Capítulo 14 – Energia
Capítulo 14 – Energia
Sentou-se na praia a ver o nascer do sol. Precisava
parar os pensamentos e só a junção do sol com o mar tinham esse poder. O incrível
poder que a natureza tem de aceitar-nos sem questionar, sem restrições… Como
uma mãe que nos nutre sem nunca questionar se somos merecedores. Mesmo quando a
maltratamos ela aceita-nos sempre como somos sem nos julgar.
Apesar de estar a sentir-se útil na agência, começava
a ter a noção de que aquilo que era suposto ser temporário estava a
prolongar-se. A necessidade de ir a Portugal era cada vez maior e não conseguia
ver como o iria fazer num futuro próximo. A doença da esposa do patrão deixou-a
sensível não apenas pela situação em si, que é delicada, mas também porque a
levou a pensar diariamente nos pais.
Durante o Master Your Life, fizeram um exercício do
perdão, muito poderoso, Hoponopono, que a levou a chorar baba e ranho. Como
ação prometeu que iria falar diretamente com os pais e abraçá-los. Durante anos,
culpou, em parte, a mãe pelo que se passou no relacionamento com o Armando, por
nunca se sentir suficiente… Contudo, tudo o que aconteceu tinha de acontecer exatamente
da forma como aconteceu.
Ela não seria quem ela era hoje se não tivesse
passado pelo que passou. E, a mãe apenas fez o melhor que sabia com o que tinha.
Foi assim que a tinham educado e ela apenas repetiu o ciclo com a filha. Cabia
agora à Deborah quebrar esse ciclo com os filhos dela…
Filhos… Os filhos que o Armando nunca quis ter, e
que estavam cada vez mais longe de serem possíveis nesta vida. Sempre quis ser
mãe, mas com os anos a passarem começava a aceitar que ter filhos ficaria para
uma outra vida. Sem dar conta, de repente, já estava com 41 anos. Adotar seria
uma opção, quando realmente estabilizasse a vida, colocaria essa hipótese na
mesa.
Precisava ir a Portugal. Sentia que tinha de ver a
mãe e o pai. Não falava com eles há anos. Precisava… A questão é que sabia que
ir a Portugal não seria coisa de dois dias, tinha muito a resolver. Enfrentar
os fantasmas. Falar com os pais. Procurar o Armando. Falar com ele. Saber como
ele estava… Durante anos viveu assombrada se o teria morto naquela noite, e
tinha muito medo de saber a verdade. Não queria acordar um dia e saber que era
uma assassina. Contudo, sensivelmente há um ano atrás, para seu próprio alívio,
teve a coragem de pesquisar a empresa dele e, ele continuava na direção, como
sempre quis, e a empresa era uma das melhores empresas de Portugal. Ao menos
não era assassina… Agressora, sim. Assassina não. Precisava falar com ele, e
deixar o passado no seu lugar: no passado.
Despediu-se do mar e voltou para o escritório. Mesmo
indo ligeiramente mais tarde do que o habitual, olhou para as horas e, percebeu,
que seria a primeira a chegar. Ainda não eram 7h30 e o horário habitual de
entrada era por volta das 9h. Teria uma hora, pelo menos, para tirar uma hora
para pensar. Pensar nos projetos, no que estavam a fazer de bom, e o que poderiam
melhorar.
Esta prática era mais um dos presentes que “recebeu”
da Allcan. O curso de eficácia pessoal e profissional, e o de Codex, foram simplesmente
ouro para a sua “performance” no trabalho. Era incrível como produzia cada vez
mais e sempre com o objetivo em mente. Aprendeu também a descansar. Entrava
mais cedo, mas durante a hora do almoço aproveitava para caminhar, ler, ou
simplesmente relaxar. Abstrair-se do trabalho e simplesmente descansar a mente.
Pediu permissão ao patrão para fazer um pequeno escritório a que chamou de retiro,
no qual isolaram as paredes por forma a isolar o som, e criaram uma espécie da
câmara de silêncio. Por mais incrível que pareça, sentar-se no silêncio, era
das melhores coisas que podia fazer para relaxar.
Para além do retiro, implementou também a prática
da meditação matinal. Entre as 9h e as 9h30, a equipa inteira tirava meia hora
para meditar em conjunto. Embora no início o Sr. Ruiz achasse que isso iria
diminuir a produtividade, ficou impressionado com o resultado. Incluir meditação,
yoga, hora de pensar, na empresa de forma geral, dentro do horário de trabalho,
apesar de ter diminuído efetivamente o número de horas de trabalho a produzir,
aumentou a eficácia da equipa a mais de 60%. O facto de o patrão ser flexível e
permitir-lhe aplicar novas técnicas e liderar a equipa de uma forma diferente,
não só permitiu melhores resultados na empresa, como também criou um nível de
satisfação gigante em Deborah. Sentia-se útil, e cada vez mais capaz de superar
as dificuldades.
