Capítulo 13 - Novas Funções

 

Capítulo 13 – Novas Funções

Surpreendentemente, a reunião correu bem. Os colegas aceitaram bem as novidades e felicitaram-na por isso, o que a deixou mais descansada. A última coisa que queria era confrontar as pessoas, detestava conflitos e quando mais os pudesse evitar, melhor.

Durante as primeiras duas semanas, o Sr. Ruiz, esteve presente todas as manhãs, a orientá-la. As tarefas eram mil e umas, e não entendeu como é que o patrão conseguia fazer tudo aquilo, de forma organizada, e com um sorriso nos lábios todos os dias.

Essa era uma das características que mais admirava no patrão, o sorriso estampado no rosto mesmo perante uma crise. Dizia até que estava feliz com o acontecimento, pois era uma oportunidade de crescer. Na altura achava-o um louco, agora depois de fazer o Master Your Life, percebeu que realmente a melhor forma de superar uma dificuldade é encara-la com um sorriso no rosto. Forçar o sorriso até que o resto do corpo, e a tua alma não tenha outra solução sem ser sorrir realmente.

Deborah, estava a gostar ainda mais do trabalho. Sempre colocou na cabeça que não era uma pessoa de pessoas, mas efetivamente trabalhar por forma a apoiar os colegas, a estar presente para eles, garantir que eles tivessem as condições necessárias para fazerem o trabalho deles com a maior eficácia, era realmente prazeroso. Era como se fosse um maestro, e ao mesmo tempo um afinador dos instrumentos. Para que a orquestra estivesse em perfeita sintonia, era ela que tinha de fazer o que tinha de ser feito nos bastidores para que houvesse harmonia.

O trabalho de um líder é estar um passo sempre à frente e procurar as minas num campo minado antes do seu exército entrar. Tinha de estar preparada para o que viesse, e apoiar a equipa. Não sentia um peso em fazê-lo, sentia, sim, uma responsabilidade e prazer. Pela primeira vez na vida, Deborah, sentiu-se verdadeiramente útil. Que estava a fazer algo para apoiar, para ajudar, para fazer parte de um todo, em vez de ser para agradar alguém em particular e sentir-se aceite. Servir os outros, trabalhar para um bem comum.

Sempre que podia, agradecia o patrão pela confiança que colocou nela e sossegava-o de que podia cuidar da sua esposa com toda a sua dedicação visto ela estar a cuidar da sua empresa com a mesma dedicação.

Três semanas se passaram e nem sinal do Pablo. Deborah, sentia um alívio relativamente a isso. Não sabia como é que uma orquestra toca com dois maestros, e temia não ser capaz de trabalhar em harmonia com o filho do patrão, que todos diziam que era mais exigente e menos caloroso que o Sr. Ruiz.

A sua rotina mudou ligeiramente, visto ser a primeira a entrar e a última a sair da empresa. Abria o escritório e fazia questão de o fechar. Numa das noites em que estava sentada no computador a fazer o relatório de progresso, ouviu um ligeiro bater da porta. Levantou os olhos do ecrã e viu um homem alto, moreno, com a pele bronzeada, e o cabelo ligeiramente descaído para a frente, em cachos, quase a tapar os olhos. Tinha uma presença incrível e olhava para ela com curiosidade.

- És tu a galinha dos ovos de ouro do meu pai. – perguntou, sorrindo com um tom de brincadeira.

- Galinha de ovos de ouro não sei, mas sim a diretora adjunta. – Por algum motivo respondeu com alguma animosidade. Surpreendeu-se com a própria resposta.

- Já percebi que não aceitas uma pequena piada. – respondeu Pablo, mudando a postura. – Não volta a acontecer. Também não vim aqui para brincar.

- Obviamente. Não estamos no parque, pois não? Pelo menos a última vez que olhei era uma agência de marketing. – surpreendeu-se novamente com a sua resposta.

- Deborah, boa noite. Vou recomeçar. – Pablo, respondeu cansado e sem vontade de continuar com a troca de palavras amargas. – Perdoa-me por não ter iniciado a conversa da forma correta. Boa noite, o meu nome é Pablo Ruiz.

- Boa noite. – ajeitou-se na cadeira e mudou ligeiramente o tom. – O meu nome é Deborah. Lamento se de alguma forma não fui correta.

- Eu iniciei a conversa com uma piada de mal gosto, mereço o retorno. – Sorriu novamente, mais leve. – Portanto, mereci. Mas, confesso que vim em paz e não quero passar a mensagem errada.

- Obrigada pela compreensão. Como posso ajudá-lo? – questionou, tentando forçar um sorriso, por algum motivo este homem a deixava nervosa.

- Muito pelo contrário, eu é que vim saber de que forma é que te posso ajudar, e agradecer. Agradecer por estares a tomar tão bem conta da empresa do meu pai. Se não fosse por ti, teria de estar eu aí no teu lugar. Por isso, obrigada.

- Oh… - sentiu-se envergonhada – Obrigada, Sr. Pablo…

- Por favor, só Pablo.

- Ok. Pablo. – Sorriu, desta vez genuinamente. – É um prazer para mim estar a apoiar o Sr. Ruiz. Ele tem sido muito bom para mim, como um pai. Aceitou-me nesta empresa há alguns anos atrás sem eu ter qualquer tipo de experiência e tem-me ensinado tanto. Só posso estar feliz por poder estar a ajudar, e espero estar a superar as expectativas. Tenho feito o meu melhor.

