Capítulo 15 - Complexidade

 

Capítulo 15 – Complexidade

- Boa noite. – Pablo sorriu para Deborah, apoiado à entrada do gabinete dela. Uma imagem que começava a ser bastante familiar.

- Boas… - Sorriu genuinamente feliz. – Por aqui?

- Já percebi que se não vier arrancar-te daqui tu não sais. Estás quase a criar raízes! – Brincou.

- E, isso é mau? Criar raízes?

- Tudo o que não existe em equilíbrio não pode ser bom para ti. O equilíbrio é a base, Deborah. E, acredita se descansares mais, serás mais produtiva.

- O meu mestre também costuma dizer isso. Mas, para mim estar aqui é descansar. Prefiro isto a dormir.

- Mas, descansar não é dormir. Existe uma tendência para associar descanso a dormir.

- Então o que é descansar?

- Ah… Descansar é uma arte! Descansar é fazer algo diferente do normal. Por exemplo, para quem não tem o hábito da leitura, descansar poderá ser ler.

- Uhm… Estou a entender. E para ti, Pablo. O que é descansar?

- Para mim? Descansar é viver! É ter novas experiências, apreciar o sol, o mar, fazer atividades físicas. Sentar debaixo de uma árvore. Viajar…

- Ok. Descansar é viver. Então eu acho que não sei viver.

- É exatamente essa a questão! Finalmente! Descobriste a Pólvora! – falou gesticulando forçosamente e em tom de troça. – Mas, não te preocupes. Eu estou aqui para te ensinar a viver. – Sorriu.

- Não preciso de homem algum para ensinar-me a viver. – Deborah, respondeu com uma agressividade que não compreendeu. – Desculpa.

- Deborah… - Pablo, aproximou-se dela gentilmente. – Eu não sei quem te magoou a esse ponto, mas posso garantir-te que eu sei que não precisas de mim para te ensinar a viver. Se o quiseres fazer, poderás fazê-lo sozinha. Eu sei disso. Olha para ti, o teu desempenho na agência, a tua dedicação. Quando queres fazer algo fazes. És incrível. Mas… -Pablo arrependeu-se do que ia dizer.

- Mas… Por favor, continua. Já que és tão sábio.

- Mas… Há coisas na vida que em conjunto têm mais sabor, Deborah. Não nascemos para fazer tudo sozinhos, mesmo quando sabemos que podemos. E, digo-te outra coisa. Eu, vou-me embora neste preciso momento. Sabes, porquê? Porque apenas porque alguém te magoou, e eu entendo, não te dá o direito de magoares os outros ao desbarato. E, se há coisa que eu sei bem, é qual o meu lugar. Vim em paz. Saio em paz.

Pablo, não deu nem tempo para Deborah responder ou se redimir. Tinha noção de que tinha sido bruta, sem qualquer motivo. Não sabia o porquê. Até à data Pablo apenas se tinha mostrado como um amigo, com alguém com quem podia contar. Não tinha motivos para ter qualquer tipo de animosidade perante ele. Era ridículo, e não fazia qualquer tipo de sentido, mas não conseguia evitar.

Durante os últimos meses, Pablo era um dos seus maiores apoios na agência do pai. Ajudava-a sempre que necessário fosse, e os conselhos eram sempre a favorecer tanto a ela como à empresa. Ele acreditava na política de “win-win”. Para qualquer tipo de negociação deveria ser proveitosa para ambas as partes.

- Não se pode ganhar se alguém perder, Deborah. – disse Pablo há umas semanas atrás enquanto a ajudava com alguns projetos, no final do dia.

- Eu sinto que alguém perde sempre. Que há sempre um lado que sai a perder. Ao menos foi assim que a vida me ensinou.

- A vida ensina-nos muita coisa, contudo a perceção que temos dela depende só de nós. Se tu acreditares que sai sempre alguém a perder vais atrair situações para ti que te permitam comprovar isso.

- A lei da atração, certo?

- Não só. Não é só a lei da atração. É muito mais que isso. É a lei da vibração. Tu só consegues atrair para ti situações que estão no mesmo campo vibracional que tu. Não é o facto de tu dizeres isso, a questão é que tu acreditas com tanta força que vibras nesse campo energético… Isto é física, isto é ciência, não é filosofia. As pessoas confundem. Ou tentam confundir, porque não querem ver a verdade.

- Qual a verdade? Diz-me, Pablo. – Deborah, adorava ouvi-lo falar sobre estes temas, era completamente apaixonado pelo desenvolvimento pessoal.

- A verdade é que a vida é simples, Deborah. O ser humano gosta de complicar e aumentar o grau de complexidade para se sentir importante, para satisfazer o ego. A vida é como um menu, no qual tu escolhes o que queres e isso vem até ti. Se escolhes complexidade e vida complicada, é isso que vais receber. Eu escolho simplicidade, e é isso que eu recebo.

