Capítulo 1 - Morta Viva
Capítulo 1 – Morta Viva
Atirou a mala na entrada do minúsculo
quarto do hotel, se é que aquela espelunca se pudesse chamar de hotel, e foi direto
para a casa de banho.
Não
era nada de deslumbrante e especial, mas pelo menos estava limpa. A casa de banho
era antiga, ainda tinha aquela típica banheira branca, com moisaicos brancos,
desgastados, e uma cortina de plástico. Pensou que isso já nem existia nos hotéis.
O lavatório minúsculo, e também de um branco desgastado, tinha um copo com uma
escova de dentes envolvida em plástico e um pequeno tubo de pasta de dentes. Ao
lado do copo encontrava-se uma touca para cobrir o cabelo, e uma barra de sabão.
Sentia a boca amarga de tanto choro e de estar tantas horas sem comer e decidiu
lavar os dentes. Agarrou na escova, deitou fora o plástico que a envolvia no
cesto de lixo que estava por baixo do lavatório, colocou a pasta de dentes e olhou
para o espelho…
Assustou-se
com o reflexo que viu e decidiu fechar os olhos. Não era capaz de se encarar, não
se queria encarar. Não estava preparada para olhar para ela. Era assustador.
Não sabia quem era aquela pessoa. A pessoa que olhou para ela no espelho era
alguém que parecia saída de um filme de terror. Os cabelos desalinhados, os
olhos profundos e com dois círculos negros à volta, as sardas pareciam manchas,
o nariz vermelho e inchado de tanto choro, os lábios secos e as bochechas bem
chupadas e definidas pela magreza característica de quem não se alimenta e se
hidrata há vários dias.
Nem
sabia quando tinha sido a sua última refeição… Sentia-se enjoada e sem forças,
mas não lhe apetecia comer. Tinha fome, mas não lhe apetecia comer… O sabor da
pasta de dentes quase que a fez vomitar, mas não desistiu de esfregar os dentes.
Tinha de começar por algo lado, já que não tinha forças, nem sabia como, limpar
a alma poderia começar por limpar aquele invólucro baço e desgastado que a
envolvia.
Esfregou
os dentes com os olhos fechados, embora o reflexo do espelho estivesse bem presente
na sua mente, bocejou, cuspiu várias vezes, como se isso a ajudasse a tirar de
dentro de si a sujidade que sentia… Entrou na banheira e castigou-se com um
jato de água fria. Quis gritar com o choque, mas guardou o grito na garganta,
como se habitou a fazer com as coisas que tinha por dizer… Começou a tremer da
cabeça aos pés, mas mesmo assim não ligou a água quente. Esperava que aquela
água fria a acordasse para a vida, pois sentia que estava no limbo, nem viva, nem
morta, apenas estava.
Apenas
era algo, nem sequer alguém, que respirava e movia-se nas sombras da sociedade,
nunca na luz… Mulher perfeita não pode dar nas vistas… Deixou-se ficar naquela
chuva de água gelada até sentir os ossos a tremerem. Não percebeu quando as
lágrimas começaram a cair, mas sentiu-as a verter, sentiu algo quente a
escorrer-lhe pela cara. Pensou que já tinha secado as lágrimas, mas afinal ainda
havia mais para chorar.
Pegou
no pequeno frasco de gel de banho, estrategicamente posicionado num suporte ao
lado do chuveiro, e passou pelo corpo. Sentiu a pele gelada e os ossos por todo
o lado. Parecia que a qualquer momento esses ossos iriam rasgar a pele de tão pontiagudos
e proeminentes que estavam. O que lhe tinha acontecido? Como chegou a esse
ponto? Há quanto tempo não se alimentava como deve de ser?
Quando
o corpo já não aguentava mais e conseguia ouvir o tiritar dos ossos, saiu da
banheira. Sentia-se mais leve… Surpreendentemente, sentia que esse duche gelado
tinha levado a última camada da Deborah antiga. O duche tinha levado o que
ainda restava da sua velha vida. Não se deu ao trabalho de cobrir-se com roupa
e fui direta para a cama.
