Capítulo 11 - Reviravolta
Capítulo 11 – Reviravolta
O que dizer? Como explicar o que tinha acabado de
acontecer? Três dias dentro de casa, em frente ao computador. Três dias dentro
dela. O mestre tinha um dom. Com uma
energia contagiante e uma força suprema, tinha o dom da cura. Mas, um dom diferente.
O dom de dizer “abre-te Sésamo” e fazer com que as pessoas acedessem aos próprios
tesouros escondidos. Ao menos, foi assim que Deborah se sentiu. Sentiu que foi às
profundezas da alma lavar as suas próprias dores.
Parecia que tinha lutado com as suas dores, mas
vencido a batalha. Os três dias pareceram uma vida. Falaram de tudo sucesso,
medos, responsabilidade, feridas emocionais, crenças, emoções, doenças psicossomáticas,
relacionamentos e até de finanças. Parece que o mestre tinha acedido à sua alma
e lido tudo o que precisava de ser tratado e trazido como que num curso de cura
intensiva de três dias.
Havia muita coisa para resolver, mas as meditações
poderosas que fizeram derrubaram as primeiras camadas de crenças e historinhas
que andou a contar a si mesma. Coisas que enterrou dentro de si desde criança
vieram à tona como se sempre estivessem ali presentes a flutuar. E, a verdade é
que estavam. Nunca tinham sido enterradas, estavam a flutuar e ao comando da vida
dela sem ela ter a mínima ideia.
Já há muito que havia assumido responsabilidade pelo
que aconteceu no seu relacionamento, ao menos pelas suas ações, e agora tinha a
ideia de onde vinham os verdadeiros problemas. Decisões fáceis levam a vidas difíceis…
Tão verdade. Tinha sido muito mais fácil ficar a viver aquele pesadelo do que
decidir sair. Ao menos era um pesadelo que já conhecia, já se tinha habituado à
dor. Viveu em estado de dormência por 10 anos, e demorou 5 outros cinco anos a
aceitar o que tinha acontecido. Mas, agora sabia de onde tinha vindo e sabia
também qual o caminho para seguir em frente.
Era incrível, a sensação de alma lavada. Chorou baba
e ranho… O exercício do perdão foi o que mais a abalou. Sentiu que tinha de perdoar
o Armando, mas percebeu que primeiro tinha de perdoar-se a ela. Percebeu as origens
do seu pesadelo e tomou a decisão mais difícil da sua vida: teria de voltar a
Portugal. Não podia continuar a fugir de quem era, nem do passado.
Apesar do caminho difícil que tinha de seguir,
acordou surpreendentemente mais leve e não teve pesadelos. Dormiu descansada e
até as cores do nascer do sol pareceram mais brilhantes. Como que um raio de
luz a banhasse, a envolvesse e a protegesse. Sentia-se preparada para
enfrentar-se a si mesma e aos fantasmas do passado.
Tinha de ter uma conversa com o Sr. Ruiz, pedir-lhe
um mês de férias. Precisava de ir para Portugal o quanto antes, e de tempo para
o fazer. Entrou no escritório e, encontrou o patrão sentado à janela. Era
sempre o primeiro a chegar…
- Bom dia, Sr. Ruiz. – disse baixinho como que se
não quisesse atrapalhar os seus pensamentos.
- Deborah! Bom dia. – respondeu sorridente, mas
cabisbaixo.
- O que se passa? – Deborah, viu algo estranho nos
seus olhos.
- A vida… Minha querida, a vida a acontecer. – Olhou
para ela e sorriu. – Mas, pelo que vejo a vida também te está a acontecer, mas
pelo lado positivo. Estás com um brilho diferente. – Sempre tinha sido muito
atento.
- Uma transformação. Mas, falamos sobre isso
depois. Conte-me o que o preocupa tanto? – voltou a perguntar, genuinamente
preocupada.
- A minha mulher… Quis o destino que a nossa reforma
não fosse como ela esperava… Está com cancro… - falou, visivelmente abalado.
- Sr. Ruiz – Deborah, levou a mão à boca e abraçou-o.
Nunca o tinha abraçado, e naquele momento pareceu o que fazia sentido.
Choraram juntos, como se de um pai e de uma filha
se tratasse. O patrão quebrou o abraço.
- Deborah, vou precisar de ti, minha querida.
Preciso estar presente neste momento, eu tenho a certeza de que vamos conseguir
ultrapassar esta doença, mas preciso de ti. Preciso de ti para cuidares da
agência. Ninguém melhor que tu para o fazer. Sabes como eu penso, como gosto de
ver as coisas, tenho-te treinado para isso há algum tempo e tu sabes disso.
- É muita responsabilidade…. Eu… Não sei como dar
conta… Entendo de marketing, mas o resto… A gestão, os colegas… Não saberei
como liderar, Sr. Ruiz.
- Tu tens muito mais potencial em ti do que
imaginas. Eu acredito que farás o teu melhor e isso para mim já é o suficiente.
Eu sei que é pedir muito, mas não vejo outra forma. Com esta campanha que está
a decorrer, não podemos fechar, parar…
- Eu compreendo, mas.. Eu…
- E, não te preocupes. O Pablo vem ajudar-te com a
gestão. Ele é um às na gestão de empresas. Quem sabe vai curar os males que
aqui estão. Vocês os dois juntos farão uma grande equipa.
- O seu filho? Mas, o Sr. Ruiz diz que ele nunca se
interessou pela agência… Ele vem? E, se ele me deixar sozinha?
- Já conversei com ele e, foi até ele que se
ofereceu. Não vai requerer a presença dele diariamente aqui. Ele irá
orientar-te na parte da gestão e apoiar-te, apenas isso. Efetivamente, serás tu
no comando.
- Eu não trabalho bem com pessoas… Ai, não sei… Muita
responsabilidade – tremeu…
- Eu preciso de ti aqui Deborah… Não vejo outra forma
de continuar o trabalho na minha ausência. Desculpa colocar-te nesta situação,
mas preciso de ti…
- Claro. Claro. Nem podia ser de outra forma. Vá
cuidar da sua mulher que eu farei o melhor que posso. – Deborah consentiu,
olhando com carinho para o homem que também lhe havia salvo a vida há anos
atrás.
- Obrigada. – Sorriu. – Anda, vou dizer-te o que há
para fazer.
Passaram o dia no gabinete. Contratos, campanhas,
funcionários, etc. etc. etc. Deborah, terminou o dia com dor de cabeça. Bombardeada
com tanta informação e aterrorizada com a responsabilidade que lhe haviam
colocado nas mãos.
Só quando chegou a casa percebeu que não tinha
sequer tocado no assunto que a tinha levado mais cedo ao escritório. Infelizmente,
tinha de adiar os seus planos por uns tempos. Não se tinha colocado em segundo
plano com a intenção de agradar, tinha essa noção. Tinha a noção de que aceitou
por vontade própria, e esse já era um grande passo. O Sr. Ruiz, era como um pai
para ela, acreditou nela e deu-lhe um motivo para se levantar da cama nos últimos
anos. Era mais do que justo, ajudá-lo neste momento de dor. Mais do que justo.
Sentou-se na janela a ver a Lua iluminar o mar.
Sentia-se mais leve e, sabia que era apenas um adiar. Iria a Portugal assim que
pudesse, não iria voltar a fugir.
Mas, por mais incrível que lhe parecesse, quando
pensava em Portugal já não sentia medo. O que nesse momento mais a preocupava
era conhecer o Pablo. Por algum motivo sentia um nervoso miudinho ao pensar no
filho do Sr. Ruiz. Não sabia bem porquê, mas algo a deixava ansiosa.
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