Capítulo 10 - Mestre da Sua Vida
Capítulo 10 – Mestre da Sua Vida
Estava na hora de enfrentar um dos fantasmas que
carregava consigo: ela própria. Uma das primeiras coisas que fez, assim que
aprendeu espanhol corretamente, foi procurar uma psicóloga. Pensou que de
alguma forma iria ajudar com os ataques de ansiedade, os ataques de pânico, o
pavor de estar com pessoas e os pesadelos.
A terapia ajudou muito a compreender o que se
passou com o Armando. O motivo pelo qual ela aceitou o que aceitou, e as coisas
aconteceram da forma como aconteceram. Falar sobre isso com alguém desconhecido,
de outro país, e que tinha um voto de confidencialidade permitiu-lhe falar
abertamente e honestamente.
Nas primeiras sessões pouco falava, sentava-se no
sofá e respondia sim e não, ou simplesmente não respondia. Entretanto, foi-se soltando
e percebeu que falar sobre isso ajudava. Pelo menos trazia um alívio que só
Deus sabe. Não faz ideia de quantas lágrimas derramou naquele consultório, mas
a Dra. Ortiz, sempre muito profissional, garantiu-lhe que esse era um dos
caminhos para a cura.
- Nem sei de onde vem isto. – desculpou-se – parece
que venho aqui apenas para chorar.
- A Deborah, tem de se libertar do que tem aí
dentro, só assim podemos abordar o assunto e arranjar uma forma de seguir em frente.
- Eu só queria agradar, ser a mulher perfeita.
Pensei que quanto mais o agradasse mais possibilidades tinha de isso acontecer.
Mas, nada do que eu fazia parecia suficiente e quanto mais “perfeita” ficava,
mais ele se afastava de mim.
- E, porquê Deborah? A necessidade de ser perfeita…
- Eu tinha de ser perfeita, só assim uma mulher
consegue manter um homem. O que vemos nos filmes e nas novelas é tudo mentira,
temos de ser perfeitas…
- O que a faz acreditar nisso? Que tem de ser
perfeita para manter um homem, um casamento…
- Nós as mulheres viemos ao mundo cheia de
imperfeições, imperfeições essas que temos de quebrar para que possamos nos tornar
nas mulheres ideais…
- E, como pode fazer isso? Como pode uma mulher
tornar-se ideal?
- Agradando o marido. Fazendo tudo o que ele quer.
Não questionando, não falando sem ser questionada, não abordando assuntos desagradáveis,
não deixando a casa desarrumada, não deixando de fazer o comer…
- Tantas coisas que a mulher não deve fazer. Existe
alguma coisa que a mulher deve fazer, Deborah?
- Servir. Agradar sexualmente o marido. Estar
sempre preparada para ele poder aliviar o seu stress.
- Estou a ver. E, agora Deborah? Continua a achar
que a mulher deve ser perfeita, e não deve fazer tanta coisa, e deve obrigatoriamente
servir o marido sexualmente?
- Eu sei que quer que eu diga que não… Eu sei, mas…
Eu iria mentir se dissesse que não. Eu sei que a resposta correta é não, mas
dentro de mim a resposta é sempre sim. Não entendo, eu quero acreditar, mas não
consigo. – Soluçou desenfreadamente.
- É para isso que estás aqui, Deborah. Estás aqui
para entender isso…
E, na realidade com o tempo conseguiu perceber.
Conseguiu entender que a relação entre um homem e uma mulher não é serviçal.
Entendeu que um homem e uma mulher devem ser amigos e cúmplices, tanto no dia a
dia como no sexo. O que se passou durante anos com o Armando era algo disfuncional
e fora do normal, e um dos maiores motivos para perpetuar a situação foi o facto
de não pedir ajuda. De fechar-se em copas. Lembra-se que uma vez tentou falar
com a mãe sobre isso, mas obviamente que a conversa não aconteceu e a mãe
confirmou o que sempre dizia, que se houvesse algo errado, ela é que não estava
a fazer o que o Armando queria.
Mas, felizmente isso estava no passado. Após dois
anos de terapia semanal, passou a ver a Dra. Ortiz quinzenalmente, e outro ano
após isso, as consultas passaram a uma vez por mês, até deixarem de existir.
