eles. Ao menos, nos presentes, tinha sido generoso. Eram realmente joias raras que ele havia comprado. Joias dignas de uma rainha.

            Nessa noite, quando o marido chegou às tantas horas e exigiu-lhe que preparasse algo para ela comer nem sequer se sentiu incomodada. Reparou obviamente na camisa manchada de batom, fora das calças e o cheiro a álcool que transbordava dos seus poros. Fez-lhe um hamburger, que era o que ele gostava de comer quando estava nesse estado, e preparou-lhe também uma sopa.

            - Vai deitar-te… Prepara-te… Sabes que não gosto de dormir antes de mostrar-te o homem que eu sou. Nada neste mundo vai fazer com que eu não sirva como homem para a minha rainha. – falou entredentes e arrastadamente.

            - Claro, meu rei. Estarei à tua espera como habitual.

            Deborah, apagou a luz, dirigiu-se para a cama e acendeu ligeiramente o candeeiro. Apenas com a luminosidade suficiente para que ele conseguisse chegar até à cama sem bater em nada ou cair, conforme as ordens dadas por ele. Tirou as cuecas, colocou-as debaixo da almofada e subiu a camisa de dormir. Abriu os botões da camisa e deixou um seio de fora, como ele gostava. Ficou ali deitada à espera… Os minutos passaram e ele não apareceu. Como muitas outras vezes, deve ter adormecido no sofá ou em cima da mesa da cozinha sem forças para fazer o seu serviço como rei. Deborah, agradeceu essa bênção, mas deixou-se estar nessa posição. Por experiência própria, sabia que ele ainda poderia acordar e querer servir-se.

            Não conseguiu evitar um sorriso, muito em breve este martírio iria terminar. Apenas tinha de ser paciente e continuar a ser a mulher perfeita para que ele não desconfiasse. O que seriam mais uns meses, para uma mulher que tinha vivido daquela forma nos últimos 10 anos?

 

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