Capítulo 18 - E Agora?
Capítulo 18 – E Agora?
Pablo, estava diferente, mais frio. Deborah, sentiu
a mudança no seu comportamento desde a última vez que tinham falado, em que ela
foi desnecessariamente desagradável. Deborah, compreendia o motivo, mas ele não
sabia o que se passa com ela. Ele não fazia ideia de quão difícil era ser ela…
Passou de estar sempre na defensiva de forma passiva, para o ataque. Sim, sabia
que tinha de mudar, e estava na jornada, mas o caminho era longo.
De duas em duas semanas reuniam-se para analisar as
contas. Ele chegava ao final do dia e, respondia pacientemente às suas dúvidas,
explicava-lhe os relatórios e ajudava-a a estabelecer objetivos com base nos
resultados. Cordialmente, sem um sorriso extra, sem um convite para a levar
para casa…
Estranhamente, Deborah começou a sentir falta
disso. Sentia falta do seu cuidado e do seu sorriso aberto.
- Pablo. – Olhou para ele nos olhos enquanto
analisavam as contas.
- Diz… - Respondeu meio distraído com o que estava
a fazer.
- Desculpa. – Colocou a mão dela sobre a dele e
fingiu não notar no choque elétrico que percorreu o seu corpo.
- Sobre.. – Pablo, respondeu meio perdido.
- Eu fui rude contigo, não devia ter sido.
Desculpa.
- Ah, Deborah. Obrigada, mas não havia necessidade.
Eu disse-te eu fui em paz e saí em paz. Sem ressentimentos. – Respondeu com
firmeza.
- Mas… Tens estado diferente… Distante.
- Eu disse-te que gosto de coisas simples, Deborah.
Estou aqui para te apoiar, mas se apenas me vês nesse papel, é nesse papel que
eu fico. Não tenho sido rude contigo, muito pelo contrário. Estou sempre aqui
quando precisas.
- A trabalho, sim…
- Para mim ficou claro que era apenas esse tipo de
apoio que querias do meu lado, e por mim está tudo bem.
- Por mim, não está. – Deborah, teve finalmente coragem
de o dizer.
- Não? – Pablo, questionou surpreendido.
- Não, não está. Sinto saudades… O teu riso, a tua
simplicidade… A tua forma relaxada de falares comigo… Sinto saudades…
- Dos meus monólogos? Sentes saudades de ouvires-me
falar contigo no carro e não responderes ou acrescentares à conversa?
- Eu sei…
- Ouve… Não és obrigada a partilhar… Sei que estás
a passar por uma fase difícil, e complicada e, nem sei sobre o quê, nem tens de
partilhar, entendes? Simplesmente, tentei estar ao teu lado, apoiar-te. Percebi
que não querias que me aproximasse, afastei-me. A vida é simples, estou sempre
a dizer-te isso. Agora, estás a dizer-me que sentes saudades… Mas, Deborah… Eu
não sei…
- Como assim?
- Tu tens o direito de querer ficar no teu canto,
mas não tens o direito de descartar as pessoas quando te interessa. Entendes?
- Não descartei… Tu é que te afastaste.
- Deborah, tu oras estás bem disposta, ora estás
mal disposta comigo. Ora tens um sorriso para dar-me em troca, ora atiras-me
com pedras… Eu compreendo que tu possas agir dessa forma, eu é que não quero
fazer parte desse filme.
- Eu não fiz isso… Eu… - Deborah, calou-se ao
perceber que Pablo tinha razão.
- Tu nem dás conta. Não deste conta das vezes em
que estou a falar contigo e estás recetiva, de repente digo algo e atiras-me
com pedras. Pensei que com o tempo isso fosse mudar, mas… Por isso, afastei-me.
A vida é muito curta, Deborah. E, como sabes esse é um dos motivos pelo qual
não trabalho aqui. Eu gosto muito da minha vida, simples. Sem dramas.
- A minha vida é um drama… - Deborah, respondeu com
lágrimas nos olhos.
- Apenas o é se tu escolheres que assim seja,
Deborah. – Pablo, limpou-lhe as lágrimas com as mãos. – Os problemas são parte
da vida, não são a vida.
- Pareces a minha coach a falar. – Deborah,
reteve-lhe as mãos na face quando Pablo fez um movimento para as retirar – Eu estou
a trabalhar em mim, Pablo. Eu preciso de ti. Não me abandones, também tu.
- Vais deixar de me atirar pedras, Deborah? – Pablo,
olhou-a nos olhos e aproximou-se mais dela.
- Eu já nem tenho forças para carregar pedras,
quanto mais as atirar. Estou exausta! –
Deborah, libertou o choro com um soluço.
