Capítulo 16 - O Universo

 

Capítulo 16 – O Universo

A vida, por vezes, prega-nos partidas… Armando, saiu do hospital ciente de que algo teria de mudar. Embora mostrasse um papel de durão, estava aterrorizado.

Por sorte não morreu, mas sentia que apesar dos médicos dizerem que estava recuperado e que poderia regressar à sua vida normal, sentia que alguma coisa nele não seria a mesma. Tinha a certeza de que para voltar a ser quem era tinha de encontrar a Deborah, e ajustar contas com ela.

O regresso à base foi estranho. Os portões imponentes, estavam enferrujados e empenados e o seu lindo jardim parecia uma floresta abandonada, daquelas que se vêm em filmes de terror. De repente, toda aquela grandiosidade tornou-se assustadora em vez de um símbolo de poder. Abriu a porta de casa, com dificuldade, e sentiu um frio a percorrer-lhe a barriga. O salão parecia maior do que se lembrava e estava sujo, e cheio de pó. As marcas de sangue continuavam no chão, secas e a lembrar um momento que nunca pensou que iria acontecer.

Subiu até ao quarto e a cama, ainda desfeita, fez-lhe lembrar da mulher. Como sempre a encontrava da forma que ele gostava, pronta apenas a aliviar-lhe os desejos e as vontades. Que sentimento era aquele? Remorso? Raiva?

Durante os meses a fio em que esteve no hospital só recebeu visitas do Chico. Aquele Chico que tinha a mania, que ele não suportava, e que devia estar prontinho para ficar com o lugar dele foi o único que o visitou. Levava-lhe noticias da empresa, e por vezes, apenas perguntava como ele estava. As visitas do Chico incomodavam-no profundamente e não precisava de caridade de ninguém, muito menos daquele borra botas… Mas, na realidade foi o único que se dignou a visitá-lo.

Percebeu que estava sozinho. Também não precisava de ninguém. Não precisava de ninguém, ele não precisava de ninguém. A ingrata da Deborah… Não conseguiu entender. Deu-lhe tudo, não lhe faltava nada. Tinha uma casa maravilhosa, joias… Tudo bem que de vez em quando ele chateava-se um pouco e era um pouco agressivo, mas não era nada que uma mulher indisciplinada não merecesse. A audácia de o questionar ou desafiar depois de tudo o que ele fazia por ela? Deu-lhe uma vida de rainha, não tinha nada que reclamar. Tudo bem que ele podia ter-lhe dado os tais filhos que ela queria, mas imaginá-la gorda e inchada dava-lhe azia. Não queria chegar a casa para um espetáculo desses, e por esse motivo andou a evitar. Muito menos ter de dividir a atenção com alguém. Ela estava ali para o servir, para ser o seu troféu…

Não. Não podia perder o seu tempo a pensar na ingrata da Deborah. Muitas mulheres dariam tudo para estar no seu lugar. Como teve a coragem não só de o deixar como de lhe levantar a mão? Abandoná-lo como se de um cão se tratasse? Ela teria de pagar… Pagar caro. Pagar muito caro…

A mansão estava imunda. Na primeira noite decidiu ir para um hotel e depois contratar alguém que fosse cuidar do seu palácio. A Deborah é que tratava de tudo, como tal não tinha contactos da senhora que de vez em quando ia ajudar a Deborah a fazer a limpeza profunda, do jardineiro… Não tinha qualquer tipo de contactos, não sabia nem por onde começar. Procurou na net uma empresa de limpezas, e contratou de imediato.

O regresso à empresa foi desconfortável. Olhavam para ele com cara de pena, e alguns com cara de vitória, como quem celebra a queda de um herói. Fingiu que não viu, aquela cambada de pessoas insignificantes de forma alguma iria afetar o seu bem-estar.

Aos poucos ganhou alguma normalidade, e voltou aos seus tempos de glória. Felizmente não perdeu as suas capacidades de discernimento e continuava um tubarão no mundo dos negócios. Sabia que a maioria das pessoas com quem trabalhava não aprovava os seus métodos, mas a questão é que trazia resultados. Durante a sua ausência a empresa conseguiu manter alguns níveis de competitividade, mas perdeu alguma posição, que ele em dois meses recuperou. Finalmente, sentiu-se novamente imbatível.