Uma
enorme cama de casal, com duas mesas de cabeceira ao lado. Um cobertor, ou edredão,
já não sabia qual a diferença, branco e quatro almofadas brancas. Imaculada. Foi
a palavra que lhe veio à cabeça para descrever a cama… Imaculada…
Veio-lhe
um flash à cabeça da imagem do seu vestido de noiva. Estava linda, tinha dito a
mãe. Linda que nem um anjo… O vestido tinha sido o vestido da avó, a mãe não
tinha usado porque não eram da mesma estrutura, mas a ela o vestido estava
perfeito. Tinha 24 anos. Estava feliz. Ia casar-se com o amor da sua vida.
Estava pronta para ser a mulher perfeita, porque tinha encontrado o homem
perfeito. O vestido branco rendado, justo, denunciava-lhe as curvas perfeitas. Não
se considerava nem baixa, nem alta. Tinha 1,68m. A pele cor de amêndoa,
brilhante, fazia contraste com o lindo vestido branco. O véu enorme, descaia
que nem um manto e cobria o chão, acompanhando o vestido que se abria no final qual
vestido de uma princesa. Um branco imaculado. Um sorriso lindo…
Abanou
a cabeça, como que para afastar a imagem e deitou-se na cama. Cobriu-se com o
cobertor edredão e tapou a cabeça com a almofada. Queria desaparecer no meio
daquela cama, e quem sabe do mundo. Quem sabe não seria essa a melhor coisa a
fazer. O que estava ali a fazer? O que ia fazer a seguir? Para onde ia? Estava
completamente perdida…
Ouviu
ao fundo o telemóvel a tocar. Até se tinha esquecido que existia um mundo para
além daquele minúsculo quarto de hotel. Não se queria levantar, estava-se nas
tintas para quem estava a ligar. De certeza que era o Armando. Isto é, se ele
ainda se lembrasse dela…
E…
Se ele, e se ele se arrependeu? E, se ele quisesse pedir desculpa? E, se… Tentou
afastar os pensamentos negativos e deixar-se ficar na cama… O telemóvel continuava
a tocar. E, se lhe tivesse acontecido alguma coisa? E, se ele precisasse dela?
Como era possível? Como era possível ela ainda pensar nisso? Meu Deus, que doença
era esta que estava a viver? Contra ela mesma, levantou-se e foi atender o
telefone.
-
Deborah, onde estás pah? Que brincadeira é essa? – Gritou o Armando do outro
lado do telefone.
-
Armando… Eu… Olha…
-
Deixa-te de merdas e vem para casa. Até parece que isto é novidade. Sabes bem
como as coisas são e que eu sou assim. Comigo as coisas são assim.
-
Eu… Não vou voltar…
-
Ai não? E, vais viver do quê? Quem vai comprar as tuas merdas e dar-te de
comer? Achas mesmo que consegues viver sem mim? Deixa-te de cenas tristes e
volta para casa. Não tenho tempo para os teus ataques.
-
Como podes? Armando, como podes dizer isso?
-
O jogo vai começar, por tua causa tive de encomendar uma pizza nojenta porque
não encontrei comer. Vê se te despachas, trazes os teus trapos de volta e vem
para casa. E, espero que não estejas para aí a lamentar-te e a lançar mentiras
para alguém conhecido. Detesto mexericos.
-
Armando… - desligou.
O
telefone voltou a tocar insistentemente… Aquele som era ensurdecedor, não porque
estivesse alto, mas porque era o som do Armando a chamar por ela. Atendeu
novamente…
-
Tu estás mesmo armada em esperta não estás? Não sei que merdas é que andaste a
ler, ou a ver, mas estás mesmo a pedi-las. Se não voltas imediatamente para casa,
quem não vai te querer aqui sou eu. Quero ver quem é que vai te querer. Já
viste bem para ti? Deixa-te de cenas, que não te falta nada, nunca te faltou nada,
e vem agora ou não venhas nunca mais.
Deborah,
desligou o telefone com as poucas forças que lhe sobravam. Calmamente, carregou
no botão até que aparecesse a mensagem “desligar” no ecrã. Colocou o telefone cuidadosamente
na mesa da cabeceira.
A
sua mente levou-a novamente ao dia do seu casamento: “Até que a morte nos separe”.
Viu uma Deborah, jovem, linda, cheia de sonhos a olhar para o homem perfeito,
para o homem da sua vida. Sabia que o iria fazer muito feliz. Armando, com um
sorriso nos olhos, disse que sim. Disse que iria amá-la e respeitá-la até que a
morte os separasse.
De
uma coisa ela tinha a certeza: a morte realmente os tinha separado, porque
fosse lá o que isto fosse, de certeza que não era vida.
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