Capítulo 12 - Armando
Capítulo 12 – Armando
Acordou com o sabor de sangue na boca. A dor que
sentia no corpo fê-lo gritar de imediato. Tentou levantar-se, mas não conseguia
mexer a perna. Pior, não conseguia mexer o corpo. Estava confuso se não se conseguia
mexer por dor, raiva ou humilhação. Tentou pensar no que se tinha acabado de
passar, mas voltou a perder os sentidos.
Voltou a si, horas depois, e já nem forças tinha
para gritar. Respirou fundo, e até a respiração foi dolorosa, como se tivesse a
atirar estilhaços de vidros para os pulmões… Lembrou-se do telemóvel e com dificuldade
conseguiu chegar ao bolso. Felizmente ainda tinha uns pauzinhos de bateria… Com
os dedos dormentes, conseguiu ligar para o 112 e balbuciar um pedido de
socorro.
- Preciso… de… ajuda… Sem ar… Agredido… Mexer não
consigo…
- Onde se encontra? Diga-me onde está?
- Casa… a morada… - Armando desfaleceu novamente
sem ter a noção se iria ser socorrido.
Voltou a abrir os olhos, tentou arrastar-se até à
porta, gemeu, chorou, sentia-se a morrer… Não sabia há quanto tempo estava ali.
Mal se conseguia lembrar do que se tinha passado. A Deborah… A rainha… A cadela.
Como pode ter coragem? Quem pensava ela que era? Como? Custava-lhe acreditar no
que se estava a passar, tanto quanto lhe custava respirar. Tentou chegar ao
manípulo da porta, mas sem qualquer tipo de sucesso. Tentou ligar novamente
para pedir socorro, mas assustado percebeu que não tinha bateria. Fechou os
olhos com um último suspiro e deixou-se ir, não tinha mais forças para lutar
aquilo que lhe estava a acontecer. Numa outra vida ajustaria contas com a
Deborah…
Não sabia se estava vivo, se estava morto… As imagens
iam e viam à sua cabeça. Parecia um sonho… Ora, reconhecia o passado, ora percebia
que estava algures onde nunca esteve. Repetia-se a luta com a Deborah em “loop”,
sempre a mesma coisa… Voltava ao dia do casamento, o sorriso nos olhos, a
felicidade dela, a promessa de para sempre… O dia no parque, a inocência que o
encantou… O olhar de tristeza na cama, a vontade de o agradar que tanto o
irritava… A confusão no olhar, a resignação… O dia de casamento, a noite de
núpcias com a mulher e de seguida com uma prostituta… O primeiro estalo… As primeiras
lágrimas… Os silêncios… O dia do casamento, o sorriso nos olhos… O olhar vazio
enquanto a possuía… O dia no parque, o olhar de esperança… A raiva nos olhos… Uma
ida à praia, a Deborah de mãos dadas com outro homem, a sorrir, a dizer que ele
a fazia feliz como o marido nunca a fez… A voz dela a dizer: ainda bem que ele
morreu… A raiva… A raiva que sentia dela… O ódio dela por ele… Ódio por ela… O
dia no parque… O sorriso no dia do casamento… A prostituta com quem teve
realmente prazer na noite de núpcias… A dificuldade em abraçar a mulher… O
tesão por todas as outras… A pica… A adrenalina de possuir… A Deborah deitada
na cama com os olhos no teto…
Abriu os olhos com muito custo. Sentiu a boca seca.
Tentou falar, mas as palavras não saiam, nem o objeto que tinha a tapar a boca
ajudava. Levou a mão à cara e tentou retirar aquela coisa que o prendia a cara…
A mão não chegou nem a meio do caminho e voltou a descair, sem forças.
Girou ligeiramente a cabeça, com um esforço que lhe
pareceu de outro mundo. Tentou ajustar os olhos e perceber onde estava… Ao
longe um vulto a correr na sua direção. Em seguida vários… Um tumulto à sua
volta e vozes aceleradas a dar instruções… Fechou novamente os olhos. Deixou-se
estar.
- Bem-vindo, pensamos que o tínhamos perdido.
- Uhm… Uhm… - Armando não consegui responder.
- Não faça esforços, Sr. Armando. Com calma.
- Uhm… Deborah… - conseguiu balbuciar.