- Tens feito mais do que o teu melhor, Deborah. O meu pai está mais feliz, dentro do possível, desde que sentiu que fez bem ao apostar em ti durante todos estes anos, porque agora estás a ser a melhor ajuda para ele. – Levou a mão ao cabelo, a afasta-lo dos olhos, e sorriu genuinamente. – Tens sido uma ajuda para a família, por isso vim saber se precisavas de ajuda, visto eu não estar a fazer a minha parte, e agradecer-te.

- Só estou a fazer o meu trabalho. E, fico feliz que o patrão esteja a gostar. – respondeu envergonhada.

- Tenho a sensação de que não gostas de receber elogios. Estou certo?

- Só estou mesmo a fazer o meu trabalho… - respondeu e deixou o silêncio arrastar-se por vários segundos – Mas, relativamente à tua questão, Pablo, não preciso de ajuda. Ao menos neste momento, não preciso. Tenho estado a fazer os relatórios de progresso, em contacto com os vários departamentos, está a correr tudo bem… Porém…

- Diz-me. Porém…

- Porém, não tenho a certeza de como analisar o relatório de contas, por vezes os números fazem-me confusão… Confesso que não são o meu forte.

- Estás a fazer isso, neste momento? – Pablo aguardou a resposta positiva de Deborah. – Então, chega para lá. Vou ensinar-te a ler esses relatórios e vais ver que os números deixam de te fazer confusão. Deixa-me ser-te útil. – Apanhou a cadeira que estava em frente à mesa da Deborah, e colocou-a ao lado dela.

- Obrigada. – Deborah, afastou-se para deixá-lo sentar-se ao seu lado. A proximidade incomodou-a um pouco, mas não questionou o motivo.

Ficaram horas a analisar os relatórios e Deborah, surpreendeu-se com a facilidade em entender o que significavam quando sabia o que estava à procura. Pablo, conseguiu tornar algo que para ela era um bicho de sete cabeças, em algo divertido. Ele era muito atencioso, e explicava com prazer. Sentia paixão na voz dele ao falar em números.

Decididamente, tinha muitos traços do pai dele. Era mesmo muito atencioso e parecia dedicado, não entendia porque motivo não ficava ele na direção na ausência do pai.

- Deborah, acho que por hoje chega. Não vais tirar um curso numa noite. – disse Pablo, a brincar. – Para a semana, se quiseres eu volto e continuamos a ver outros detalhes e ensino-te uns truques para tornar isto ainda mais fácil. Para saberes ver o que tens mesmo de procurar e ensinar-te a ver os alertas amarelos antes que eles se tornem vermelhos.

- Obrigada. Nem dei conta de o tempo passar. Obrigada, Pablo, realmente esta era a minha maior dificuldade. Agradeço. – Sorriu aliviada por aprender algo que era importante para a sua nova função.

- E comer? Comes? Que tal, sairmos daqui e irmos comer qualquer coisa antes de te deixar em casa?

- Comer? Ah, não… Obrigada. Eu não costumo comer a estas horas. E, não te preocupes, não precisas deixar-me em casa. Eu apanho um táxi.

- Não comes a estas horas? Não me digas que és daquelas mulheres que passam fome para não engordar? Não me digas isso! – sorriu. – E, achas que o meu pai algum dia ia perdoar-me, por fazer-te ficar no escritório estas horas todas e não te deixar em casa? Para além disso, não foi assim que fui educado.

- Nada disso. Não passo fome, mas não como a estas horas, só isso. Amanhã eu como um pequeno-almoço extra. E, não te preocupes eu não digo ao teu pai que fui de táxi.

- Ok. Não comes, não insisto. Mas, vou deixar-te em casa. Não faço as coisas porque os outros vão saber que eu fiz ou não, Deborah. Mas, porque faço o que eu acho correto. E, neste momento, acho correto deixar-te à porta de casa.

- Se insistes… Não vou recusar. Mas, aviso que não sou boa companhia no carro.

- Duvido. Tens sido uma excelente companhia. Tenho a certeza de que não me vais desapontar.

Pablo, levou-a até casa. Pelo caminho, tentou fazer conversa, mas Deborah fechou-se em copas, dizendo que estava cansada e que se ele não se importasse iria fechar os olhos por uns minutos. Ele consentiu e fez o resto da viagem em silêncio. Parou o carro na entrada, saiu e abriu a porta para ela sair. Tinha feito o mesmo quando ela entrou no carro, o que a surpreendeu bastante. Não sabia que os homens ainda faziam este tipo de coisas.

- Obrigada, Pablo. Desculpa não ter sido grande companhia na viagem, mas confesso que não gosto muito de falar de mim. – desculpou-se não querendo parecer ingrata.

- Foi um prazer, Deborah. Uma mulher misteriosa é deveras interessante. Fazes-me querer trazer-te para casa mais vezes. – Sorriu- Foi uma noite agradável, obrigada. Posso despedir-me de ti?

- Isso de misteriosa não sei. Claro que sim, boa noite. – respondeu.

Pablo, aproximou-se dela e deu-lhe um beijo ternurento na face. Deborah, estremeceu dos pés à cabeça com a proximidade e com o seu toque. Ficou à porta de casa, a vê-lo entrar no carro. O coração bateu aceleradamente ao vê-lo desaparecer na linha do horizonte, como se tivesse medo de não o voltar a ver. Entrou em casa confusa, sem perceber o que tinha acabado de acontecer.

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