- Essa escolha por simplicidade, está relacionada com não trabalhares aqui na agência. És tão bom naquilo que fazes, ajudas-me tanto, serias a escolha certa para continuares a agência do teu pai.

- Sim. Estás certíssima, eu escolhi simplicidade. A minha simplicidade significa eu viver os meus sonhos e não os do meu pai. Infelizmente, o meu sonho não coincide com o dele e eu tenho muita pena que ele não compreenda isso. Não sou um mau filho, Deborah. Simplesmente, aprendi muito cedo o que quero e o que não quero. E, não quero fazer algo que não me dá prazer, que não faz parte do meu leque de sonhos apenas para agradar o meu pai. E, sim ele é o meu pai, mas eu sou eu.

- Mas, como filhos temos escolhas? Não faz parte do papel de um filho fazer aquilo que os pais querem? Até porque eles querem o melhor para nós?

- Como pode alguém decidir o que é melhor para ti, se não vive na tua pele? E, por que motivo teremos de fazer o que os nossos pais querem, se isso for contra a nossa vontade?

- É assim… Assim é que tem de ser. – Deborah, pensou no relacionamento com os pais.

- Não, Deborah. Não é assim que tem de ser. O ser humano tem direito à sua individualidade. Os pais, sim, querem o melhor para os filhos. Mas, há coisas que eles não podem decidir. Eu sei que um dia o meu pai vai entender.

- Então, se não faz parte dos teus sonhos por que razão me ajudas de quando em vez?

- Porque o meu pai precisa de mim nesse momento, e eu tenho a capacidade para o fazer. Se posso ajudar, ajudo. Aqui estou eu, e muito grato por te ter aqui. Caso contrário teria de passar mais tempo a apoiar. Mas, é isso que eu estou a fazer: a apoiar. Não estou a viver o sonho dele. Para além disso…

- Sim… Para além disso. – Deborah, solicitou que ele continuasse após um momento de silêncio.

-Para além disso, é um prazer ajudar-te. Aprendes rápido, és uma apaixonada pelo assunto, e… E, uma excelente companhia. Gosto de estar aqui, contigo. Sabe-me bem. É simples.

- A tua simplicidade… - Deborah, corou um pouco e sentiu-se incomodada.

- Sim, a simplicidade. Mas, vamos lá tratar deste negócio “win-win”, e ver se saímos daqui ainda hoje se possível. – Pablo, sorriu e desconversou percebendo que Deborah não tinha gostado do avanço.

Ao recordar-se dessa conversa, Deborah, percebeu que sempre que Pablo mencionava algo mais a título pessoal ela ficava arisca e agressiva, ou fugidia. Não tinha esse direito. Precisava de resolver isso. Sabia que este comportamento de alguma forma estava relacionado com o passado, com a forma como foi educada, com as coisas em que acreditava… Já o mestre Luís Fernando havia falado sobre a ressignificação, no Master Your Life, e que apesar de não podermos mudar o passado, podemos mudar o significado.

A grande questão era qual parte do passado? Quanto mais pensava, mais sentia que todo o seu passado precisava de ser ressignificado. Que todas as experiências do passado a tinham marcado de forma negativa.  A relação com os pais. O primeiro namorado. O Armando… Tanta coisa, o que poderia haver em comum? Uma coisa tinha a certeza, o elo de ligação de todos os seus relacionamentos era ela própria. Portanto, na realidade ela era responsável pelas suas ações. E, não podia de forma alguma ser responsável por tratar um homem bom de forma desagradável. Não queria afastar o único amigo que tinha, como o tinha feito com a amiga há muitos anos atrás, apenas porque ele não concordava com a sua opinião.

Estava na hora de mergulhar ainda mais no seu interior. Ela não queria ser aquela pessoa que fica amarga e ressabiada para o resto da vida. Não queria esta vida complexa, queria algo simples. Queria ver a simplicidade da vida, assim como Pablo, sorrir só por sorrir, ajudar só por ajudar… Ele era realmente um homem extraordinário…

Deborah, decidiu naquele momento contactar uma coach que seguia, e que já havia publicado uns livros. Revia-se um pouco nela, e se ela tinha conseguido de certeza que a poderia ajudar. Não podia continuar assim. Não queria afastar pessoas da sua vida. Não queria ser responsável pela sua infelicidade. Estava na hora de arregaçar as mangas e começar a trabalhar a sério dentro dela, e ninguém melhor que a Life Coach Adelaide Miranda para a ajudar.

Comments

Popular posts from this blog

Capítulo 27 – Imperfeitamente, Completamente Deborah

Capítulo 29 – A Mulher Perfeita

Capítulo 19 - Jantar