- Vá, vá… Vamos nos focar em si. Vou fazer-lhe alguns
testes. Esteve muito tempo “ausente”. – respondeu o médico enquanto analisava.
- Deborah… Esposa… Onde estou… - respondeu agitado,
tentando soltar-se.
- Fico contente que esteja a falar, isso é muito
bom sinal. Mas, preciso que se acalme. – Olhou para a enfermeira ao lado –
Prepara o sedativo, o paciente está muito agitado. – Novamente para Armando –
Tente acalmar-se.
Passaram-se semanas, e Armando ia melhorando de dia
para dia. Percebeu que a equipa médica não tinha esperanças que ele acordasse, visto
que esteve pelo menos 3 meses em coma num quadro clínico muito reservado.
Ficaram surpresos com a melhoria que foi apresentando. No início tentou perceber
o que se passava, pediu que chamassem a esposa, mas depois lembrou-se que tinha
sido ela a deixá-lo nesse estado. Deixou simplesmente de perguntar por ela.
A polícia esteve no local, por pelo menos três
vezes a tentar perceber o que se tinha passado.
- Como já lhe disse, senhor polícia, eu cheguei a
casa. Fui atacado.
- E a sua esposa? O que é feito da sua esposa?
- Acordei no hospital, como hei de saber? Estou aqui,
ela não está… Acho que essa pergunta devia ser eu a fazer-vos, onde está a minha
esposa?
- A sua esposa, não é vista desde o dia do
incidente.
- Que incidente?
- O incidente no qual o encontramos à beira da
morte na porta da sua casa…
- E, o que têm feito para encontrá-la?
- Temos feito o possível, só…
- Só? Deixe-se de rodeios, por favor.
- Durante a investigação percebemos que as roupas
da sua esposa não estavam em casa, não encontramos vestígios de sangue dela
pela casa, nem rastros… Chegamos à conclusão de que… Se calhar… Foi ela que o
deixou nesse estado.
- Está a insinuar que foi a minha esposa que me
colocou nesta cama de hospital? Que não sou homem para lidar com uma mulher? – mentiu
descaradamente – Eu já disse que eu entrei em casa, fui atacado, pelo menos
dois homens, que eu me lembre, até porque ainda dei luta, como seria de
esperar, de um homem com o meu porte, e levaram o melhor de mim…
- As nossas investigações levaram-nos a concluir
que não houve arrombamento. A pessoa que o atacou ou estava dentro de casa, ou
tinha acesso à casa… As roupas que não estavam no quarto da sua esposa, as
caixas de joias vazias, mas arrumadas… Levou-nos a concluir que a sua esposa
poderá estar envolvida no caso. Temos tentando encontrá-la desde então.
- Fiquem lá com as vossas teorias. O que preciso de
saber é onde está a Deborah. – disse irritado.
- Estamos a fazer todos os esforços para encontrá-la.
- Mas, obviamente não os suficientes…
- Desde a noite do incidente que não há quaisquer
vestígios da Sra. Deborah. Uns dias antes, ela levantou uma quantidade avultada
de dinheiro e fechou a conta.
- Dinheiro? Conta? A Deborah, só tinha contas
conjuntas comigo e nem tinha acesso a elas.
- Pelos vistos há muita coisa que não sabe sobre a
sua esposa… daí termos concluído que ela esteja envolvida no incidente.
- Mas, vocês estão à procura dela ou preocupados em
dizer que a minha mulher atacou-me e fugiu de mim? É isso? – respondeu irritado.
- Estamos à procura, mas também estamos a tentar
perceber o que se passou Sr. Armando. Quase perdeu a vida, está neste hospital
há 6 meses. Temos procurado a sua esposa como suspeita, agora se nos dá outra
versão, teremos de redirecionar a investigação.
- Exato. Direcionem os vossos esforços para encontrarem
a minha esposa.
- Como suspeita, ou como vítima? – perguntou o
polícia.
- Como quiserem, apenas encontrem-na.
Cada dia que passava ficava mais furioso. A cadela
tinha planeado tudo ao detalhe. Fingia-se a mulher perfeita e não passava de
uma cadela como todas as outras. Com mulheres ele tinha dificuldades em lidar,
com cadelas ele sabia muito bem como o fazer. Quando uma cadela se vira contra
o dono, só há uma solução: o abate!
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