Capítulo 4 - Esperança
Capítulo 4 –Esperança
Os dias passavam lentamente. Deborah, sentia-se a
viver no efeito borboleta, ou seja, todos os dias pareciam exatamente o mesmo
dia. Entrou em piloto automático e cumpriu com o seu papel na perfeição. Sabia
quando falar, quando calar, quando presentear Armando com a sua presença e
quando se fingir de invisível.
Era uma existência penosa, e, por vezes, amaldiçoava
a tomada de consciência. Quando tudo isto era normal para si, era mais fácil de
suportar. Dava por si a desejar voltar a esses dias. Aos dias em que ficava
feliz quando o marido chegava a casa fora de horas a cheirar a álcool e com
marcas de batom na camisa; lembra-se de ainda agradecer a Deus por ter mostrado
o caminho e ele, apesar do seu estado embriagado, ter chegado são e salvo.
Nesses dias, Deborah, pacientemente, ajudava-o a ir
para a cama e, por vezes, ainda cumpria com o seu papel de esposa.
- Pensas que só porque eu estive na “gandaia” não
consigo cumprir com as minhas funções como marido? – perguntava ele com a voz rouca
e arrastada.
- Vem descansar, Armando. – Respondia com
compaixão.
- A vida de um homem de sucesso não é fácil, acredita,
meu doce. Não é fácil… Estas mulheres a caírem para cima de mim, a pensarem que
algum dia as trarei para casa e as tratarei como uma rainha… - interrompia com um
sorriso malicioso – são umas cadelas. Sabes? Eu já tenho uma rainha… A minha
rainha és tu. Eu volto sempre para a minha rainha.
- Vem descansar, meu rei. – Deborah, respondia
sempre com o coração nas mãos, sem saber o que dizer, o que sentir, o que fazer…
- Vem, deita-te e descansa. Amanhã vais sentir-te melhor.
- Vou deitar-me sim, mas contigo. Anda cá. Sabes
que não consigo dormir sem mostrar-te que apesar de tudo sou homem para ti.
Anda…
Deborah, fechava os olhos e rezava para que tudo
acabasse rápido. Sabia por experiência própria que não valia a pena fugir, retaliar…
Deitava-se na cama e levantava a camisa de dormir. Armando, arrastava-se para
cima dela e por vezes nem terminava o “serviço”, adormecia mesmo por cima dela quase
a sufocando…
E era isto… A sua vida tinha-se resumindo a isso.
Por mais que tentasse não conseguia lembrar do primeiro dia. Da primeira vez em
que percebeu que o marido dormia com outras mulheres regularmente. Não se
conseguia lembrar da primeira vez que ela ingenuamente o confrontou e descobriu
o monstro que ele era. Ou conseguia? O primeiro estalo tinha sido porque ela o
confrontou ou porque recusou dormir com ele? Não se lembrava da razão em
particular, mas lembra-se de estar deitada na cama, com as lágrimas a caírem pelo
rosto e a ouvir a respiração “hedionda” do marido enquanto a “cavalgava” que nem
um animal. Lembra-se da dor, mas não sabia qual doía mais, o corpo ou a alma.
E, no dia seguinte ele acordava como se nada se tivesse passado, com mimos extras,
e no final do dia vinha para casa com uma joia estupidamente cara….
Deborah, sentiu necessidade de ir ao armário onde
as guardava e abriu a porta. Contemplou as dezenas de joias brilhantes, que
qualquer mulher adoraria ter, mas que ela sabia bem quanto lhe havia custado.
Naquele momento, a olhar para elas, teve uma ideia! E, se ela vendesse aquelas joias?
O Armando nunca iria notar, ele próprio não gostava que ela as repetisse em eventos,
não fossem os colegas e amigos pensar que ele não consegue oferecer joias à
mulher.
Era isso mesmo! Ia vender uma a uma e trocar por
falsas. Já tinha visto em filmes e de certeza que indo a uma joalharia ela
conseguiria fazê-lo. Só tinha de fazer uma lista das joalharias mais
conceituadas e depois, uma a uma, fazer a troca.
Agradeceu a sua decisão de visitar o armário das
dores, que era assim que lhe chamava, visto ter finalmente percebido que esses
troféus seriam a sua salvação. Estava na hora de parar de se lamentar e fazer
um plano.