- Então, se me queres do teu lado nessa jornada,
podes contar comigo. – Pablo, abraçou-a e não libertou o abraço durante vários
momentos. Deixou-a chorar o que tinha para chorar. – Podes sempre contar
comigo, Deborah. Está tudo bem. Liberta-te, deixa isso ir…
Nessa noite, Pablo levou-a para casa, mas também
ele ia em silêncio. Um silêncio calmo, um silêncio confortável. Um silêncio entre
duas pessoas que se entendem, que se compreendem… Um silêncio diferente, por
assim dizer.
Deborah, sentiu-se mais leve depois da conversa com
Pablo. Sentiu que se tinha libertado de algumas amarras e que a vida seria mais
fácil. Pablo tinha razão, a vida não é um problema, os problemas é que fazem
parte da vida e têm de ser resolvidos para que o ser humano possa crescer,
desenvolver-se.
Sabia que estava no caminho certo para viver a sua
vida, mas continuava sem saber que vida queria realmente viver. Durante tantos
anos viveu a vida que escolheram para ela, e durante outros tantos escondeu-se
dessa mesma vida, que não sabia qual era a vida destinada para ela, nem quem era
realmente por baixo da máscara de mulher perfeita que tinha usado a vida toda. Filha
perfeita, esposa perfeita, até trabalhadora perfeita. Percebeu que, embora
noutra dimensão, também tinha adotado a máscara da trabalhadora perfeita para o
Sr. Ruiz. Sentia que a única pessoa com quem nunca tinha sentido a necessidade
de ser perfeita, era com Pablo. Pior, com ele até as partes mais negras dela
vinham ao de cima. Surpreendentemente, isso já não a assustava.
- O que estás a fazer? – Ligou para Pablo, espontaneamente.
- Estou sentadinho a ler um livro. – Respondeu do
outro lado da linha.
- Já jantaste?
- Não ainda não jantei.
- Tens planos para jantar?
- Não, Deborah. Os meus planos eram ficar aqui
sentadinho a ler.
- Eu ainda não jantei. E tu ainda não jantaste, podíamos
jantar juntos.
- Ah, então isto é um convite para jantar? Podias
ter dito logo. – Deu uma gargalhada saudável.
- Muito mais do que isso. – Deborah, respondeu.
- Como assim? Mais que um convite para jantar?
- Sim. É um convite para vires cozinhar para mim e
jantarmos juntos. – Deborah, respondeu em tom de troça.
- Ah… Quer dizer, ainda por cima eu é que tenho de
cozinhar?
- Sim. Estou sempre a comer a minha comida, quero
provar da tua. Tem algo de errado?
- Nada disso. Eu adoro cozinhar. Só que nunca tinha
sido convidado para ir jantar e levar as minhas marmitas comigo. – Sorriu novamente.
– É algo diferente. Eu topo.
- Ainda bem. Quanto tempo demoras?
- Primeiro tens de dizer-me o que queres comer…
- Surpreende-me.
- Ok. Então dá-me 30 minutos e estou aí. Vou fazer
algo simples, até porque não sei o que tens na tua cozinha, não quero inventar.
- Até já.
- Até já, menina Deborah.
Assim que desligou o telefone, Deborah correu a
tomar um duche rápido e a dar um jeito à casa. Nunca tinha recebido ninguém naquele
apartamento. Já lá morava há anos e nunca tinha recebido uma visita. Também,
nunca tinha se permitido viver, certo?
Pela primeira vez, ficou confusa com o que vestir.
Era só o Pablo que vinha para jantar, não entendia o motivo de estar tão
ansiosa. Decidiu pelo vestido branco e azul, que lhe marcava ligeiramente as
curvas. Nada de mal, vestir-se um pouco diferente do normal para um jantar com
um amigo, pensou.
Em meia hora, conforme combinado, Pablo chegou. Deborah,
abriu a porta e encontrou um Pablo sorridente com uma camisa azul estampada, com
os dois primeiros botões abertos, mostrando um pouco o peito, uns calções
brancos e uma cesta de piquenique na mão.
Por momentos ambos perderam a respiração e ficaram
parados a olhar um para o outro.
- Então, vais deixar-me entrar? – Pablo, quebrou o
silêncio com o seu sorriso característico. – Estás deslumbrante.
Deborah, não respondeu. Aproximou-se dele, colocou-se
em bicos de pés, entrelaçou as mãos atrás do pescoço de Pablo, fechou os olhos
e beijou-o. Sentiu um arrepio a percorrer-lhe a espinha. Juntou-se mais a ele e
Pablo respondeu, agarrando-lhe pela cintura com a mão que tinha livre, levantando-a
ligeiramente do chão, fechando a porta atrás de si, colocando o cesto no chão e
encostando-a à porta, já fechada, devorando-lhe os lábios delicadamente, mas sofregamente.
Deborah, sentiu-se voar literalmente. Envolveu-se
naquele beijo que mais parecia um vulcão em erupção e questionou-se constantemente:
E, agora?
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