Os regressos a casa eram monótonos, e não é que sentisse saudades daquela cadela da Deborah, mas, era bom ter alguém que o ouvisse falar. Ela ouvia-o sempre, nunca o questionava. Estava lá sempre da forma que ele gostava, pronta para o satisfazer, para cumprir com as suas ordens. Se calhar, pensava por vezes, tinha sido um pouco rígido demais. Provavelmente, se tivesse sido um pouco mais condescendente…

Envolveu-se com algumas mulheres, mas eram todas a mesma coisa. Só faziam exigências e tinham a boca muito grande. Falavam, falavam e nunca e calavam. Eram insuportáveis… Decidiu que quando precisasse de aliviar as suas vontades iria fazê-lo sempre com prostitutas. Essas eram obedientes, nunca abriam a boca, faziam o que ele queria e nunca pediam que as levassem para casa. Estava cansado de tentar encontrar uma substituta para a Deborah. Não encontrava ninguém que fosse adequada.

Uma coisa era certa, aquela mulher era linda. Tinha saudades de voltar para casa e encontrar aquela mulher linda que sabia que era sua e só sua. Não é que tivesse saudades dela, nada disso, mas era bom chegar a casa e encontrar aquele troféu que todos os homens cobiçavam, mas que ele sabia que era só dele. E, para além de linda era a rainha perfeita. Não questionava… Quando a encontrasse, se ela pedisse desculpa, quem sabe ele até poderia perdoá-la… Com algumas condições, pode ser que a perdoasse. Se ela prometesse portar-se bem.

Decidiu que não iria parar enquanto não a encontrasse. Primeiro ajustaria contas, iria castigá-la. Ainda não sabia como, mas iria. Isso era algo que quando a visse podia decidir… Mas… Quem sabe, até seria um bom marido e deixasse de lhe levantar a mão. Como prova de que a perdoou. Podia ter sido esse o motivo que a fez ir-se embora. Podia sempre bater numa prostituta qualquer. Sim, isso era algo que ele podia mudar no relacionamento. Sim… Se ela voltasse, ele não lhe levantava mais a mão, mas ela também não podia esticar-se. Nos últimos tempos, antes do acontecimento, estava muito arisca a questionar-se sobre as mulheres com quem ficava. Era ciúmes! Claro! Só agora percebeu. Eram os ciúmes. Pronto. Podia também deixar de falar sobre as suas aventuras fora de casa, quem sabe isso acalmava-lhe os ciúmes. Sim, as coisas poderiam ser diferentes…

Os anos passaram e nem um sinal da Deborah. Gastou rios e rios de dinheiro com detetives privados e nada. Será que ela fez uma loucura e tirou a própria vida? Os remorsos do que lhe fez foram tão grandes que ela sabia que não podia viver sem o seu rei. Sim, podia ter sido isso. Contudo, algo dizia que não. Principalmente, depois de descobrir que ela vendeu as joias e amealhou algum dinheiro. Não. Ela não se matou. Ela fez um plano elaborado… Um plano para fugir dele. Ingrata! Uma ingrata, quando a encontrasse, ela iria pagá-las.

Foi numa viagem de trabalho a Espanha que tudo mudou. Por norma, não era ele que fazia este tipo de viagens, mas o Chico, que tinha acabado de ser pai novamente, não pode viajar. Armando, tinha por hábito tomar o pequeno-almoço numa cafeteria enquanto lia revistas de negócios. Não podia estar maluco. Não podia mesmo. Era ela. Continuava linda, ou melhor, estava deslumbrante. Era ela.. Era a Deborah. Só podia ser. A revelação do ano na área da gestão de empresas. A Deborah. A sua rainha… A cadela. O universo era lindo! Quando não estava à procura, encontrou-a. A sua Deborah. A cadela. A rir. E, um tipo ao lado dela a rir com a porcaria dos dentes todos. A gozarem com a cara dele.

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