Tinha de sair da sua bolha de horror e medo, e iria
fazê-lo com nota 10. Em tempos já fora uma mulher que se considerava
inteligente. Tirava as melhores notas na escola e também na faculdade. Para
além disso era a mestre do planeamento. As colegas invejavam a sua forma de planear
os eventos.
Decidiu fazer um plano. Iria começar por catalogar
os trofeus, fazer uma pesquisa na internet e perceber quais as pedras preciosas
envolvidas e o seu valor estimado. Listar as joalharias mais conceituadas… Quando
fosse fazer a troca teria de falar como uma entendida do assunto para não ser
enganada. Outra coisa a tratar era de abrir uma conta no banco sozinha. O Armando
não teria como saber. Também teria de sair do país, tinha a certeza de que ele
não iria descansar enquanto não a encontrasse. Sempre quis visitar a Inglaterra
e o seu inglês não era mau.
A vida ficou mais fácil. Os dias eram passados a planear,
e a colocar o plano em prática, e as noites eram passadas a representar. Decidiu
aceitar todas as interações com o marido como se de um filme se tratasse, no
qual ela apenas teria de cumprir a sua parte da melhor forma. Em criança, sempre
quis ser atriz e pelos vistos tinha jeito. Armando ficava mais feliz quando ela
fingia ser feliz.
- Estou a gostar de ver, minha rainha. Voltaste à
tua forma física normal. Estás digna de um rei, com tudo no sítio. – disse-lhe
um dia ao jantar com um olhar cheio de malicia.
- Quando o meu rei me pede algo, um rei tão
generoso, como posso eu negar? – respondeu com um sorriso largo no rosto. – Estou
a alimentar-me bem e a frequentar o ginásio.
- Estou a gostar de ver. Apenas não fico muito
confortável com essas idas ao ginásio. Passas muito tempo fora de casa. Ainda há
pouco na entrada, reparei que o jardim precisa de ser cuidado… Não estás a
prestar atenção… Mas, também não se pode ter tudo… Entre uma rosa no jardim e
uma musa em casa, fico feliz com a musa. Até tive uma ideia, sabes? Vou
convidar os meus “tropas” para jantar. Já há muito que não lhes mostro como
vive um rei e como é ter uma mulher perfeita. Ainda há dias o palerma do Chico,
sabes, o Chico? Bem, ele dizia que a mulher dele estava cada dia mais gorda…. Está
na hora de mostrar o que um verdadeiro homem tem em casa. Não achas? Claro que
vou ter de trazer-te um vestido digno… Já me vais fazer gastar uma pipa de
massa. Sais-me muito cara, mas há males que vêm por bem… É isso mesmo. Ainda
bem que concordaste. Vamos fazer uma festa. Anda cá, deixa-me apertar-te. Nada
disso. Vai deitar-te e espera por mim. Deixaste-me com uma vontade. Sou vou
terminar aqui e fazer uma chamada. Veste aquele vestido que tu sabes que eu gosto
quando fico assim… - tocou no membro hirto – Vai preparar-te, minha rainha.
Deborah, ouviu-o sem interromper. O Armando adorava
monólogos e ouvir a sua própria voz. Falava incessantemente e respondia às suas
próprias perguntas. No início fazia-lhe confusão, mas agora era como uma bênção,
não ter de responder. Deitou-se na cama e esperou por ele.
Ao longe ouviu a porta a bater. Pelos vistos tinha
mudado de ideias. Já era um hábito fazer isso. Quando ele ficava excitado a
sério, que era como ele dizia, tinha de fazer coisas que não eram dignas de uma
rainha.
- Há coisas que por vezes um homem tem de fazer. Coisas
que só se vêm nesses filmes nojentos, sabes? Coisas para cadelas e não para
rainhas. Eu sei que para ti deve ser difícil entender, mas é melhor assim,
sabes? Não te quero magoar, meu doce.
Aí estava. Foi aí. Foi nesse momento em que tudo se
tornou aceitável. Lembrou-se agora. Foi nesse momento que ele justificou as
traições como algo que um homem deve fazer para não magoar a sua esposa. E ela,
na vontade de que aquilo não passasse de um pesadelo aceitou. Por vezes, por vezes
é mais fácil aceitar do que rejeitar o que acontece connosco. É como viver num
estado de anestesia constante no qual vês tudo a acontecer, mas não dói. Como se
fosse a vida de outra pessoa. Deborah, sorriu com esse pensamento. Muito em breve,
esta deixaria de ser a sua vida.
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