Por isso, precisava de ir a Portugal. Tinha a sua
vida pessoal a resolver. A mente voltava sempre para o país de onde fugiu,
literalmente, e sentia que não podia mesmo adiar a viagem. Durante a sua hora
de pensar iria tentar visualizar formas de se ausentar sem impactar na produtividade
da empresa. A questão é que não fazia ideia de quanto tempo iria demorar. Sentou-se
à mesa, pegou no caderno de rascunhos para organizar os seus pensamentos, respirou
fundo e mergulhou nos seus pensamentos.
Foi interrompida por um ligeiro bater à porta. Levantou
os olhos e, ligeiramente, a cabeça, e viu Pablo com um sorriso rasgado a olhar
para ela. Na mão tinha uma espécie de cesto.
- Espero não estar a incomodar, Deborah – sorriu atrapalhado
e levou a mão que tinha livre ao cabelo.
- Já estava a terminar. – respondeu ligeiramente aborrecida
por ter sido interrompida. – Estava a alinhar uns pensamentos. Mas, depois
termino. Como te posso ajudar?
- Será que te posso ajudar com alguns desses
pensamentos? Queres partilhar? – Pablo aproximou-se mais dela e pousou o cesto na
cadeira. – Há pessoas que dizem que sou um excelente desbloqueador de
pensamentos. Afinal, faz parte do meu trabalho. Encontrar soluções onde as
pessoas julgam que não as há.
- Será? Com uma oferta dessas, como posso recusar?
Acho é que não vais gostar do que estou a pensar. – desafiou-o.
- Ui… Agora é que me prendeste. Conta-me. Sou todo
ouvidos.
- Estava a pensar que preciso de ausentar-me por
uns tempos, e ver como posso fazê-lo sem prejudicar a agência, e sem sentir-me
culpada por estar ausente. Preciso mesmo afastar-me, sabes? – Surpreendeu-se com
a facilidade como falou com ele.
- Estás com algum problema, Deborah? Algo que possa
ajudar? – Questionou genuinamente preocupado. Sorriu, para ela. – Podes sempre
contar connosco.
- Assuntos pessoais. – Não quis expandir. – Assuntos
que tenho mesmo de resolver.
- Compreendo. Mas, eu tenho a solução para ti.
- Sério?
- Muito fácil, Deborah. Começa a delegar. Tens uma
excelente equipa. Estás a ficar como o meu velhote. Queres cuidar de tudo e de
todos, e perdes horas e horas aqui neste escritório. A melhor forma de ganhares
alavancagem das tuas horas é dares mais responsabilidades às pessoas que trabalham
contigo. Observa as suas competências, que eu sei que sabes bem quem faz bem o
quê, e começa a dar-lhes mais liberdade de decisão. Um bom líder é aquele que
permite a equipa crescer com mais autonomia.
- Esta era uma das coisas que tinha aqui apontadas.
Mas, como? A responsabilidade foi-me dada a mim. Não quero desapontar o teu
pai, e se correr mal?
- A responsabilidade de gestão e direção foi-te
dada a ti, a forma como o fazes também depende de ti. – Olhou-a ternamente nos olhos
e pegou no cesto. – Por exemplo trabalhares de estômago vazio não é uma boa
ideia, pois não? Anda. Trouxe aqui umas iguarias que vais gostar.
- Pablo… Obrigada, mas está quase na hora de
iniciarmos o trabalho.
- Queres ausentar-te por uns tempos e não consegues
ausentar-te por meia horinha para te alimentares? Onde está a congruência menina
Deborah? Começa agora a libertar-te. Também tens de comer. – Agarrou-lhe na mão
e convidou-a a levantar-se. – Também só vamos até a copa. Não é como se fosse
te raptar.
Deborah, estremeceu com o toque de Pablo. A
eletricidade era inegável. Confusa, levantou-se e deixou-se guiar. Contudo,
libertou a mão, fingindo que precisava de ajeitar o cabelo. Seguiu-o até à copa.
- Senta-te que eu trato de tudo. – Sorriu. – Só estou
um pouco confuso sobre onde estão os talheres. Até fico envergonhado por vir
até cá poucas vezes.
- Estão naquela gaveta, deixa-me ir buscar. – Fez um
gesto para se levantar.
- Deixa-te estar, Deborah. – Pablo pediu
carinhosamente. – Tenho a sensação que passas a tua a vida a cuidar dos outros,
mas não permites que as pessoas cuidem de ti. Nem que seja por uma coisinha mínima.
Dá-me a honra de te ser útil, numa pequena coisa que seja. Relaxa.
Deborah, assentiu e aguardou. Pablo, colocou a mesa
e abriu o cesto. Frutas, queijo, sumo de laranja natural, e pão de centeio. Sentou-se
ao seu lado e começaram ambos a comer em silêncio. Trocavam sorrisos e olhares cúmplices.
Deborah, nunca se tinha sentido tão bem. O único desconforto que sentia era a
energia de Pablo que a puxava até ele. Por várias vezes, teve de reposicionar-se
visto que inevitavelmente as suas mãos procuravam as dele, ou as suas pernas roçavam
nas dele. Como se fosse um imã, um imã inevitável, mas surpreendentemente agradável.
Comments
Post a Comment