Epílogo
Epílogo
Os homens são todos iguais… Sempre ouvi dizer.
Sempre presenciei, e sempre aceitei essa verdade indiscutível. Os exemplos à
minha volta, as pessoas que me rodeavam, confirmavam essa triste realidade: os
homens são todos iguais.
Durante muito tempo mentia-me a mim mesma de que
não acreditava em tal coisa, que comigo seria diferente. Melhor, se encontrasse
um homem igual aos outros seria a primeira a sair. Não quero quem não me quer.
Tão simples assim. Não sou mulher de ficar onde não me valorizam e onde não me
aceitam.
Parvas são as mulheres que ficam. Parvas são as
mulheres que se deixam ficar. Nem sei o motivo de aguentarem tal humilhação.
Mulheres capazes e lindas, e deixam-se ficar ali naqueles casamentos e
relacionamentos horríveis… Que horror… Se os homens são todos iguais então não
quero um homem para mim e pronto. Dizia que ia encontrar o homem que provasse
que existia um, pelo menos um, que era diferente. E seria meu.
Ah, meu e todo o meu. Claro que para que fosse meu
e continuasse meu eu seria a mulher perfeita. Seria a mulher que dá tudo o que
ele quer, quando quer, como quer. Afinal, assim conseguiria garantir que ele
ficasse, que ele fosse diferente.
Os homens são todos iguais, mas o meu seria
diferente. Iria provar à realidade à minha volta de que eu seria a heroína que
iria conquistar um homem e fazer com que ele fosse diferente. E, se ele não
quisesse ser, então iria desta para melhor. Adeus… Até à próxima. Ai de mim,
ficar com um homem que fosse igual aos outros. Ainda por mais, sendo eu a mulher
perfeita.
A mulher perfeita, sabes? Aquela mulher que sabe
cozinhar, que cuida da casa, que sabe o que dizer, o que falar, que é uma fera
na cama. Ah pois… Com o meu jogo de cintura e de ancas nem haveria motivo para
ele querer ser igual aos outros. Haveria de ter tudo aquilo que ele sempre
quis, ali ao meu lado, comigo. Nem teria como ser igual aos outros. Não comigo.
Quem tem a mulher perfeita não precisa de ser igual aos outros, certo?
Então, tratei de ser a mulher perfeita. A minha
vontade de provar ao mundo que os homens são todos iguais, sim, são todos
iguais, mas o meu seria diferente era maior do que tudo. Precisava de provar
que se eu quisesse conseguia pegar num homem igual aos outros e torná-lo
diferente. Para isso só tinha de ser perfeita…
Mas, atenção a perfeição depende desse homem. Teria
de aprender o que lhe agrada, o que o incomoda, o que o satisfaz… Teria de ser
perfeita para esse homem em particular e provar que comigo seria diferente.
E, atenção, muita atenção, se ele ficasse igual aos
outros, eu não estaria mais por ali. Seria a primeira a sair. Nunca na vida
iria aceitar uma humilhação. Onde é que já se viu a mulher perfeita a não
conseguir mudar um homem e torná-lo diferente.
Claro que a perfeição tinha os seus custos,
obviamente. Eu tinha a noção de que a perfeição tinha os seus custos, afinal de
contas, ser perfeita, ser a mulher perfeita não é fácil. É mais difícil ser
perfeita do que mudar um homem, mas valeria a pena. Até porque a mulher
perfeita nunca ficaria com um homem que não fosse diferente…
Enfim, os homens são todos iguais e eu seria a
mulher perfeita. A mulher que iria provar ao mundo que conseguiu tornar o seu
homem o único homem diferente. A mulher perfeita que nunca na vida iria aceitar
menos de que um homem diferente…
Parei de divagar nos meus pensamentos com o coração
nas mãos. Era dor era muita e não sabia de onde vinha. Não conseguia dizer se
era do coração, se era do estômago, da garganta, das pernas, da cabeça… Doía-me
tudo. Como era possível que a mulher que cala, que não reclama, que faz tudo,
que dá tudo, que é uma safada na cama, não tivesse um homem diferente. Afinal,
a perfeição não era suficiente?
E, aquelas fotos, as mensagens, os sorrisos, as
ausências… Tudo aquilo que fingiu não ver, voltavam que nem um tsunami de
emoções… Era claro que os homens eram todos iguais até serem diferentes. Tudo
bem que aconteceu uma vez, mas seria diferente porque a mulher perfeita iria torná-lo
diferente. Evidente que antes de se tornar diferente iria ser igual, e a mulher
perfeita iria mudar isso… Mas para isso teria de esquecer que havia prometido
que não passava por humilhações…
Aqui estava eu. Com a alma a doer e aos prantos.
Passados tantos anos de perfeição, a mulher perfeita não tinha conseguido
tornar o homem diferente. A mulher perfeita não tinha sido suficiente. A mulher
perfeita aguentou humilhação após humilhação até que… Percebeu que a perfeição
estava a custar a vida.
Valia a pena ser perfeita? Levantei-me e deixei
tudo para trás. Não queria ser a mulher perfeita. Já não aguentava ser a mulher
perfeita. Fechei a porta de casa e nem uma mala trouxe comigo. Só tinha uns
pequenos problemas: não era a mulher perfeita, não sabia quem eu era, nem sabia
para onde ia. Estava ali a olhar para o mundo, como se fosse a primeira vez. A
primeira vez em que percebi que o significado da vida não era ser a mulher
perfeita para tornar um homem diferente. Então qual era?
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