Contudo, a terapia serviu para ajudar com a ansiedade,
a depressão, o desespero que sentia, a falta de alento… Ajudou a aceitar o
passado, e a seguir com o presente. Os pesadelos eram outra coisa. Os pesadelos
eram uma parte dela que não se queria libertar porque havia algo mais a fazer:
lidar com ela mesma.
Deborah, entendeu que o maior problema do seu
casamento não foi o Armando, mas ela. Ela foi a maior responsável por tudo o
que aconteceu, porquê? Porque permitiu, porque aceitou, porque deixou-se ficar,
porque esforçou-se para mudar algo que não dependia dela, porque isolou-se do
mundo… Sim, foi a maior responsável por ter ficado. O Armando podia ser a
pessoa que era, mas só o foi com ela porque ela o permitiu. Gravou na sua mente
as palavras que leu no livro Conversas com Deus: “o abusador, também está a ser
abusado, quando lhe é permitido que o seu abuso se perpetue”. Ou algo do género,
basicamente ao permitir o Armando fazer o que fazia, não lhe dava a oportunidade
de ver que estava errado, ou até de parar com esse comportamento e entender que
a situação não era normal.
Ao invés disso, continuou a fornecer a “droga” ao “drogado”,
basicamente era como se ela alimentasse o hábito dele de maltratar e tratar as
mulheres como objetos e troféus.
Sim, assume a sua responsabilidade. Demorou muito a
aceitar esta realidade, até porque durante anos culpou o Armando, e nunca se
questionou sobre o seu próprio papel. Ao pensar assim não estava a justificar o
comportamento dele, estava apenas a analisar as suas ações e a perceber que
poderia ter tomado outras decisões, que teriam obviamente levado a resultados
diferentes. Por exemplo, ter saído antes…
Passado 5 anos, desde que entrou no comboio, Deborah,
percebeu que tinha agora de trabalhar nela. Cada um demora o seu tempo, na vida.
Precisou de 5 anos para perceber e aceitar o passado. Agora, precisava de
perceber e aceitar a Deborah. Entender quem ela era e qual era o seu papel no
mundo. Tinha de aceitar-se como é. Mesmo no trabalho continuava com a necessidade
de agradar as pessoas, isso era algo que tinha mesmo de trabalhar. Fazia os possíveis
para fazer o seu trabalho da melhor forma para agradar o senhor Ruiz… Não era
errado querer fazer o melhor no seu trabalho, o errado era sentir a necessidade
de agradar para ser aceite por uma pessoa, que claramente já a havia aceite.
Percebeu que esse era o vício dela, um vicio que
carregava desde criança e que estava na hora de mudar. O “drogado” em abusar os
outros era o Armando, mas a “drogada” em fazer o que tiver de ser para agradar
era ela. Juntou-se o esfomeado com a vontade de comer, normal que as coisas
tivessem dado para o torto.
Nos últimos anos tinha absorvido muitos livros, mas
apenas colocado algumas coisas em prática. Apesar de ter alterado muita coisa,
ainda havia muito para trabalhar. E, sabia que para realmente avançar teria de
trabalhar nela, não na situação, no que viveu, mas nela.
Sentou-se em frente ao computador. Tinha tirado três
dias para participar no evento. Em todas as coisas menos positivas que
acontecem, existe sempre algo de positivo a acontecer. E, esta era uma delas. A
possibilidade de participar em eventos sem ter de estar lá presencialmente. A
pandemia tinha ajudado a trazer Portugal para mais perto de si, e acesso a
coisas que tinha vindo a acompanhar e que, por motivos óbvios, não podia fazer
parte em terras lusas.
Estava na hora de ser a mestre da sua vida, como
tantas vezes tinha ouvido o “mestre” dizer no seu canal do Youtube. A música
tocava enquanto aguardavam pelo início do evento, no chat os “colegas” enviavam
mensagens de bom dia, ansiosos para embarcar na viagem. Confessou que sentia
receio, porque sabia que não sairia dali a mesma. O mestre entrou com uma
energia e boa disposição oque imediatamente acalmou-a.
- Vamos lá, Deborah, está na hora de “Master Your
Life”. – Falou consigo mesma. Do outro lado do ecrã o mestre Luís Fernando da
Allcan, preparava-se para mudar a sua vida.
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